Capítulo 23: Uma mulher sem graça e seca, não tenho estômago para você
A mão dele estava quente e potente.
Era como se estivesse carregada de eletricidade, deslizando por todo o caminho até o pescoço dela.
De repente, o canalha apertou seu pescoço.
Alice ficou irritada: por que esse sujeito cismou em apertar o pescoço dos outros ultimamente? Virou fetiche por violência, por acaso?
— Tudo bem, o que você quer afinal? Diga logo e pare de me enrolar — Alice fechou os olhos, com uma expressão de quem aceitava o destino.
Bernardo relaxou a guarda.
Ele a observava com calma, apreciando o estado lamentável dela tremendo no vento frio.
Quando se preparava para tirá-la dali e dar um sermão educativo, a mulher subitamente agarrou o cabelo dele, girou com agilidade e tentou empurrá-lo para fora.
Ele não se deu por vencido e segurou firmemente o braço dela.
TIBUM! TIBUM!
O som de dois corpos caindo na água com um intervalo de 0,2 segundos foi ensurdecedor no silêncio da noite.
O lema de Alice era: se eu for cair, levo alguém junto para servir de amortecedor.
Bernardo estava com o braço direito ferido e foi pego de surpresa pelo ataque. Ao cair, seu instinto foi tentar protegê-la.
Ele sentiu vontade de dar dois socos em si mesmo por isso!
Alice nadou rapidamente até a borda. Olhando para o canalha que se batia na água com apenas uma mão, ela riu tanto que, mesmo vestindo apenas a lingerie, não deixou de balançar a cabeça em tom de deboche:
— O feitiço virou contra o feiticeiro, não é? Bem feito, homem estúpido!
Homem estúpido?!
As pupilas profundas de Bernardo incendiaram-se com uma fúria intensa.
Alice não viu; ela estava ocupada correndo para o quarto para tomar banho e se vestir.
Aquele estilo "bikini improvisado" era humilhante demais.
Assim que entrou no banheiro, a porta foi arrombada brutalmente atrás dela.
Alice estava ali, completamente despida diante dele. Seus olhares se cruzaram, o som da água parecia ter parado, e só se ouvia o ritmo acelerado de seus corações.
Bernardo fixou o olhar nos lábios vermelhos e úmidos de Alice; seu coração acelerou com uma agitação inexplicável, e seu olhar tornou-se ardente.
Alice olhava para o Bernardo furioso e perdeu totalmente o interesse em apreciar a beleza bruta do homem; ela só queria fugir.
Ela não percebeu o lampejo fugaz de ternura nos olhos dele.
Mas, mesmo que percebesse, acharia que era apenas parte de um "golpe de galã".
Bernardo conteve a doçura em seu olhar, voltou a assumir uma expressão assustadora, entrou no banheiro, enrolou-a em uma toalha e a carregou para fora.
— Ei! Seu braço direito está quebrado, mas isso não impede sua mão esquerda de fazer besteira, não é?
— Bernardo, vá devagar, você vai me matar!
— Foi você quem me colocou no parapeito para me ameaçar primeiro. Eu só reagi para me proteger. Você é que é ruim; se caiu comigo, é porque é fraca, não tem nada a ver comigo.
— Saia daqui! Não toque em mim!
Ao ver o canalha se aproximar e pressionar o ombro nu dela com a mão esquerda, Alice quase explodiu.
Bernardo desabou ao lado dela na cama, exausto.
— Uma mulher sem graça e seca como você... eu não tenho estômago para te tocar.
Antes de fechar os olhos, ele disparou essa frase de animal, ferindo profundamente o orgulho dela.
Alice sentou-se, pronta para dar um tapa na cara dele, quando percebeu pelo canto do olho que a porta do quarto estava sendo aberta suavemente.
Droga! Era a Luana!
Será que ela tinha ordens para vigiar se ela e o Bernardo estavam dormindo juntos?
O Patriarca estava passando dos limites na supervisão.
Não admira que esse canalha a tenha tirado do banheiro e se jogado na cama fingindo sono.
Alice, seguindo o princípio de atuar até o fim, deitou-se ao lado dele e fingiu dormir.
O problema era que ela não tinha se enxaguado direito, sentia-se desconfortável e estava sem pijama, apenas enrolada na toalha. Não conseguia pregar o olho.
Assim que Luana saiu e a porta se fechou, ela levantou-se rapidamente para voltar ao banho. Sem querer, encostou na pele do homem; o calor que emanava dele a fez soltar um grito baixo.
Ela tocou a testa dele imediatamente.
— Febre?
Alice olhou para ele com desprezo, sem querer ajudar.
Em seu estado febril, o rosto dele estava corado, as sobrancelhas franzidas e os lábios vermelhos como sangue, extremamente provocantes...
Vestindo apenas roupas íntimas, as linhas perfeitas de seu corpo estavam expostas.
Sexy, tentador, um convite ao pecado.
Mas—
Ele era um canalha! O principal culpado pela morte de sua família na vida passada por ter sido conivente com Isadora Matos!
Beleza?
O ódio era muito mais importante!
Alice bufou, expulsou os pensamentos românticos da mente e foi para o banheiro.
Não importava se ele tinha febre ou não, o que ela tinha a ver com isso?!
Quando saiu do banho, Bernardo continuava na mesma posição, imóvel.
Alice, irritada, vestiu um vestido longo amarelo claro, pegou o celular e preparou-se para sair. Ao caminhar, ouviu o homem murmurar seu nome:
— Alice...
Os passos de Alice tornaram-se pesados como chumbo.
Que seja. Se ele morrer agora, não será bom para ela.
Em um ato de benevolência, decidiu levá-lo ao hospital.
Em apenas dois dias, já era a segunda vez que o levava para a emergência; que maré de azar.
Com dificuldade, conseguiu amparar Bernardo, mas o canalha começou a sussurrar o nome de outra mulher:
— Proteja... Isadora... não vou quebrar a promessa... vá embora...
Alice soltou o braço dele bruscamente!
O corpo pesado de Bernardo caiu na cama com um baque surdo.
Canalha! E ela ainda sentiu pena e quis levá-lo ao hospital!
Prestes a morrer e ainda pensando no seu "anjo puro"!
Eu por acaso te devo algo?
Alice, furiosa, pegou o celular e a bolsa e, na frente dos empregados de plantão, pegou uma Maserati e saiu em alta velocidade pelos portões da Mansão do Horizonte.
Que esse traste morra de uma vez!
...
No hospital.
Rafael tentava convencê-lo repetidamente, sem sucesso:
— No seu estado, você precisa ser internado. Mesmo que queira trabalhar, peça para o Eduardo trazer tudo para cá.
— Se continuar negligenciando sua saúde assim, vai acabar morrendo jovem.
— E o que houve com a sua esposa? Ela me ligou e sumiu; agora o celular dá desligado. Por acaso ela está com medo de você morrer e eu cobrar a responsabilidade dela?
— A propósito, a Isadora está lá fora querendo te ver. Quer que ela entre?
Todos ao redor de Bernardo sabiam da importância de Isadora Matos para ele.
Por causa de Bernardo, todos tratavam Isadora com gentileza e respeito; podia-se dizer que todos estavam dispostos a protegê-la e mimá-la para que vivesse sem preocupações.
...
Alice estava em seu escritório, diante de uma montanha de documentos, mas sem qualquer vontade de trabalhar.
Vitória apareceu, milagrosamente, trazendo uma cesta de frutas da estação.
— O que você quer me pedir? — Alice foi direto ao ponto.
— Hehe, amiga, você é um gênio, nada escapa de você. É o seguinte: descobri a verdadeira identidade do Yuri através do meu irmão.
Ao ver que Alice não parecia interessada, Vitória lançou a bomba: — O Yuri é o herdeiro da família Gustavo (Gu), do Leste. O nome real dele é Gustavo Henrique (Gu Tingfeng). Ele é fascinado por perfumes desde criança, mas daqui a um ano terá que retornar para assumir os negócios da família.
— Ah.
— ... O quê? Ele já te contou? Mas ouvi dizer que ele saiu bêbado e foi levado pelo assistente do seu marido.
— O Bernardo não é "meu marido", é o canalha de quem eu vou me divorciar. Se ainda não separamos, é apenas por interesses financeiros; estamos apenas fingindo.
Vitória estranhou: — Por que essa pressa em se explicar? Eu não entendi errado.
Alice: — ...
— Meu irmão quer que eu me aproxime do Gustavo (Yuri). Mesmo que não role casamento, ele quer que sejamos amigos.
— Fale como uma pessoa normal!
— Meu irmão quer um projeto da família Gustavo. Se eu conseguir o contrato, ele prometeu nunca mais me obrigar a ir a encontros às cegas.
Alice compreendeu: — Você quer que eu faça a ponte entre você e o Yuri?
— É por isso que você é minha melhor amiga! Meu sossego pelo resto da vida depende de você.
Alice massageou as têmporas: — E essas frutas...
— O Yuri foi internado. Comprei as frutas para levar para ele no hospital.
— Não eram para mim?
— Você é minha melhor amiga, não precisamos dessas formalidades. Assim que eu conseguir o contrato, te levo para um encontro com os modelos mais gatos da cidade.