Capítulo 20: O Senhor Fontes é um frouxo que só tem aparência
Alice acordou em uma cama de hospital, em um quarto duplo de alto padrão.
— Onde está o Bernardo? — perguntou ela a uma jovem enfermeira que entrava trazendo um café da manhã farto.
A enfermeira sorriu: — O Senhor Fontes já recebeu alta.
— ... Quem me trouxe para cá ontem à noite?
— A Senhora tem muita sorte. O próprio Senhor Fontes a trouxe nos braços e nos deu ordens para deixá-la dormir até acordar naturalmente. Este café da manhã foi enviado pelo assistente dele, com tudo o que a Senhora gosta.
A enfermeira era uma jovem falante e fofoqueira.
Ela continuou entusiasmada: — Dizem que o Senhor Fontes é um homem frio e inalcançável, mas ontem à noite eu o vi pessoalmente cobrindo a Senhora com a manta. Ele até mandou comprar uma garrafa térmica para deixar ao lado da sua cama. Senhora Fontes, a Senhora é o amuleto de sorte que todas as garotas invejam.
O canto da boca de Alice tremeu.
"Amuleto de sorte" não era bem o termo que ela usaria.
Ela ignorou o café da manhã enviado pelo canalha, mas pegou o cheque de cinco milhões que ele deixara no criado-mudo e o enfiou no bolso.
Já que passou a noite ali cuidando dele, e hospitais trazem mau agouro, ela merecia aquele dinheiro.
Alice pegou um táxi para o Grupo Guimarães.
Homem nenhum iria impedir o seu progresso na carreira.
No Grupo Fontes.
Escritório da presidência.
— A patroa já foi para a empresa dela. O café da manhã que o senhor mandou entregar... ela deu para a enfermeira.
Eduardo relatava a situação de Alice com o coração na mão.
Todos próximos a Bernardo sabiam que Alice estava "brincando com fogo" ultimamente, ignorando o marido e testando todos os limites dele.
O pior era que Bernardo, mesmo sabendo que era um "joguinho de desdém", acabava caindo na armadilha todas as vezes.
Como assistente executivo, Eduardo sentia a tensão: — Senhor Fontes, a patroa não valoriza seus esforços. O senhor não deveria mimá-la tanto. O Grupo Guimarães já está em crise, cedo ou tarde ela virá implorar a sua ajuda.
Bernardo ergueu o olhar, disparando um brilho gélido e mortal que fez Eduardo congelar e se retirar imediatamente.
Bernardo tinha um olhar afiado para negócios e ainda mais para pessoas.
Alice não estava fazendo joguinhos.
Ela realmente... queria fugir dele.
Esse casamento foi algo que ela planejou e implorou para ter, e agora ela fazia de tudo para escapar, sem sequer esconder seu desprezo e asco. O que teria acontecido nesse meio tempo?
Logo, alguém entrou na sala.
— Encontramos o culpado que te drogou daquela vez.
O recém-chegado tinha uma longa cicatriz na testa; embora fosse atraente, a marca lhe dava um ar sinistro e intimidador.
Bernardo manteve a expressão impassível: — Quem?
— Sua esposa.
...
Alice deu vários espirros seguidos.
— Será que peguei um resfriado no hospital? Se soubesse, teria pedido mais cinco milhões para aquele cachorro.
Ela pediu para a secretária preparar um chá de ervas quente.
Enquanto bebia o chá fumegante, a porta do escritório foi aberta brutalmente.
Ao ver quem era, Alice ergueu as sobrancelhas: — O Senhor Fontes não deveria estar descansando no hospital em plena luz do dia? Veio aqui arrumar briga?
O olhar de Bernardo estava carregado de um ódio venenoso: — Até quando você pretende atuar?
Alice fez um sinal para a secretária sair e dispensou os curiosos que espiavam lá fora.
Ela pousou a xícara e sorriu com indiferença: — Atuar em quê?
— Alice Guimarães — Bernardo caminhou até ela; havia apenas a mesa de escritório entre os dois.
Ele se inclinou em sua direção, sua aura gélida envolvendo Alice, deixando-a desconfortável.
O que deu nesse louco agora?
— Bernardo, fale o que tem para falar, não venha com agressividade passiva.
Bernardo respirou fundo, tentando controlar suas emoções, e disse com a voz sombria:
— Me drogar e depois chamar a polícia quando eu tentei te tocar... que bela peça você dirigiu. Esqueceu-se tão rápido?
Alice ficou atônita.
Ela o drogou?
— Com que olhos você me viu te drogando? Naquele dia eu nem tive contato com você, muito menos toquei em qualquer coisa que você ingeriu. Como eu teria tido a chance de te drogar?
— Você acha mesmo que, por eu querer dormir com você nestes últimos seis meses, eu usaria um método tão baixo e desprezível?
— Bernardo, admito que você é rico e bonito, mas não é o melhor homem do mundo aos meus olhos. Um tipo como você só serve para mulheres cegas se interessarem.
— Você não faz o meu tipo, entendeu? Entendeu? Entendeu?
— Agora, por favor, retire-se daqui e não atrapalhe o meu trabalho.
A enxurrada de Alice deixou Bernardo momentaneamente sem palavras.
Não foi ela quem o drogou?
— Você acha que eu estou te acusando sem provas? Alice, não se esqueça de que o Iago nunca erra.
Alice compreendeu na hora.
Iago era um dos comparsas de Bernardo, conhecido como "Iago Louco". Ele era especialista em coleta de informações e ex-membro de inteligência, com recursos ilimitados na área.
Não era à toa que Bernardo acreditava piamente; era o resultado da investigação do "Louco".
— Então eu pergunto: por que diabos esse "Louco" me acusaria? Aquele solteirão convicto de trinta anos, que nunca tocou em uma mulher, também acha que eu estava desesperada para dormir com você?
Iago estava parado do lado de fora; a porta não estava totalmente fechada, e os ataques pessoais de Alice chegaram direto aos seus ouvidos.
Ele ficou ofendido: — Alice, quem você está chamando de solteirão velho de trinta anos?
— Você vivia rastejando atrás do Bernardo, não era por luxúria?
— Você casou com ele há seis meses e ele nunca dormiu no mesmo quarto que você. Você ficou excitada e o drogou, o motivo é óbvio.
— Admita logo, Alice. Você ordenou que a empregada Luísa colocasse a droga no copo de água do Bernardo. Ele não teve escolha a não ser voltar para casa e te procurar para resolver o problema. Só não entendo por que você pirou e chamou a polícia.
Muito bem. Vieram tirar satisfação na cara dela, não foi?
Alice riu de puro escárnio: — Se eu realmente quisesse usar um método tão baixo para dormir com o Bernardo Fontes, eu não teria chamado a polícia naquela noite. Pelo contrário, eu teria dado ainda mais droga para ele, para que ele ficasse de joelhos implorando pelo meu toque. Ah, e tem a Isadora Matos, não é? Eu não me importaria de ter a Isadora junto para nos servir, sabia? Deixar o seu precioso Bernardo aproveitar o "prazer em dobro", não é esse o lema de vocês?
Iago: — ...
Cacete.
Essa era a mesma Alice Guimarães que ele conhecia? Falando essas baixarias?
Bernardo não aguentou mais ouvir.
Ele atravessou a mesa e apertou o pescoço de Alice: — Tente dizer mais uma dessas asneiras!
Alice achou que ele estava furioso porque ela mencionou sua amada Isadora. Sentindo-se ainda mais injustiçada e irritada, ela disparou: — Não foi a Isadora quem te drogou para dormir com você? Lembro que foi ela quem te convidou para sair naquele dia.
Alice recordava que, na vida passada, quando Isadora ligou, Bernardo estava comendo o café da manhã preparado por ela. Ela ouviu Isadora implorar por um jantar. Naquela mesma noite, Bernardo foi drogado e a usou brutalmente a noite inteira. Mais tarde, quando Isadora soube que eles tiveram relações, ela a questionou histericamente.
Ela piscou os olhos e debochou: — Isadora é o seu anjo puro, o seu tesouro. Se ela quisesse dormir com você, bastaria pedir, não é? A menos que...
Alice agarrou a mão grande que apertava seu pescoço com as duas mãos e soltou uma gargalhada: — Bernardo Fontes! Será que você é broxa, e por isso a Isadora teve que te drogar? Hahaha! Bernardo, então você é apenas um frouxo que só tem aparência!