Capítulo 55: Cansei, não vou mais te servir!
Isadora Matos percebeu que falara demais e baixou a cabeça, fazendo-se de injustiçada.
Desde a morte daquela pessoa, ninguém mais ousava mencioná-lo; até Isadora tentava ao máximo evitar o assunto diante de Bernardo Fontes.
Bernardo conteve suas emoções. — Isadora, eu prometi a ele que cuidaria de você para sempre, mas se você insistir em desafiar meus limites e os limites da lei, não me culpe por quebrar minha promessa.
Dito isso, Bernardo levantou-se, pronto para partir.
Isadora o chamou: — Bernardo, você sabe que eu não quis dizer aquilo. O que eu quero nunca foi seu dinheiro ou seu poder. Eu te amo, eu quero casar com você!
— Você nunca me responde porque sou a filha ilegítima dos Matos? Acha que não sou digna de ser a Senhora Fontes?
Rafael gritava internamente:
Cacete! "What the fuck"! A "Lótus Branca" teve coragem de se declarar abertamente?!
Ele cobriu os olhos, mas não resistiu a espiar por entre os dedos.
Bernardo virou-se e, pela primeira vez, encarou Isadora com um olhar sério e sincero:
— Do início ao fim, eu sempre te vi apenas como uma irmã. Minha promessa foi cuidar de você para sempre, não me casar com você. Entendeu?
Isadora cerrou os punhos com força. — Mas você não tem outra mulher ao seu lado. Não poderia simplesmente aceitar e me escolher?
Os lábios finos de Bernardo curvaram-se em um arco de arrogância gélida: — Quem disse que não tenho uma mulher ao meu lado?
— Você se refere à Alice Guimarães? Você nem gostava dela antes, o Vovô Fontes te obrigou a casar com ela. Ela não é nada! Agora que vocês se divorciaram, ela é apenas sua ex-esposa.
Pela primeira vez, Bernardo agrediu Isadora.
Ele agarrou o pescoço fino dela com crueldade; bastaria um leve esforço para que Isadora morresse.
Mas Isadora não teve medo. Ela sabia que, não importava o erro que cometesse, Bernardo jamais a mataria.
Bernardo devia uma vida a ela.
— Bernardo... você quer dizer que se apaixonou pela Alice e não permite que eu a insulte?
— Ela te enganou. Ela nunca te amou. Todo aquele amor intenso e declarações públicas no passado foram apenas uma aposta com as amigas: ela queria te conquistar para quebrar sua fama de homem frio e abstêmio.
— Bernardo, ela te conquistou e agora que cansou, te descartou. Você ainda gosta dela?
— Se você ainda gosta dela, você é um idiota! Igual a mim, gostar de alguém impossível é ser um idiota!
"Gostar de alguém impossível é ser um idiota!"
Essa frase ecoava incessantemente nos ouvidos de Bernardo.
Ele não podia negar que Alice era especial para ele, mas ele a amava?
Ele não entendia bem esse sentimento; sabia apenas que não suportava vê-la próxima de outros homens.
Quanto à suposta aposta...
Bernardo soltou Isadora e, ignorando seus pedidos histéricos, virou as costas e saiu.
— Investigue se a Alice Guimarães já fez apostas usando a minha pessoa como prêmio.
A pessoa do outro lado da linha hesitou por um segundo: — Sim, senhor.
— Bernardo, você realmente acredita na Isadora? — Rafael entrou no carro. — Eu acho que a Alice não é desse tipo. O amor dela por você era tão escancarado, não parece...
— Rafael. — A voz de Bernardo era fria e carregada de rancor. — Sabe o que eu mais odeio?
Rafael sabia, é claro.
Se for verdade que Alice o usou em uma aposta, ela terá sérios problemas.
Sendo todos de São Paulo e conhecidos há anos, Rafael realmente não queria que Bernardo passasse a odiar Alice.
...
Alice acordou bem cedo. Planejava dar explicações ao Vovô Fontes sobre o divórcio e depois voltar para a casa dos Guimarães.
Assim que desceu as escadas, viu Bernardo sentado na sala de jantar à sua espera.
Ela ajeitou o colarinho, prendeu o cabelo e entrou no recinto.
— Daqui a pouco vamos manter o mesmo discurso: diremos que o sentimento acabou, que o casal cansou da rotina. O vovô vai entender.
Bernardo ergueu o olhar. Seus olhos negros e profundos não revelavam emoção alguma. — Alice Guimarães, foi divertido apostar comigo?
Alice não entendeu: — Que aposta?
— Não quer admitir, não é? Eu não imaginei que a grande Senhorita Guimarães fosse capaz de tal feito: usar o próprio casamento em uma aposta. A união das nossas famílias é apenas um joguinho de criança para você?
Alice não tinha ideia do que o traste estava falando.
— Bernardo, já estamos divorciados. Dá para parar de remoer o casamento por conveniência? Ou será que você se arrependeu e quer de volta as propriedades que me deu?
Bernardo riu com escárnio.
O talento dela para mudar de assunto era só esse?
Bernardo nunca acusava ninguém injustamente, especialmente ela. Sem provas concretas, ele não viria confrontá-la.
Ele tirou uma foto e a jogou na mesa de jantar. — A pessoa na foto é você?
Alice olhou atentamente. Era uma foto de dois anos atrás, quando ela brincava de "Verdade ou Consequência" com algumas amigas. Vitória estava entre elas.
— Sou eu.
— O "desafio" que você aceitou foi conquistar o homem de gelo, tornando-se a primeira-dama da elite, não foi?
Alice não conseguia se lembrar dos detalhes.
Mas se o canalha dizia que sim, que fosse. Afinal, na vida passada ela morreu de forma trágica e ele foi cúmplice.
— Exatamente.
— Vou te dar mais uma chance: sim ou não?
Alice olhou para o olhar sombrio do homem e sentiu uma irritação súbita no peito: — Bernardo, qual é a sua? O que você quer de verdade? Diga logo e pare de joguinhos de palavras comigo.
— Sim ou não?
— SIM! Eu queria te conquistar, casar com você e agora CANSEI, quero minha liberdade. Está satisfeito agora?
Alice jogou a foto de lado com irritação e admitiu tudo de uma vez.
Bernardo conteve a dor lancinante no peito e um lampejo assassino passou por seus olhos:
— Para você, eu fui apenas uma moeda de troca em uma aposta?
— SIM! Para mim, você não conta nem como ser humano, ser uma moeda de troca já foi te valorizar demais! Bernardo Fontes, eu já tive o suficiente desses seis meses de casamento. Não serei mais seu enfeite, nem quero me envolver entre você e a Isadora Matos, para acabar no fim...
...sem vida.
Esse casamento sem afeto e que só trazia a morte, ela não queria mais!
— Somos pessoas civilizadas. Já que nos separamos, não fique mais me perseguindo ou fazendo drama.
— Eu prometi que iria explicar tudo ao seu avô e cumprirei minha palavra. Depois disso, é melhor que nunca mais nos vejamos.
Alice desabafou tudo o que queria de uma só vez.
Ao ver o punho de Bernardo cerrado com as veias saltando, ela sentiu um frio na espinha por um instante.
Esse traste... não seria do tipo que bate em mulher, seria?
— Saia.
— O quê?
— SAIA! — Bernardo gritou, reprimindo a fúria assassina.
Alice bufou, pegou sua bolsa e deu o fora dali.
Ela também temia que, se não saísse logo, acabaria sendo atacada por ele.
O semblante dele estava aterrorizante.
Ao deixar a Mansão do Horizonte, Alice correu sem parar para a casa dos Guimarães.
Antônio convocara uma assembleia de acionistas para passar o cargo para a filha.
Helena também chamara o tabelião para transferir todos os seus bens para Alice antecipadamente.
A família Helena era influente no Sul, e Helena, como primogênita, possuía um dote vasto.
Alice tentou recusar, mas sem sucesso; acabou sendo forçada a se tornar a pessoa mais rica e poderosa dos Guimarães.
— Papai, mamãe, eu sou tão feliz! Obrigada! Vocês são a minha força no divórcio e o motivo para eu querer viver bem!
Antônio e Helena a abraçaram, um de cada lado, e disseram em uníssono: — Nosso tesouro dos Guimarães não será menosprezado por ninguém; você tem que viver como seu coração mandar.
Alice ficou extremamente emocionada.
Seu nome, Alice (Sui-xin - "conforme o coração"), era o maior desejo de seus pais para ela.
— Eu prometo prosperar a nossa família, dobrar o patrimônio dos Guimarães e fazer o meu irmão se tornar um homem de sucesso.
E depois passaria tudo para o irmão e ficaria apenas desfrutando da própria beleza.
Falando no irmão, Alice perguntou curiosa: — Onde está o Leo?
— O moleque não aceitou bem o seu divórcio. Disse que ia na mansão dos Fontes tirar satisfação, ver se você foi maltratada por eles e te defender.
— Por que vocês não o impediram?
Antônio: — Eu que o incentivei a ir.
Alice ficou sem palavras: o pai estrategista, o irmão burro e a mãe pura.
Ela precisava ir resgatar seu irmão idiota!