Capítulo 34: Aquele traste veio irritá-la, por que não aproveitar?
Rafael caminhava com passos pesados, segurando sua maleta médica; seu rosto bonito exibia claramente quatro palavras: "desistência total da vida".
— Bernardo, você não acha que, desde que a Alice te denunciou por estupro marital, você só tem tido azar?
Rafael resmungava enquanto organizava os remédios de Bernardo. — Neste último mês, sua maré de desgraças não parou.
O homem conteve a frieza ao seu redor e exibiu um sorriso amargo no canto dos lábios:
— Você fala demais.
...
O Campeonato de Perfumaria, que ocorre a cada três anos, começou oficialmente.
Henrique, sendo o presidente da associação, não podia acompanhar Alice na competição; como já havia fechado uma parceria com Vitória, implorou para que ela ficasse ao lado de Alice durante todo o evento.
Vitória aceitou, afinal, "quem recebe favores, deve favores".
Mas Alice era sua melhor amiga; mesmo que Henrique não pedisse, ela teria cancelado tudo para estar ali hoje.
Antes do início, Isadora Matos encontrou Alice na área de espera e lançou suas ameaças:
— Você claramente aceitou meus cinquenta milhões, por que não desistiu da competição?
— Alguém me viu aceitando? Isadora, achar que cinquenta milhões comprariam minha desistência... você vive no mundo da lua — Alice lançou-lhe um olhar de desprezo e continuou a se maquiar.
Vitória cruzou os braços e perguntou curiosa:
— De onde uma filha ilegítima tirou cinquenta milhões? Não terá sido roubado?
— Você... — Isadora apontou para Vitória, depois olhou para Alice e gritou irritada: — Alice Guimarães, você passou dos limites!
— Idiota.
Alice não quis lhe dar nem mais um segundo de atenção.
Se não tivesse entrado em acordo com Bernardo, ela teria esmagado o rosto de Isadora ali mesmo, só pelo acidente de ontem.
Isadora subitamente lembrou de algo e ergueu o queixo com triunfo:
— Alice, embora eu não saiba por que você teve coragem de vir, garanto que você jamais vencerá de mim.
— Só porque a Lin Hua é jurada? Ou porque o Bernardo vai te dar o título incondicionalmente? — O tom de Alice era livre e sarcástico.
Isadora cerrou os punhos: — Fica aí se achando...
— Isadora, vou te dar um aviso: não pense que, com o apoio do Bernardo, o mundo inteiro vai se curvar a você. Hoje vou te dar uma lição: algumas pessoas vêm ao mundo precisando de uma surra.
Isadora ficou sem palavras. Que tipo de asneira Alice estava dizendo?
Vitória pegou o suco que a assistente trouxe:
— Alice, não perca tempo com essa gentalha, é desperdício de saliva. Tome, beba seu suco.
— Vitória! Não pense que só porque o seu irmão te protege, você pode insultar os outros livremente!
— Eu estou insultando um ser humano? Pensei que estivesse insultando um cachorro.
Isadora: — ...
Ao pegar o suco, Alice notou que os olhos de Isadora estavam fixos no copo. Lembrando-se do "incidente" da noite anterior, ela estreitou os olhos.
— Ainda não sumiu daqui?
— Não se ache tanto, Alice! Quando eu for coroada campeã, você vai ver o que te espera!
Isadora saiu furiosa.
Vitória olhou com desdém para as costas dela: — Que audácia dessa piranha se achar a campeã. Amiga, hoje você tem que acabar com ela, mostrar que vocês não estão no mesmo nível.
— Não beba! — Alice levantou-se subitamente e segurou o pulso de Vitória.
Vitória assustou-se: — Tem veneno?
Ela encarou o suco, incrédula.
— Cacete! Não pode ser. Estamos na área de espera do campeonato, tem câmeras por todo lado. Quem teria coragem?
Alice franziu a testa: — Apenas não beba. Mande alguém levar para análise.
Ao ver a cautela de Alice, Vitória também ficou tensa: — Tudo bem, vou encontrar alguém agora mesmo.
Ela foi até a porta e recomendou: — Sua perna não está boa, não saia daqui. Espere eu voltar.
— Sim.
Assim que Vitória saiu, Alice vestiu-se como uma funcionária e foi até o camarim de Isadora.
Ela viu uma mulher vestindo um Qipao sofisticado entrar no local.
Checando a apresentação dos jurados no celular, Alice confirmou: aquela era a mestra de Isadora, Lin Hua.
De repente, uma mão apertou sua nuca.
Alice tensionou o corpo: — Quem é?
Ao virar-se, foi erguida por um homem que a carregou a passos largos para o camarim ao lado.
— Bernardo Fontes! Seu traste! Me coloque no chão!
Ela quase morreu de susto.
Bernardo, ao ouvi-la xingá-lo, não sentiu a fúria de antes; havia apenas uma certa resignação em seu olhar: — Querendo espionar?
— Quem estava espionando? O quê, ficou com pena do seu "anjo puro" e medo de eu maltratá-la?
"Anjo puro"?
Bernardo sentiu um profundo desagrado com o apelido. — Alice, você...
— Fique tranquilo. Desde que a competição de hoje seja absolutamente justa, não farei nada contra ela.
Alice empurrou Bernardo e sentou-se no sofá. Seu tornozelo ainda estava inchado e vermelho. Bernardo tirou um frasco de óleo medicinal, preparando-se para massagear o pé dela.
Alice empalideceu de susto com o gesto do canalha: — O que pensa que está fazendo?
— É um óleo novo que o Rafael preparou. Teste.
— Você sendo gentil assim?
— É que eu não quero que você suba no palco mancando e envergonhe a honra da minha família — Bernardo respondeu secamente.
Alice, que pretendia recusar, pensou: ...
Tudo bem. Já que o traste veio por vontade própria para irritá-la, por que ela não haveria de desfrutar?
Ela ergueu o pé e o colocou sobre a mesa de centro: — Massageie, então.
Bernardo ignorou a expressão arrogante dela e começou a aplicar o remédio com seriedade.
O olhar de Alice caiu nos dedos longos do homem, e ela lembrou-se inevitavelmente das "peculiaridades" desse canalha na cama na vida passada...
Aquela sensação... era como se algo corresse descalço sobre seu coração.
Inexplicavelmente, após terminar o tornozelo, Bernardo começou a tocar a canela dela.
O toque familiar fez a fera do desejo em seu corpo golpear as grades novamente. Em sua mente, surgiu a imagem de beijá-la à força.
— Bernardo, a competição vai começar. Consegui um ótimo lugar para você.
A porta foi aberta brutalmente.
Rafael arregalou os olhos como se tivesse visto um fantasma: — Cacete! Eu... entrei no lugar errado?
Ele estava realmente vendo o impecável, frio e abstêmio Bernardo Fontes — o lendário "Rei do Inferno" — massageando o pé de uma mulher?
Não, ele estava segurando a canela dela...
Estava claramente tirando uma casquinha.
Principalmente com aquele olhar de desejo reprimido, que parecia querer eliminar o intruso que acabara de entrar.
Meu Deus! O mundo virou de cabeça para baixo!
Alice recobrou os sentidos e, com um sorriso astuto, chamou Rafael, que tentava fugir.
— Esse óleo novo é ótimo. Não precisa mais devolver o relógio; vou te dar um desconto. 30%
off
, fica por três milhões e quinhentos mil. Pode ser transferência ou dinheiro vivo.
Rafael: — ...
Ele só veio chamar o amigo, precisava sair no prejuízo?
— Alice, você é a mulher mais bonita da cidade, a Princesa dos Guimarães. Pode parar de ser tão mercenária?
— Tudo bem, faço um agrado: três milhões e oitocentos mil — Alice estendeu a mão. — O Dr. Rafael não deve sentir falta desse trocado.
Rafael olhou suplicante para o amigo: — Bernardo?
Bernardo lançou-lhe um olhar severo: — Saia!
— É pra já!
Alice ergueu as sobrancelhas: — Você vai pagar por ele?
Ele limpou as mãos com um lenço, tirou o celular do bolso e o aparelho de Alice apitou. Ao abrir, viu que Bernardo transferira cinco milhões.
— Que generoso — Alice murmurou baixinho. — Não admira que a Isadora Matos tenha cinquenta milhões para gastar por aí.
Faz sentido: Bernardo é uma máquina de dinheiro; ele dá quanto a Isadora quiser.
— O que disse?
— Estamos quites. Ninguém deve nada a ninguém agora — Alice disse e tentou sair mancando.
Bernardo a pegou no colo com agilidade.
— Bernardo, alguém pode ver.
— Você é minha esposa. E se virem? Detesto mulher cheia de frescura.
Alice ficou perplexa: "Eu, cheia de frescura? Vá para o inferno! Quer carregar? Então carregue até cansar!".
Ela encostou-se propositalmente sobre o braço direito dele. Ao ver as veias saltando de dor na testa dele, ela finalmente sentiu-se um pouco melhor.
Canalha, bem feito!