Capítulo 42: Acaso uma traição emocional não conta como traição?
— Não posso mais falar agora, o Leo está me ligando, vou atender.
Alice estava preocupada em não encontrar uma desculpa para interromper o fluxo de fofocas de Vitória, mas felizmente Leo ligou para ela.
Do outro lado da linha, Leo chorava de forma soluçante; dava para ver que ele tinha levado uma surra daquelas.
— Mana, o velho não tem ética! Ele me pendurou e me deu uma surra, buáaa!
O jovem de apenas dezoito anos chorava copiosamente por causa da surra do pai.
Alice sentiu um aperto no coração ao ouvir aquilo.
Seu irmão era assim: diante da família, parecia um cachorrinho frágil, mas para os outros, era um lobo resiliente e extremamente protetor da irmã.
Ele só mostrava seu lado vulnerável diante de Alice.
Claro que, na maioria das vezes, ele fazia isso de propósito para que ela amolecesse o coração, sentisse pena e o tratasse ainda melhor.
Sintoma clássico de um "irmão dependente".
Na vida passada, ela lhe devia muito; nesta vida, Alice queria compensá-lo, deixando-o agir como quisesse. Afinal, ele tinha o apoio da irmã!
— Eu já expliquei tudo para o papai, por que ele ainda te bateu?
— É que eu... eu...
— Você o quê?
Leo murmurou: — Eu bati no Zeca (Zhuang Guo). O papai disse que eu não respeitava as pessoas, aí eu retruquei dizendo que um lixo como o Bernardo Fontes não merece respeito, e muito menos os guardas de um lixo. Aí o resultado foi...
Alice revirou os olhos.
— Você não estava pedindo para apanhar?
Antônio Guimarães amava Alice e não hesitou em implorar ao Patriarca Fontes pelo casamento por causa dela.
No entanto, Alice sabia que, no fundo, Antônio estava muito satisfeito com o genro Bernardo.
Beleza extraordinária, habilidade fora do comum e uma filha perdidamente apaixonada.
Um genro desses é raridade.
No passado, Leo já havia levado muitas broncas por desrespeitar Bernardo.
Desta vez, ele acabou levando uma surra.
— Você disse algo a mais, não disse? — Alice sentiu que algo estava errado e perguntou.
Leo pigarreou: — Eu só disse que foi bem feito o Bernardo ter levado aquela facada por você depois que a amante foi na delegacia. Quando o papai ouviu que o Bernardo te defendeu levando uma facada, ele ficou radiante de alegria.
— O quê?
Esse moleque... por que foi falar isso agora?
Ela estava se preparando para o divórcio, e ele estava lá ganhando pontos para o Bernardo diante dos pais? Isso é que é atrapalhar!
— A mamãe ficou tão emocionada que até chorou, dizendo que o Bernardo te salvou vez após vez, que ele é o seu salvador predestinado. Disse até que vai preparar um jantar de família e convidar o Bernardo para comer lá em casa! Eu perdi a paciência e retruquei de novo!
— Retrucou o quê?
— Eu disse: "O Bernardo tem uma amante lá fora, será que a mamãe quer convidar a amante para jantar junto?". O resultado foi que a mamãe chorou de raiva por minha causa.
Alice ficou completamente sem palavras para esse seu irmão sem noção.
Irmão burro! O motivo da sua surra foi encontrado!
— Você não sabe que a mamãe é o tesouro precioso do papai? Se ela chorar, ou mesmo se ficar um pouquinho triste, o papai é capaz de derrubar a casa. E você vai lá e provoca logo o "maníaco por proteção à esposa"? Você não estava pedindo para apanhar? Eu não posso mais te salvar, boa sorte aí.
— Mana?
— Meus pêsames.
— ... O papai me proibiu de ir na festa de comemoração à noite!
Alice disse: — Eu guardo umas comidas gostosas para você. Fique em casa refletindo sobre seus atos.
— Você ainda é minha irmã de sangue? Buáaa.
Alice não tinha coragem de deixar esse irmão, que não teme nada e fala o que vem à cabeça, ir à festa.
Se ele começasse a brigar com algum repórter que questionasse o título dela, ou saísse no soco com algum invejoso, ela morreria de preocupação.
Melhor deixá-lo seguro em casa.
Temendo que Leo fugisse, ela ainda ligou para o governante da casa dos Guimarães e pediu para reforçar a segurança em cima do jovem mestre.
Ao saber que o dobro de seguranças era ideia da própria irmã, Leo entrou em depressão e começou a jogar videogame para esquecer da vida.
...
Como Alice previra, na festa de comemoração infiltraram-se alguns repórteres de fofoca, incluindo alguns enviados por inimigos para causar problemas, todos falando sobre a suposta trapaça dela.
Alguns sem noção chegaram a colocar o nome dela ao lado do de Henrique, sugerindo que ela seduzira o presidente da associação para vencer.
Alice não explicou nada; apenas mandou retirá-los educadamente.
— Isso não faz o seu estilo — disse Henrique, rangendo os dentes e virando uma taça de vinho tinto de uma vez.
Alice manteve o sorriso de herdeira o tempo todo: — Isso se chama visão estratégica. Quanto menos eu me importar, menos eles terão o que escrever.
— Mas você não é desse tipo.
— Quando o perfume
Sonho da Vida Fugaz
for lançado, eles terão que admitir meu talento por conta própria. Não temos pressa.
Henrique suspirou: — Você está tão calma que meu coração dói por você.
De qualquer forma, ele já havia gravado o rosto daqueles repórteres mentalmente.
Iria acabar com eles depois.
— A propósito, este é um dos prêmios da campeã patrocinado pelo Grupo Fontes: o "Coração do Oceano". Você não amava essa joia? Eu procurei por tanto tempo, não imaginei que o Bernardo Fontes a tivesse comprado. Ainda bem que ele a deu como prêmio, senão eu teria que roubá-la.
Henrique tagarelou por um longo tempo, mas Alice só registrou uma frase: — Patrocinado pelo Bernardo?
— Sim.
— É seu. — Alice jogou o objeto que tanto desejara nos braços de Henrique sem o menor apego.
Henrique piscou: — O quê? Você acha que as coisas dele são sujas?
— Pare de falar como o nosso mestre, fica estranho em você.
— Hehe! — Henrique guardou o "Coração do Oceano" no bolso do paletó e, vendo que ela ainda usava o sachê que ele dera, sentiu-se vitorioso. — Eu sabia que o meu presente seria o mais especial.
— Esse seu presente não é tão especial assim, é difícil de combinar com o look.
— Eu tenho um jeito! — Os olhos de Henrique brilharam, e ele mesmo começou a soltar o sachê da cintura de Alice.
Os dois estavam no canto conversando baixinho, quase ninguém via, exceto...
A cena dele mexendo na cintura dela caiu inteira sob um par de olhos negros, sombrios e gélidos.
Ao ver que ela não hesitou em dar o colar para Henrique e agora permitia que ele a tocasse com tanta paciência e suavidade, Bernardo sentiu uma fúria crescente.
Não houve traição?
Acaso uma traição emocional não conta como traição?
Bernardo caminhou em direção a eles a passos largos.
Uma aura gélida e cortante emanava de seu corpo.
Alice sentiu esse frio familiar de longe. Ela virou a cabeça e avistou Bernardo: — Ora, Senhor Fontes, que coincidência. Achei que estivesse gravemente doente e não pudesse vir.
Seus pais perguntaram o tempo todo por que Bernardo não chegara.
A desculpa que ela deu foi: "doença grave".
Não esperava que o traste chegasse pontualmente.
— Alice Guimarães, há muitos repórteres aqui. Você se esfregando em outro homem... onde fica a minha honra? Onde fica a honra dos Guimarães e dos Fontes?
— Se esfregando? De quem você está falando? Eu sou apenas o melhor amigo da Alice. Assim que vocês se divorciarem, eu serei o...
— Henrique, cale a boca — Alice interrompeu o delírio de Henrique e pegou elegantemente uma taça de vinho da bandeja de um garçom, estendendo-a para Bernardo. — Se o Senhor Fontes preza tanto pela honra, que tal irmos cumprimentar os convidados juntos?
Bernardo travou, como se tivesse dado um soco em um monte de algodão.
A atitude dela de não admitir nem negar o deixava possesso.
— E se eu me recusar?
— Então eu peço ao motorista para te levar de volta ao hospital, ou para a Mansão do Horizonte.
— ALICE GUIMARÃES! —
Me peça um favor, custa nada!
Alice deu de ombros: — Senhor Fontes, eu sei muito bem quem sou e qual o meu lugar. Não ouso tentar alcançar quem está acima de mim, mas o nosso acordo é claro: devemos agir como um bom casal!
Bom casal?
O canto da boca de Bernardo tremeu levemente.
Ele lançou um olhar cortante para Henrique, conteve a aura gélida e estendeu a mão, segurando o pulso de Alice com firmeza.
Com a outra mão, pegou a taça de vinho.
— Já que a Senhora Fontes me pede com tanta sinceridade, é claro que eu irei.
Alice encarou a mão dele no seu pulso:
Canalha! Tira essa pata de cima! E quem te pediu com sinceridade? Vá para o inferno!