Capítulo 31: A Princesa herdeira se joga no trabalho como se não houvesse amanhã
Alice trabalhou até as onze da noite antes de retornar à Mansão do Horizonte.
Assim que entrou, sentiu um aroma agridoce vindo da cozinha. Seguindo o cheiro, encontrou Luana segurando uma tigela, bebendo algo com um ar de satisfação total.
— Senhora Alice? A senhora voltou! Vou servir uma tigela para a senhora agora mesmo. É um mingau de maçã, inhame e milhete delicioso. Garanto que vai querer repetir.
Alice sentiu um leve constrangimento.
Ela não havia jantado.
Estava ocupada demais e acabou esquecendo.
Não era hora de fingir.
Ela caminhou até Luana e disse agradecida: — Luana, você foi muito atenciosa hoje, até preparou um mingau para mim.
Luana pensou:
Não fui eu quem fez.
— Senhora, prove. — Após servir Alice, Luana serviu-se de mais meia tigela sem nenhum peso na consciência.
Ela não sabia quem tinha preparado aquilo, mas estava divino; seria um pecado deixar estragar na cozinha. Seguindo o princípio de nunca desperdiçar comida, Luana decidiu que terminaria tudo junto com a patroa!
— Eu adoro sabores agridoces, diferente de certas pessoas que só gostam de coisas salgadas — Alice resmungou.
Antigamente, para agradar o paladar daquele canalha, ela só aprendia a fazer pratos salgados. Na verdade, quando morava com os pais, ela amava sabores agridoces em tudo. Seu pai, por causa dela, chegara a contratar chefs renomados especializados nesse paladar.
Lembrando da sua burrice em abrir mão da própria dignidade por causa daquele homem, Alice tomou duas tigelas cheias com ferocidade.
— Estou cheia. — Alice soltou um soluço nada elegante e desviou o olhar de Luana, sem jeito.
Luana riu: — Eu também estou. Vou descobrir quem preparou isso para que ela faça todas as noites para a senhora.
— Não precisa. Eu só não jantei porque hoje foi corrido, não precisa de tanto incômodo.
Alice subiu apressada. Estava com medo de começar a soluçar sem parar; seria humilhante demais.
Luana coçou a cabeça.
Ela acabara de perguntar no grupo de mensagens dos empregados e ninguém assumiu o crédito pelo mingau. Em prol do bem-estar de suas próprias papilas gustativas e das ceias da patroa, ela decidiu checar as câmeras de segurança.
Entretanto, quando viu aquela silhueta imponente, misteriosa e arrogante na gravação...
Ela se arrependeu amargamente!
Ter bebido o mingau preparado pelas mãos do próprio "Imortal" Bernardo Fontes... será que ela morreria cedo por causa disso?!
Não, não, não! Ela viveria cem anos, talvez até ganhasse uma extensão de vida por causa daquele elixir!
Alheia a tudo, Alice tomou banho, acomodou-se no sofá, checou seus e-mails e dormiu.
O quarto principal permaneceu apenas para ela a noite inteira.
Ela não se deu ao trabalho de fofocar sobre onde Bernardo estava dormindo. Baseada na experiência da vida passada, agora que ela conseguira a vaga na final, Isadora provavelmente estaria chorando rios de lágrimas na frente dele. Se ele não voltou, não seria para consolar o "anjo puro"?
No escritório da mansão.
Três da manhã.
Bernardo terminou o trabalho, deu uma passada rápida no quarto principal, pegou roupas limpas e foi para o quarto de hóspedes.
Cinco da manhã, Bernardo saiu de casa.
Arrancado da cama, Rafael, com o cabelo todo bagunçado, organizava sua maleta médica com um ar de profundo rancor, resmungando:
— Não importa quanto dinheiro você ganhe, você precisa estar vivo para aproveitar. Ficar sem dormir trabalhando desse jeito... seria melhor você focar em mulheres do que em planilhas.
— Por favor, da próxima vez me deixe dormir? Acordar a essa hora todo dia para trocar seu curativo vai me levar à morte súbita.
— Estou acabado, piedade.
Bernardo permanecia firme como uma rocha.
Rafael coçou a nuca, confuso: — Por que essa urgência em aumentar o faturamento do Grupo Fontes em cinquenta por cento? Você já tem tudo nas mãos. Outros herdeiros medíocres não são páreo para você, o que diabos você está tentando provar?
Nunca se meter nos negócios do amigo era o limite de Rafael. Mas, ultimamente, Bernardo parecia disposto a sacrificar a vida pelo trabalho, o que ele não entendia.
— O Leste. Meu novo campo de batalha.
Bernardo pegou um punhado de comprimidos e os engoliu com calma.
Rafael estremeceu.
— Você mal consolidou sua posição como o número um de São Paulo e já quer atacar o Leste? Bernardo, você fala sério?
Qual família poderosa do Leste foi idiota o suficiente para ofender o Bernardo? Ele estava destruindo o próprio corpo só para esmagar alguém.
— Ouvi dizer que você expandiu no Sul recentemente, agora quer o Leste... Bernardo, seu objetivo de vida é se doar inteiramente para o topo da lista da Forbes?
Bernardo manteve o silêncio.
Rafael terminou de trocar o curativo e continuou resmungando:
— A Alice Guimarães também virou uma viciada em trabalho ultimamente. O pessoal das festas comenta se o Grupo Guimarães está prestes a quebrar, ou se o irmãozinho dela está com alguma doença grave e não poderá assumir os negócios, forçando o Antônio a obrigar a "Princesa" protegida a trabalhar como uma louca.
Bernardo raramente participava de reuniões sociais do círculo de elite.
Rafael era herdeiro, mas seguiu o caminho da medicina. Como era muito amigo de Bernardo, as pessoas viviam bajulando-o, esperando que ele falasse bem delas para o grande magnata. Por isso, ele sabia de todas as fofocas.
— Se o Grupo Guimarães não mudar o modelo de gestão, a falência é apenas questão de tempo.
— O que você disse?
— Nada.
— Pois é. Dizem que a Alice pegou toda aquela paixão que tinha por você e canalizou para a carreira. Parece que homens são menos confiáveis que dinheiro. Muitas herdeiras estão começando a focar em lucros em vez de romances. A Alice, apesar de casada, ainda dita a tendência do nosso círculo.
Bernardo lançou um olhar de soslaio para Rafael. Rafael estremeceu e disse sem graça:
— Não é que eu esteja fofocando sobre a sua esposa, é que ela sempre foi o centro das fofocas, você é quem não sabia antes.
Bernardo realmente não se importava se a mulher que ele desposara era o centro das fofocas. Ele só se importava se ela era do tipo que ele detestava.
Claramente, Alice não entrava na categoria de coisas que ele detestava.
Antes, sim.
Agora... ele é quem parecia ser o que ela detestava.
— Rafael, você já se apaixonou?
Rafael despertou na hora: — Agora você perguntou para o cara certo. Meu histórico amoroso tem pelo menos três dígitos.
— Minhas ex-namoradas sempre dizem que eu sou generoso e bom de cama, e o valor da rescisão nunca decepciona. Mas e você? Nunca namorou e se enterrou direto no casamento. Por que perguntar algo que está fora da sua experiência de vida?
As longas pestanas de Bernardo baixaram levemente.
Rafael bateu no próprio peito, em um estalo de compreensão: — Água mole em pedra dura! Você finalmente foi tocado pela Isadora e decidiu aceitar a declaração dela?
Bernardo franziu a testa, olhando para Rafael como se olhasse para um idiota.
Rafael continuou animado: — A Isadora finalmente viu a luz no fim do túnel. Sete anos de espera e adoração, valeu a pena.
— Você admira muito a Isadora?
— Hein...?
— Tenho uma missão para você: transforme a Isadora em sua namorada. Com intenção de casamento.
O rosto de Rafael teve um espasmo tão forte que quase se desfigurou.
— Pelo amor de Deus, não! Eu tenho alergia a garotas mimadas e manhosas como a Isadora. Alergia grave, do tipo que mata.
Bernardo soltou um riso frio. Rafael engoliu a seco suas gracinhas anteriores.
— Como você pôde achar que eu gostaria da Isadora? Eu sempre a tratei como uma irmã. Eu que sou burro, cego e malvado de sugerir vocês dois como um casal. Eu mereço o inferno por isso.
— Eu devo estar louco para te perguntar uma coisa dessas — Bernardo massageou as têmporas, pegou seus remédios e levantou-se.
Rafael: — O quê? Já não sirvo mais para ser seu amigo?