Capítulo 39: Eu sou alguém que o Senhor Fontes não está à altura
Alice Guimarães tinha uma certa fobia de sangue.
No entanto, ela conteve o medo e tentou encontrar uma maneira de estancar o sangramento de Bernardo. Zeca entregou-lhe a maleta médica e dispersou os policiais e seguranças.
Leo Guimarães ficou parado junto à porta, sem ousar se aproximar.
Ter dito aquelas palavras ácidas para Bernardo agora pouco já havia consumido toda a sua coragem.
Em dias normais, ao ver aquela cara de "cadáver" de Bernardo, ele já teria saído em disparada como um foguete.
Alice não queria se importar com Bernardo, mas ele, afinal, se ferira por causa dela. Mesmo que sua intenção inicial fosse proteger Isadora Matos e evitar que ela cometesse uma loucura, o resultado foi favorável a ela.
Além disso, ela precisava que esse homem comparecesse à festa de comemoração organizada por seus pais à noite. Por uma questão de lógica e etiqueta, ela deveria ficar.
Após aplicar o remédio hemostático e fazer um curativo simples, Alice levantou-se friamente e disse a Zeca: — Nos vemos às sete da noite no
Yue Long Men
.
Zeca levantou a mão, chamando-a ansiosamente: — Senhora Alice, o ferimento anterior do patrão ainda não cicatrizou e ele tem tido febres intermitentes nos últimos dias. A recomendação do Dr. Rafael é...
— Eu não sou médica. Mande o Rafael vir cuidar dele.
Zeca emudeceu.
A expressão da patroa era de total indiferença.
Ele cresceu na família Fontes, sendo quase um sombra de Bernardo, e tornou-se capitão de sua guarda pessoal ao atingir a maioridade. Ele era um dos que sabiam de tudo entre Bernardo e Alice.
Ao retornar do exterior, percebeu que a patroa havia mudado completamente.
Rafael e Iago diziam que o patrão havia mudado seus sentimentos pela "nova" patroa. Ele ficou confuso com a história, mas ao ver com os próprios olhos...
O patrão, por causa da patroa, não hesitou em arriscar a vida. E diante da frieza dela, ele ainda demonstrava expressões raras de mágoa e desolação...
Ora, ora, que situação lamentável.
Zeca decidiu fazer um esforço pelo seu patrão:
— O patrão não gosta de ficar no hospital e detesta ficar a sós com o Dr. Rafael. Se ele não tomar os remédios direito, talvez não consiga comparecer à festa à noite. Se isso acontecer, a mídia e os parentes dos Guimarães vão começar a imaginar coisas...
Antes que Alice pudesse falar, Leo explodiu: — Zeca, você está ameaçando a minha irmã, é isso?
— Jovem mestre Leo, se a notícia de que o senhor brigou hoje e ainda envolveu o patrão e a patroa vazar, não apenas sua reputação será arruinada, mas a família Guimarães também...
O rosto de Leo empalideceu.
Cacete! Cacete! Cacete!
Os guardas desse cafajeste do Bernardo Fontes também são cafajestes!
Zero ética!
Alice fez um sinal com a mão. — Por favor, Guarda Zeca, leve meu irmão para casa. Eu acompanharei o Bernardo até a Mansão do Horizonte para descansar.
— Sim, Senhora.
Leo foi arrastado por Zeca enquanto praguejava.
— Zeca, eu ainda me acerto com você hoje.
— Não me puxe, eu vou te dar uma surra.
— Se tiver coragem, não fuja. Vamos resolver isso um contra um.
...
Alice, resignada, amparava Bernardo. Percebeu que o corpo dele estava pesado e seus passos vacilantes; quase todo o peso dele recaía sobre ela.
Aquele aroma familiar de cedro gélido invadiu suas narinas.
Bernardo inclinou levemente a cabeça e pôde ver o perfil tenso do rosto dela. O suor brotava em sua testa, e as mãos dela o seguravam com força, revelando as veias no dorso alvo.
Ao chegarem ao carro, Alice tentou sentar no banco do passageiro, mas o homem segurou o que estava em sua cintura...
O sachê?!
Era o sachê que Henrique lhe dera; ela não o usava há nem meio dia.
— Solte — Alice tentou manter a voz o mais calma possível.
Bernardo disse calmamente: — Dirija.
O motorista prontamente deu partida em direção à Mansão do Horizonte.
Alice foi obrigada a sentar no banco de trás, em um impasse com ele.
Se não fosse pelo fato de ele estar pálido e parecer que ia desfalecer a qualquer momento, ela já teria lhe dado uma surra!
Tudo bem, ela não se rebaixaria ao nível de um cachorro!
Após suportar alguns minutos, Alice viu os dedos do homem tentando desamarrar o cordão do sachê. Ela franziu as sobrancelhas e pressionou a mão dele: — O que está fazendo?
— Quem te deu isso?
— Não é da sua conta.
— Henrique passou todos esses anos procurando uma mulher, além de criar perfumes. Ouvi dizer que essa mulher é o "anjo puro" da juventude dele. Você sabia?
Bernardo olhava profundamente para Alice. Quando ela levantou a mão para ajeitar o cabelo na testa, um lampejo de nervosismo passou por seus olhos.
— Desde quando o Senhor Fontes se tornou um fofoqueiro de esquina sobre a vida alheia?
— Alice, você é o "anjo puro" do Henrique, não é?
Ele usou um tom de pergunta, mas a luz em seus olhos exalava certeza.
Alice fechou os olhos e moveu-se para perto da porta.
Bernardo continuava segurando o cordão do sachê. Inalando a fragrância suave que emanava dela, ele sentiu um desejo involuntário de se entregar àquele momento.
Rafael e Iago diziam que ele estava louco por causa de Alice.
Que em apenas um mês, ele havia se apaixonado por ela.
Apaixonado?
O vocabulário daqueles dois era audacioso e irracional.
Como ele, Bernardo Fontes, poderia se apaixonar por uma mulher? Especialmente por essa Alice que vivia o apunhalando pelas costas, desobedecendo-o e até o odiando?
Aceitar o casamento na época fora apenas uma jogada de conveniência.
Para evitar o assédio de outras mulheres, ele estava disposto a levar a vida com ela para sempre. Quem diria que, em apenas seis meses, ela se transformaria em outra pessoa.
Alice não conseguia decifrar o olhar de Bernardo e preferiu ignorá-lo.
Ela virou a cabeça para observar a paisagem lá fora; não tinha interesse, mas era melhor do que olhar para o traste.
Olhar demais para esse homem encurtava a vida.
Somente quando a mão em sua cintura moveu-se do sachê para o seu cinto é que ela recobrou os sentidos e encarou o homem: — Já terminou o show?
Bernardo ergueu as sobrancelhas. Show?
O tom de voz dessa mulher para com ele era sempre carregado de uma irritação e um tédio desdenhosos.
Isso o deixava extremamente insatisfeito!
E a consequência de sua insatisfação era deixar a outra parte ainda mais irritada!
Ele simplesmente se inclinou sobre ela. No espaço estreito, Alice não tinha para onde recuar, sendo forçada a se encolher contra a porta do carro, enquanto a cabeça do homem pressionava pesadamente suas coxas.
O sangue dela pareceu congelar subitamente. A cabeça dele aproximava-se cada vez mais de certa região.
Alice encarava fixamente a nuca do canalha:
Ele não percebeu? Ou estava tentando seduzi-la de propósito?
Alice conseguia ouvir as batidas do próprio coração.
As memórias de dividir a cama com esse homem na vida passada atingiam sua razão com clareza. Cada momento de sua posse ardente e exigência autoritária parecia marcado em seus ossos.
Mesmo tendo morrido uma vez, aquela sensação ainda estimulava cada centímetro de sua pele e de seu sangue.
— Por que está tão nervosa?
A voz rouca do homem encobria o desejo primitivo inicial, zombando dela.
Alice queria se mexer, mas qualquer movimento resultaria em um contato íntimo ainda mais constrangedor. Suas pernas eram o apoio da cabeça dele, e seus braços a envolviam pela canela. Não se sabia se era febre ou outra coisa, mas a temperatura do corpo dele estava ficando cada vez mais alta...
Ela não ousava se mover.
— Alice, sabia que o seu jeito atual, astuta e de língua afiada, é muito mais interessante do que aquela Senhora Fontes virtuosa e comportada de antes?
O coração de Alice deu uma pontada.
— Mas não tenha a ilusão de que eu vá gostar de você — as palavras do homem vieram acompanhadas de um aviso gélido.
A pontada no peito de Alice tornou-se instantaneamente uma arma afiada, que ela disparou contra o homem em seus braços:
— Minha virtude e doçura eram fingimento, apenas para os outros verem. Mas eu não imaginava que o Senhor Fontes fosse um masoquista. Pela sua atitude com a Isadora Matos, percebo que seu tipo ideal são mulheres egoístas, fúteis e sem cérebro.
Ela empurrou o homem com força. A mão dele, sem querer, tocou em sua...
Contendo a fúria, ela deu o golpe final:
— Uma herdeira talentosa e linda como eu é alguém que o Senhor Fontes não está à altura.
— À... AL-TU-RA?