Capítulo 30: Bernardo não estaria querendo me envenenar?
— Olá, senhor Fontes. Já tomou café da manhã? Eu trouxe um bolinho de manga, quer um pedaço?
O tom provocador de Henrique era tão evidente que até Eduardo, um espectador, sentiu a farsa. Quanto mais Bernardo, que vira Alice embalando aquele mesmo bolinho hoje cedo.
Bernardo estreitou os olhos e soltou um riso frio.
— Não é necessário. Minha esposa preparou o café da manhã com as próprias mãos; estou satisfeito.
Henrique ficou atônito por um segundo.
Alice cozinhou de novo?
Impossível. Bernardo devia estar mentindo.
Henrique estava no Grupo Fontes representando a Associação de Perfumaria para discutir investimentos. A competição exigia gastos enormes: local, convidados, prêmios, além de marketing, segurança e estrutura. O investimento passaria de oito dígitos.
A associação tinha orçamento, mas os conselheiros garantiram o apoio dos Fontes para transformar o evento em um marco mundial. Como presidente, Henrique queria arrancar o máximo de dinheiro possível.
Afinal, Bernardo era um capitalista implacável e uma máquina de fazer dinheiro. Não aproveitar seria um desperdício!
No escritório, Henrique colocou os documentos sobre a mesa e começou a analisar o ambiente.
— Estilo preto e branco... simples, rígido. Parece um caixão gigante.
— A Alice prefere um estilo mais acolhedor. Meu escritório é diferente: cheio de plantas e com as rosas brancas que ela tanto ama.
— Senhor Fontes, se estiver tudo certo, assine e faça a transferência. Vou embora para não sujar sua vista.
Bernardo sorriu com desprezo.
— Há alguns pontos aqui que precisam ser revistos. Peço que o Presidente Yuri leve de volta para analisar.
Henrique não entendeu. Não eram termos já acordados pelos veteranos? Bernardo não precisava de dinheiro, por que a mesquinharia?
— Está descontando em mim?
— Você se acha à minha altura para isso?
— Se estou ou não, você sabe bem. Nós dois sabemos que a Alice se arrependeu de casar com você no momento em que disse "sim". Agora, a pessoa que melhor a trata sou eu.
Henrique ergueu o queixo, exibindo o orgulho da linhagem dos Gustavo:
— Bernardo, vamos falar abertamente: eu amo a Alice. Você não a valoriza, então eu o farei. Ela é uma joia preciosa, não um enfeite que você mantém trancado em casa. Se não entende o valor dela, não aprisione a alma dela.
Se Henrique estivesse apenas interessado na aparência ou no status de Alice, Bernardo não ligaria. Mas o fato de ele falar em "amar a alma" dela fez uma corda de tensão vibrar em sua mente.
— Eu sei que o aumento das vagas na final tem o seu dedo. Você só fez isso para ela não causar um escândalo e afetar sua amada Isadora, não foi? De qualquer forma, agradeço por convencer aquele velho, mas... para por aí. Cada um tem seus objetivos, não vamos fingir que somos inocentes.
Henrique sentou-se, com um olhar calmo e autoconfiante:
— Minha família no Leste não deve nada aos Fontes de São Paulo. Eu não quero ser seu inimigo.
Bernardo encarou Henrique.
O Yuri que era obcecado por perfumes e o Henrique que agora o enfrentava com autoridade eram a mesma pessoa. Ambos eram perseguidores fanáticos de Alice Guimarães.
Bernardo sentiu um aperto no peito.
— Se não quer ser meu inimigo, não toque no que me pertence.
Bernardo fez um sinal para Eduardo entrar.
— Faça o pagamento. Sendo um evento nacional, o Grupo Fontes dará apoio total.
Eduardo assentiu e disse propositalmente na frente de Henrique:
— Senhor Fontes, o prêmio para a campeã, o colar "Coração do Oceano" que o senhor arrematou no leilão de Paris, já foi entregue na nossa galeria de tesouros.
— Ótimo.
Os olhos de Henrique brilharam.
O "Coração do Oceano". Era algo que Alice sempre amou, mas que fora roubado há dez anos. Ele passou anos procurando o rastro da joia e, agora, aquele "idiota" do Bernardo a tinha em mãos.
Mas Alice certamente seria a campeã. O colar teria que ser dela de qualquer jeito!
Bernardo notou a expressão de Henrique e mandou Eduardo acompanhá-lo até a saída. No elevador privativo, Henrique perguntou:
— Assistente Eduardo, você está com o senhor Fontes há sete anos. Sabe me dizer por que ele deixou a Isadora de lado para casar com uma mulher que não ama?
Eduardo manteve o silêncio. Como um assistente exemplar, jamais trairia o patrão.
— A Isadora não é tão bonita quanto a minha Alice, e a linhagem dela nem se compara. Qualquer homem que não fosse cego escolheria a Alice.
Henrique riu: — Na verdade, agradeço por ele ser cego. Senão a Alice continuaria amando-o ingenuamente.
Desde que descobriu que a menina que procurava era a herdeira dos Guimarães que se humilhava por Bernardo, Henrique achou que estava enganado. Felizmente, a Alice real era diferente dos boatos. Talvez a história da "serva apaixonada" fosse apenas fofoca.
Eduardo pigarreou: — Meu patrão nunca foi cego.
— Sim, sim. Se fosse cego de verdade, o império Fontes já teria falido.
Henrique ignorou as palavras de Eduardo. Ele viera para testar Bernardo e o resultado foi o esperado.
No escritório da presidência.
Bernardo encarava o bolinho sobre a mesa com irritação.
Henrique esqueceu de levar ou deixou ali de propósito para provocá-lo?
...
Alice estava exausta. Após terminar a reunião de estratégia financeira, preparava-se para almoçar quando a secretária avisou que Eduardo trouxera o almoço por ordem de Bernardo.
— Aquele cachorro sendo gentil? Ele deve ter colocado veneno.
Talvez estivesse com medo de que ela vencesse Isadora e quisesse impedi-la de competir.
Ao ver o bolinho que Eduardo colocou na mesa, o canto da boca de Alice tremeu.
"Golpe baixo", pensou ela. O canalha sabia jogar.
— O senhor Fontes também mandou doces do
Hua Ding Xuan
. Ele pede que a Senhora deguste com atenção — disse Eduardo, organizando as caixas.
Alice engoliu em seco: — Bernardo não estaria querendo me envenenar?
— O patrão disse que a Senhora está muito ocupada e não deve negligenciar a saúde.
Que tom de "marido exemplar".
Alice não teve coragem de comer. Mandou a secretária jogar tudo fora e pediu um macarrão apimentado por aplicativo.
Comida de rua podia não ser a mais limpa, mas certamente não teria veneno de um marido egoísta e vingativo.
— Jogou fora? — Bernardo largou a caneta e olhou com hostilidade para o assistente inquieto.
Eduardo estava morrendo de medo de receber uma "demissão sumária".
Respirando fundo, Eduardo encontrou uma saída: — A patroa também jogou fora o bolinho do Henrique. Nem olhou para a caixa. Ela disse "obrigada" na minha frente, mas por trás deve estar com medo que o senhor a envenene de brincadeira. Na verdade, ela parecia bem animada, mas é aquele jeito de garota que tenta esconder o que sente.
Eduardo deu nota dez para a própria explicação.
O semblante sombrio de Bernardo suavizou consideravelmente.
Eduardo comemorou internamente: "Ufa, sobrevivi mais um dia".