Capítulo 48: Uma noite de núpcias sozinha no quarto
Durante todo o caminho até encontrar Rafael, a mente de Bernardo estava preenchida pelas palavras de Alice.
As coisas que ela disse ontem à noite, enquanto o abraçava com força... eram todas mentiras?
Dizem que o álcool revela a verdade.
Ela claramente o amava!
Mas por que ela insistia em dizer que ele não valia a pena, chamando-o de cafajeste e dizendo que se arrependera?
— Além de tratá-la com respeito mútuo e não ter consumado o casamento até então, eu a ofendi em algo mais?
Rafael ficou boquiaberto.
Seu melhor amigo tinha caído mesmo na rede?
— Para uma mulher, ser deixada sozinha no quarto na noite de núpcias é a maior das humilhações.
Rafael sentia pena do amigo e começou a analisar seriamente o motivo do colapso emocional dele.
— E no coração da Alice, a existência da Isadora é como um espinho encravado.
Bernardo disse em tom sombrio: — Ela disse que se arrependeu! Humpf, o amor dela é tão barato assim? Acha que eu faria questão?
— Na verdade, as coisas que a Alice fez por você antes de casarem, todos nós, como espectadores...
Rafael engoliu em seco e mudou o tom imediatamente sob o olhar de aviso do amigo. — Ela também é muito inconstante. Esforçou-se tanto para casar com você, não age como a Senhora Fontes e prefere focar na carreira. E o pior: finalmente consegue dormir com um homem maravilhoso como você e, em vez de exigir compromisso e uma vida feliz, usa o ato como moeda de troca. Que maldade!
— Um homem exemplar como você, e a Alice não sabe valorizar. Ela vai se arrepender cedo ou tarde! Bernardo, não fique assim, foi apenas uma noite. No máximo você...
Rafael ia sugerir que ele "desse o troco" dormindo com ela de novo, mas pensou bem: ontem à noite foi ele quem se aproveitou da embriaguez dela. Tentar inverter os fatos dessa forma era algo que ele realmente não conseguia verbalizar.
— Cale a boca.
Bernardo massageava as têmporas, irritado.
Rafael deu de ombros e fez um sinal de silêncio para si mesmo.
Pelo estado de Bernardo, quem não soubesse diria que
ele
fora a vítima da situação.
...
Mesmo com a ressaca, mesmo tendo sido "usada", mesmo sem ter descansado a noite inteira, nada impedia o progresso de Alice em sua carreira.
Ela vestia uma camisa de gola alta e caprichou na maquiagem para esconder o semblante exausto e pálido, sentada na sala de reuniões em uma videoconferência com executivos estrangeiros.
Dada a sua dedicação, Antônio e Helena sentiam-se ao mesmo tempo orgulhosos e preocupados. Por isso, o casal foi levar uma sopa para a filha querida.
Ao encerrar a reunião, Alice deparou-se com os pais e a sopa. Além da surpresa, toda a mágoa e decepção acumuladas vieram à tona.
Antônio, o pai superprotetor, já abriu a boca querendo dar uma lição no genro: — Aquele moleque do Bernardo te maltratou de novo? Ele se saiu bem na festa de comemoração e eu até comecei a gostar dele, mas se ele ousar magoar minha filha, ele está querendo o quê? Perder o emprego?
— Não chore, querida. Papai vai lá dar uma surra nele agora mesmo para você desabafar!
Alice apressou-se em segurá-lo, balançando a cabeça: — Não, ninguém me maltratou. Eu só estava com muita saudade de vocês!
Helena abraçou a filha e disse suavemente: — Se está com saudade, venha jantar em casa. Você tem andado tão ocupada com trabalho e competições que não queríamos te atrapalhar, mas não importa a correria, você precisa cuidar da saúde, entendeu?
— Entendi.
Helena lançou um olhar para o marido: — Sirva a sopa e saia.
Antônio: — Sair?
— Tenho uma conversa de mulher para mulher com minha filha, você está atrapalhando.
Antônio ficou magoado; sua esposa o estava achando um estorvo, buáaa.
"Tudo bem, quem está competindo pelo afeto dela é minha filha querida, eu aguento."
Alice tomava a sopa gole a gole quando Helena disse, como quem não quer nada: — Brigas de casal são normais. Você cresceu, tem alguém que ama e ainda se dedica tanto ao trabalho e à empresa; papai e mamãe estão orgulhosos. Mas se estiver se sentindo injustiçada, pode voltar para casa. Estaremos aqui para você, nunca deixaremos ninguém te fazer sofrer.
— Eu não briguei.
— Se não brigaram, então é guerra fria? — Helena olhava para a filha com um olhar profundo e solene.
Alice sentiu um imenso peso na consciência: — Também não é guerra fria, eu só estou muito cansada.
— Dinheiro nunca acaba de ser ganho. Se estiver cansada, venha para casa, nós te sustentamos.
— Não estou cansada, eu gosto de ganhar dinheiro.
Além de querer proteger a família e se vingar dos lixos, ela realmente apreciava o prazer de ter sucesso na carreira.
Era um tipo de prazer diferente daquele sentido ao lado de um homem.
Helena assentiu: — Mamãe só quer que você seja sempre nossa princesinha feliz. Se houver algum problema, nós seguramos as pontas. Na pior das hipóteses, ainda tem o seu irmão bobo; podemos fazer o seu pai treiná-lo com tudo para ele ganhar o pão enquanto você e eu ficamos apenas sendo lindas.
Alice soltou uma risada.
O lema da família Guimarães: o homem ganha o pão, a mulher fica linda no salão.
Em qualquer circunstância, a palavra da mãe e da irmã era lei; o pai e o irmão deviam obediência incondicional.
Helena serviu mais uma tigela de sopa para Alice.
Quando Alice ia beber, ouviu a mãe perguntar: — Vocês consumaram o casamento?
A mão de Alice tremeu, derramando sopa.
"Meu Deus! Eu disfarcei tão bem! Será que minha mãe desenvolveu visão de raio-x?"
— Mamãe!
— Minha filhinha cresceu, já sabe ficar com vergonha.
— Não é isso!
Helena entregou um lenço para Alice: — Eu que te dei à luz. Acha que eu não saberia o que você está pensando?
— ... Mas não aconteceu nada!
— Tem coragem de deixar a mamãe olhar debaixo do seu colarinho?
— ...
Helena era doce, gentil e acolhedora, a esposa perfeita.
Todos achavam que ela era uma flor de estufa frágil, mas não sabiam que ela era uma estrategista nata; anos atrás, quando o Grupo Guimarães enfrentou uma crise, foi ela quem assumiu o controle e ajudou Antônio a superar as dificuldades.
Alice suspirou, sabendo que não conseguiria mais esconder.
— Ontem à noite eu bebi demais, e o Bernardo também...
— Vocês são casados, não há problema nisso. Talvez ajude a melhorar a relação de vocês.
Alice queria dizer que pretendia se divorciar, mas diante da expectativa calorosa de Helena, as palavras não saíram.
— Se não estiver feliz, venha morar em casa. Assim não precisa encarar situações embaraçosas nem ter peso psicológico.
— Ah?
— Mamãe percebeu que você não está feliz. Você amava tanto o Bernardo, se não fosse por...
Alice sabia o que ela ia dizer.
Se não fosse por Isadora Matos, ela e Bernardo seriam um casal modelo.
Se não fossem as sucessivas decepções, consumar o casamento com Bernardo a deixaria tão feliz que ela não conseguiria esconder.
— Mamãe, eu cresci. Posso decidir sobre meus sentimentos e espero que você e o papai me apoiem. Quanto ao que houve com o Bernardo... não me sinto injustiçada e, claro, também não estou radiante. Considere como um dever conjugal; afinal, ele é tão bonito que eu não saí no prejuízo.
Helena balançou a cabeça, resignada: a filha amadurecera da noite para o dia, parando de focar apenas no homem amado para focar na carreira, e isso a deixava apreensiva.
Que seja, a criança cresceu e tem opinião própria.
Alice mal conseguiu se despedir dos pais quando o "problema em pessoa" apareceu.
Essa piranha... será que os tapas não doeram o suficiente? Sempre escolhe os momentos em que Alice está de mau humor para provocá-la. Será que ela quer forçá-la a sujar as mãos com sangue?