Capítulo 19: Mesmo quarto, mas camas diferentes, entendeu? Entendeu? Entendeu?
— Sair de casa vestida assim... se você não tem decência, a família Fontes tem.
Bernardo não se conteve e partiu para o ataque pessoal.
Alice apertou o volante, olhou de relance para seu visual cuidadosamente planejado e debochou:
— Vivemos em uma era de liberdade de expressão, inclusive no vestir. Antigamente as pessoas amarravam os pés, o senhor agora quer amarrar o meu cérebro? Se o senhor Fontes estiver se sentindo frustrado, posso indicar gratuitamente alguns psiquiatras excelentes.
— ... Você!
— O que foi? A beleza da senhorita aqui é tanta que te deixou sem palavras?
— Alice Guimarães, como você consegue ser tão cara de pau?
Alice sorriu friamente, sem dar a mínima para ele, e disparou:
— Se não gosta de me ver, mantenha distância. Não quero que ninguém me denuncie por maus-tratos a animais.
Bernardo: ... A língua afiada dela era, sem dúvida, a número um entre todas as herdeiras de São Paulo.
A atmosfera dentro do carro tornou-se de um silêncio absurdamente sinistro.
Alice não deu a mínima para Bernardo; ao chegar na Mansão do Horizonte, deixou-o sozinho no carro e subiu direto para se lavar.
A Mansão do Horizonte tinha muitos quartos de hóspedes. O quarto principal era, claro, o mais luxuoso e confortável, mas como ela e aquele canalha do Bernardo já eram praticamente estranhos, ela jamais voltaria a dormir lá por vontade própria.
As amenidades do quarto de hóspedes eram completas. Após o banho, ela ligou para o governante da casa dos Guimarães para que organizasse seus pertences de uso diário e os enviasse amanhã.
Anteriormente, quando rompeu com Bernardo e fez as malas, ela ordenou que os empregados jogassem fora tudo o que restasse dela ali.
E agora, estava sem sequer um pijama para trocar.
Ela não poderia dormir com aquele vestido branco de antes, poderia?
Não conseguiria pregar o olho.
Alice mal colocou a cabeça para fora do quarto quando foi parada pelo homem que, embora parecesse doente, não perdia sua beleza imponente.
— Use o quarto principal — disse ele, economizando palavras.
Alice fingiu que não ouviu e fez menção de fechar a porta.
— O meu avô enviou a Luana, neta do Vagner, para cuidar da sua saúde. Se ela descobrir que estamos dormindo em quartos separados, o que o vovô vai pensar?
— Alice, não se esqueça de que você assinou o acordo.
— Se quer os recursos e a liberdade, deve cumprir o pacto.
Alice mudou de semblante instantaneamente:
— Cuidar da saúde? Para mim, ela vem como espiã. Bernardo, isso foi ideia sua, não foi?
Como o vovô saberia tão rápido que ela voltara a morar ali?
Bernardo riu com sarcasmo: — Não se ache tão importante assim.
— Fique tranquilo, perto de você, eu nunca me sinto importante. "Eu sou sua ancestral", pensou ela.
No fim, Alice acabou se mudando de volta para o quarto principal.
Ela pretendia apenas dar uma olhada no closet para ver se encontrava alguma peça esquecida; não podia mesmo dormir com um vestido que cheirava a vinho.
No entanto, ao abrir o closet, seus olhos quase brilharam.
De onde viera todo aquele acervo de alta costura?
Havia muitas marcas que não estavam lá antes; cada peça era um modelo limitado e ultra moderno da estação. Havia também diversos estilos de pijamas e camisolas... ignorando, claro, os conjuntos de lingerie mais provocantes que estavam em destaque.
Será que o Patriarca, sabendo da briga, mandou Luana preparar tudo aquilo?
O velho foi realmente atencioso.
Alice escolheu um pijama de estilo tradicional chinês, bem conservador. Na cama luxuosa e enorme, repousava um "demônio sedutor"; se não conhecesse aquele rosto tão bem, ela acharia que tinha contratado um modelo de luxo.
Aquele canalha do Bernardo vestia um robe de seda preta, deitado de lado, apoiando a cabeça com a mão esquerda (a que não estava ferida), observando-a com um olhar profundo.
Aqueles olhos eram como um oceano vasto, capazes de enfeitiçar qualquer um.
A respiração de Alice vacilou por alguns segundos.
Ela logo disparou o sarcasmo: — Mudou de profissão? Agora atende em bordéis?
Bernardo sentiu um aperto no peito por um instante.
— Um dia eu ainda vou costurar essa sua boca!
Dito isso, ele se deitou de forma rígida e correta.
Alice franziu a testa e sentou-se na penteadeira para escovar o cabelo.
Escovar cem vezes antes de dormir: bom para o sangue e para evitar a queda.
— Durante nosso casamento, sempre dormimos em quartos separados. As notícias da Mansão do Horizonte nunca chegavam aos ouvidos do vovô, e ele jamais mandaria alguém nos supervisionar. Essa vinda súbita da Luana...
Alice viu pelo espelho o homem na cama movimentar levemente o braço ferido.
Ela continuou: — Se você não tivesse sido drogado, não teríamos tido aquele contato íntimo naquela noite. Você continuaria me tratando como um enfeite. Podemos dividir o quarto, mas como você está ferido, você fica com a cama e eu com o sofá.
Havia um pequeno sofá no quarto; ela se acomodaria ali por enquanto.
O rosto de Bernardo escureceu.
Ele sabia o quanto Alice, antigamente, desejava que ele passasse a noite no quarto principal.
Ela chegara a carregá-lo bêbado para lá várias vezes, insistindo em dar banho e trocá-lo pessoalmente.
Agora que ele lhe dava a chance de se aproximar, ela desistia sem hesitar?
— Alice Guimarães, venha aqui!
— O que você está pensando?! Mesmo quarto, mas camas diferentes, entendeu? Entendeu? Entendeu? Vou dormir!
Alice o rejeitou de forma veemente.
Ao se deitar, ainda resmungou para si mesma: — Não sei o que deu na minha cabeça para aceitar dormir no mesmo cômodo. Que pesadelo.
Bernardo: ... Essa mulher! Ela ia acabar matando ele de raiva!
Ele viu Alice se enrolar em uma manta fina e realmente dormir no sofá.
Durante todo o processo, ela não lhe dirigiu um único olhar.
Ele encarou, incrédulo, aquela silhueta de costas para ele...
Ele estava completamente desestruturado!
Alice estava exausta ultimamente, física e mentalmente; pegou no sono assim que deitou, embora o sofá fosse estreito e desconfortável.
No meio da noite, ela acordou com sede.
Meio tonta de sono, esticou a mão para pegar a garrafa térmica no criado-mudo.
Ela tinha o hábito de deixar água ao lado da cama antes de dormir. Porém, ao esticar a mão, em vez da garrafa, ela agarrou uma... cabeça?!
— Aaaaaah!
Alice gritou.
O homem rugiu com uma voz irritada e contida: — Não grite, sou eu.
— Bernardo Fontes, você é louco? Não dorme no meio da noite e fica aqui assustando os outros.
Alice saltou do sofá e correu para acender a luz.
Ao acender, levou um susto.
Bernardo estava pálido, sentado no chão ao lado do sofá. Tirando o olhar de desagrado e desprezo que ainda lançava para ela, ele exalava a aura de um "fraco" prestes a desfalecer de uma doença grave.
Alice engoliu em seco: — Você... está bem?
Se esse homem morresse ao lado dela no meio da noite, a família Fontes a processaria por assassinato?
— Dor de estômago. Vá pegar o meu remédio.
— Vamos para o hospital — disse Alice secamente, indo trocar de roupa imediatamente.
Bernardo insistiu: — Pegue o remédio.
— Como vou saber se é só estômago? E se for algo terminal?
— Se for terminal, você ficará feliz, não é?
— Sim! Muito feliz! Teria uma fortuna sem precisar divorciar e ainda poderia esmagar a sua amante como uma barata. Que maravilha!
Alice não estava brincando.
Ela queria que Bernardo morresse, mas não agora.
Bernardo, não se sabe se por raiva ou por dor, ficou sentado no chão sem dizer nada.
Alice tentou puxá-lo várias vezes sem sucesso: — Pode colaborar um pouco?
— Não.
Ela limpou o suor da testa: — Então vou chamar os empregados.
Ela mal chegou à porta e o canalha levantou-se sozinho.
— Me ajude — ordenou ele com arrogância.
Alice o encarou por um momento, mas acabou cedendo e o amparou. Chegando logo ao hospital, ela se libertaria mais rápido.
Aquele sujeito era cheio de frescuras e não suportava que estranhos o tocassem; se ela chamasse um empregado, era capaz de sair uma morte ali.
Ela assumiu o volante e levou Bernardo ao hospital onde Rafael trabalhava. Rafael já esperava na porta após receber o aviso.
Assim que o médico assumiu o caso, Alice quis ir embora.
— O Bernardo está mal desse jeito e você, sendo a esposa, não vai ficar?
— E se eu precisar de uma assinatura da família, onde vou te achar?
— Alice, tenha um pouco de compaixão.
Durante todo o tempo, Bernardo manteve uma expressão fria e indiferente.
— Tudo bem. Ficar uma noite custa cinco milhões. Pode ser transferência ou dinheiro vivo — disse Alice entre dentes.
Rafael amparou Bernardo até a sala de exames, resmungando: — Ela nem precisa de dinheiro, quando foi que ficou tão mercenária?
Alice bocejou e decidiu cochilar um pouco no corredor. Acabou pegando no sono pesado.
Em meio ao torpor, sentiu vagamente um par de braços fortes e potentes a levantando do chão.