A névoa matinal envolvia os arranha-céus do centro da cidade, como feras gigantes à espreita.
Alice Guimarães, totalmente camuflada, apareceu silenciosamente em um camarote de um restaurante privativo discreto.
Gabriel serviu uma tigela de mingau para ela. — Coma primeiro, depois conversamos.
Alice sentiu um pressentimento sinistro. — Pode falar, eu aguento.
— A pessoa por trás da EN Capital... — Gabriel hesitou antes de revelar a verdade cruel — ...é o seu tio.
— O quê? — Alice tremeu. — Quem você disse?
— Seu tio, Renato Guimarães.
Alice negou com a cabeça, sem querer acreditar. Gabriel entregou-lhe o relatório com as provas.
À medida que lia, os dedos dela tremiam até não conseguir mais segurar os papéis. Um pilar importante em seu coração desmoronou.
Renato aproveitara o coma de Augusto e a confiança de Alice para usurpar o comando e desviar ativos.
— Chore se precisar — disse Gabriel, sentando-se ao lado dela.
Alice agarrou a camisa dele e desabou em um choro convulsivo. Gabriel a abraçou forte, sendo seu porto seguro em silêncio.
— Ele me enganou! Ele queria o Grupo Changyao desde o início! — Alice levantou o rosto com um ódio profundo nos olhos. — O grupo é a vida inteira do meu vovô! Como ele pode ser tão cruel?
Gabriel limpou as lágrimas dela. — Nini, não tenha medo. Eu estou aqui e não deixarei que ele consiga o que quer.
Alice assentiu, pegou a colher e começou a comer o mingau, mesmo soluçando.
— Vovô me disse uma vez: quem consegue comer enquanto chora, consegue resolver qualquer coisa. Eu sinto falta dele, Gabriel... por que ele não acorda?
As lágrimas quentes dela queimavam o dorso da mão de Gabriel. Ele a confortou até que ela se acalmasse.
Com o olhar agora firme, Alice retocou a maquiagem. Às dez da manhã, ela surgiu elegante e decidida na sala de reuniões da Changyao.
Renato presidia a mesa, propondo a venda da Changsheng Química para a EN Capital. Após vários diretores e o Segundo Tio-Avô apoiarem, Renato olhou para Alice e Thales.
— Thales?
— Apoio — disse Thales, sem conseguir olhar para Alice.
— E você, Nini?
Alice encarou a todos e disse com clareza: — Eu sou contra.
O choque foi geral. Como segunda maior acionista, Alice nunca tinha ido contra a maré.
Renato tentou tratá-la como uma criança mimada, mas Alice rebateu com dados técnicos sobre a lucratividade da subsidiária.
— É uma peça central da nossa cadeia produtiva. Por que o tio quer vendê-la? — Alice sorriu friamente e disparou o golpe final: — E por que o tio não explica qual é a sua relação com Maria Johnson, a sócia da EN Capital?
— Não sei do que está falando — mentiu Renato, pálido.
Alice jogou documentos sobre a mesa revelando a ligação entre eles.
Um dos diretores, Sr. Sun, apontou que, por ser uma transação entre partes relacionadas, o voto de Renato era inválido. Com o voto de Alice, a venda foi barrada.
Alice saiu vitoriosa da sala, mas ao entrar no carro, uma memória a atingiu.
Ela lembrou de ouvir o pai e Thales discutindo anos atrás sobre Renato não ter capacidade técnica nem para ser gerente financeiro.
Por que, então, Thales — que tanto prezava pela competência — o indicaria para Presidente Interino agora?
A conclusão foi dolorosa: Thales traiu a família e aliou-se a Renato. A disputa entre Renato e o Tio-Avô fora apenas uma cortina de fumaça para enganá-la.
— Para o Grupo Cavalcante — ordenou ela ao motorista. Ela precisava ver Gabriel.
No saguão da empresa, sua beleza paralisou a recepção.
— Olá, procuro por Gabriel Cavalcante — disse Alice.
— Tem hora marcada? — perguntou a recepcionista, Vivien.
Alice negou, mas Vivien, pressentindo que ela era alguém importante, ligou para a presidência.
Dez minutos depois, o próprio CEO desceu para buscá-la, levando-a pelo braço para o elevador privativo sob os olhares atônitos da equipe.
No elevador, Gabriel a abraçou. — Por que veio de repente?
— Por quê? Tem algo escondido no escritório que eu não possa ver? — ela provocou.
Gabriel apenas sorriu e, assim que entraram na sala, a prensou contra a porta.
O beijo foi urgente, a língua dele explorando cada canto da boca dela, trazendo o calor que Alice tanto precisava para dissipar o frio da traição sofrida. Ela envolveu o pescoço dele, entregando-se ao momento.
— Meu pescoço está doendo... — ela murmurou entre beijos.
Gabriel a pegou no colo e sentou-se na cadeira presidencial com ela em seu colo, reiniciando o ataque.
Suas mãos subiram pelas costas dela, prendendo seus pulsos atrás do corpo e forçando-a a arquear o peito contra o dele. O atrito dos tecidos incendiava os sentidos.
Alice sentia a língua dormente e o fôlego curto quando Gabriel finalmente a soltou, dando um tapa leve em seu quadril:
— Desça agora.