Capítulo 14: Sem um homem no coração, a espada se torna divina
— Bernardo Fontes! Se você quer morrer, não me arraste junto! Pare o carro agora!
Alice olhava para ele dirigindo com a mão esquerda enquanto a direita estava enfaixada. Seu perfil belo exalava uma fúria selvagem, e ela sentiu que teria um ataque cardíaco a qualquer momento.
O que deu nesse canalha?
— Medo de morrer? Me peça por favor.
— Te pedir? Continue sonhando.
Bernardo soltou um bufo frio e pisou fundo no acelerador.
Alice já conseguia imaginar a cena do assistente dele levando um sermão da polícia rodoviária amanhã.
Seria impossível Alice abaixar a cabeça; ela agarrou o apoio de braço e pensou: "O Bernardo preza muito pela própria vida e já foi campeão de Mountain Bike, ele não vai morrer hoje".
Bernardo aproveitou um segundo para olhar de relance para Alice.
Ela estava de olhos bem fechados, com os cílios longos escondendo suas emoções reais. Seu rosto pálido estava tomado por irritação e raiva, mas ela se recusava a abrir a boca para lhe pedir qualquer coisa.
Ela preferia morrer a implorar a ele.
"Alice! É isso o que você chama de amor inabalável?"
Ele não sabia o que havia acontecido, mas podia sentir claramente que, desde aquela noite, a Alice que o amava profundamente e se humilhava até o pó... havia desaparecido.
Em seu lugar, surgiu uma Alice fria, decidida pelo divórcio e que até demonstrava desprezo e asco por ele.
Ele sentiu um aperto estranho no peito.
O som das ondas!
Alice abriu os olhos, e um brilho gélido passou por eles.
— Bernardo, o que você está fazendo?
— Por que? Esqueceu o lugar onde me pediu em casamento?
Alice sentiu uma pontada de dor no coração.
Mas após a dor, veio um ódio intenso.
Na vida passada, ela preparou um pedido de casamento grandioso para Bernardo nesta Praia de Prata.
Ela quis se casar com ele por metade de sua vida.
Ela queria dar um ponto final perfeito àquela paixão unilateral e começar um casamento feliz com o homem dos seus sonhos.
Mas qual foi o resultado?
Ele apareceu acompanhado de Isadora Matos.
As palavras do pedido ficaram entaladas em sua garganta, e no fim, derrotada pelo amor que sentia, ela o pediu em casamento na frente daquela piranha da Isadora.
Mesmo sabendo que ele não queria o casamento, ela arrancou o próprio coração para entregar a ele.
O que a Isadora disse na época?
"E diziam que você era a herdeira mais elegante da cidade... como consegue ser mais baixa que uma mulher de bordel?"
Ela quis bater na Isadora, mas ele a impediu: "Alice, eu vou me casar com você, esse é o meu limite. Se você encostar um dedo na Isadora, eu garanto que farei os Guimarães pagarem um preço terrível."
Preço terrível?
Não importava o quanto ela o servisse ou o quanto suportasse a Isadora, ele nunca poupou os Guimarães.
Ela morreu, e nenhum de seus entes queridos teve um final digno.
Bernardo abriu a porta do carro e arrastou Alice, que estava perdida em pensamentos, para fora.
Alice tropeçou na areia, e as ondas atingiram seus tornozelos.
Ela despertou num sobressalto, empurrou Bernardo com força e, com os olhos vermelhos, liberou um ódio visceral.
— Saia de perto de mim!
Ela não permitiria que esse canalha a tocasse nem por um segundo.
Bernardo franziu as sobrancelhas: — Que tipo de joguinho é esse agora?
Ele apenas queria que ela se lembrasse de que foi ELA quem implorou por esse casamento.
Por que ela estava agindo como se ele fosse o assassino de seu pai?
— Bernardo, esse divórcio é definitivo.
Alice virou-se para sair.
Bernardo não a trouxe até aqui para deixá-la ir tão facilmente.
Usando sua força bruta, ele a prensou contra a porta do carro: — O quê? Esqueceu como implorou para que eu me casasse com você?
— Não me toque!
— Alice, esqueceu de quando invadiu meu quarto vestindo roupas provocantes, implorando para que eu te tocasse?
O hálito dele, quente, atingia o pescoço de Alice.
O corpo dela estava rígido: — Bernardo, tenha um pingo de vergonha na cara.
— Estou curioso para saber até quando você vai sustentar esse seu "desdém" fingido.
Sua voz rouca estava carregada de sedução.
Se fosse a Alice da vida passada, ela provavelmente teria se rendido.
Mas ela renasceu e recuperou o cérebro.
Se não podia vencê-lo na força, não podia atacar por baixo?
Alice pisou com toda força no peito do pé do canalha e, no instante em que ele gemeu de dor, desferiu um soco impiedoso em seu braço direito ferido.
Bernardo não esperava que Alice atacasse para valer.
Ela sempre fora cuidadosa e dedicada com ele.
Mesmo após a mudança súbita de temperamento, ela nunca fora tão agressiva.
Hoje ela parecia possuída; além do olhar assassino, cada golpe era para machucar.
Alice realmente queria matar alguém.
Ela agarrou o pescoço de Bernardo com as duas mãos, ficou na ponta dos pés e o encarou de igual para igual:
— Bernardo Fontes, coloque uma coisa na cabeça: eu não te amo mais. Se você continuar me perseguindo, eu não hesitarei em destruir a sua amante a qualquer custo e depois pisar em você com toda a minha força!
Ao vê-lo estreitar os olhos em silêncio, Alice não quis mais perder tempo, soltou-o e saiu caminhando.
Ali era a beira-mar, não haveria táxis à noite, e o celular dela ficara dentro do carro dele.
Um brilho de astúcia passou por seus belos olhos; ela entrou rapidamente no carro e deu a partida.
A voz gélida de Bernardo chegou aos seus ouvidos através da janela:
— Para competir com a Isadora, você não hesita em se rebaixar para seduzir o Yuri?
— Alice, você é realmente baixa.
Alice pretendia jogar o celular para ele, para que não ficasse em uma situação tão terrível.
Mas ele insistiu em provocá-la.
VRUM—!!!
Ela acelerou e desapareceu instantaneamente na escuridão da noite.
O som das ondas inundou os ouvidos de Bernardo.
Essa mulher! Ela realmente foi embora!
Espere... e o celular dele?
...
Alice não queria dizer nem mais meia palavra para aquele canalha do Bernardo. Ao chegar na cidade, abandonou o carro dele em um estacionamento e pegou um táxi para a Mansão Yuri.
— Você voltou?
Yuri olhou para Alice com choque.
Sabia que qualquer um levado por Bernardo em um estado de fúria saía morto ou, no mínimo, sem um pedaço da pele.
Alice estava ali na frente dele, inteira. Inacreditável.
— Onde está seu marido?
— Morreu.
Alice serviu-se de um copo de água e disse a Yuri:
— Aquele canalha pode tentar instigar os velhos da associação para me boicotar a qualquer momento. Preciso de uma promessa sua.
Ao ver Yuri hesitar, ela aumentou a aposta: — Eu te ensino a técnica de hidro-condensação.
— Negócio fechado. — Yuri, satisfeito, levou Alice para seu laboratório. — Você é a única mulher que já entrou no meu laboratório pessoal. E aí, emocionada? Quando se divorciar, que tal considerar minha investida?
Alice: — ...
Ela pregou uma peça em Bernardo esta noite, e só havia duas possibilidades:
Divórcio rápido.
Ou ele a prenderia em uma vingança doentia.
Ela esperava que fosse a primeira.
...
Quando Alice saiu da Mansão Yuri, já era meio-dia.
Com olheiras profundas, ela se preparava para ir à empresa, quando Rafael bloqueou o seu caminho.
— Foi você quem tirou o Bernardo do hospital ontem? Você sabia que ele está com uma febre que não passa?
— Alice, esse seu "desdém" tem que ter um limite. Se continuar assim, não tem medo de que ele te chute de vez para casar com outra?
— Agora, já, imediatamente, venha comigo para o hospital!
Se não fosse pela insistência do amigo em não querer tomar os remédios, Rafael jamais viria atrás de Alice.
Essa mulher sem coração.
Alice, ao ouvir aquilo, soltou uma risada debochada: — Febre persistente? Bem feito. É o que acontece com quem fala demais.
— Você... eu não vou discutir. O fato é que o Bernardo passou a noite inteira no sereno da praia e o braço ferido sofreu um impacto forte; a situação é grave. Venha comigo para o hospital agora para convencê-lo a tomar o remédio.
— Quantos anos o Bernardo tem? Precisa de carinho para tomar remédio?
— Ele não suporta olhar para mim, e eu também não tenho prazer em vê-lo. Esse trabalho de "dar carinho" combina mais com a amante dele.
— Rafael, eu sei que você é o melhor amigo dele, então vou ser direta: o divórcio é sério. De agora em diante, não me procure por causa dele. O que você chama de "joguinho" eu chamo de: sem um homem no coração, a espada se torna divina.
Rafael: — ...
Ele teve a sensação de ter abordado a Alice errada.
Essa era a mesma Alice que amava aquele homem até a morte?
Parecia mais uma viúva negra.