Aeroporto de Congonhas.
Gabriel Cavalcante desceu do avião e saiu pelo canal VIP, ligando para Alice Guimarães enquanto caminhava em direção ao carro que o esperava.
O fone emitia o aviso mecânico: — "Desculpe, o número discado está desligado, por favor, tente mais tarde."
Ele franziu o cenho.
Alice nunca desligava o celular.
Os eventos sucessivos dos últimos dias mantiveram seu coração tenso, e naquele momento a sensação de peso aumentou.
Cada vez mais inquieto, ao entrar no carro, ordenou ao motorista: — Vá agora para o Hotel Aman.
Em seguida, ligou para Felipe: — Descubra imediatamente se a patroa está no Aman.
Felipe foi eficiente e, em menos de cinco minutos, Gabriel recebeu a confirmação. Ao chegar ao hotel, Gabriel entrou no salão de festas e entregou um presente para Ji: — Feliz aniversário.
— Obrigada, primo! — Ji sorriu. — Quer comer algo?
— Não, vou ver a Nini primeiro. — Ele se virou para sair.
Ao deixar o salão, deu de cara com Clarice, que sorria docemente: — Gabriel, está procurando a Alice? Ela bebeu um pouco demais e Ji e eu a levamos para descansar. Ela acordou e pediu para ficar sozinha, então eu desci primeiro. — Ela estendeu uma taça de vinho. — Você viajou muito, beba algo para relaxar. Temos tanto para conversar.
Gabriel apenas lançou um olhar gélido para ela, desviou-se e foi direto para o elevador.
Clarice apertou a taça com força e, num canto deserto, despejou o vinho no chão. Eunice Cavalcante surgiu atrás dela: — Ele não bebeu?
Clarice balançou a cabeça.
— Não importa, terá outras chances. — Eunice olhou o relógio. — Pelo tempo, a diversão lá em cima deve estar começando. Ele vai chegar bem na hora do show.
Em outro salão do Aman, Marcos Zhou tentava se afastar do barulho e foi para a saída de emergência fumar.
Ao chegar perto, ouviu uma voz masculina vulgar: — Hoje eu ganhei na loteria! É a herdeira dos Guimarães, a mais gata do circuito. Não me pergunte como consegui, mas não esqueci de você, parceiro. Sobe logo, quarto 1032, vamos nos divertir juntos, hehe...
A risada parou abruptamente quando o punho de Marcos atingiu o olho do homem. Ele o ergueu pelo colarinho, reconhecendo o playboy lixo conhecido como Valter.
Marcos, sempre gentil, agora tinha um rosto aterrorizante. Ele desferiu um soco pesado no estômago do sujeito e pegou o cartão magnético do bolso dele.
— Segurem ele — ordenou Marcos aos assistentes que chegaram ao ouvir a briga. Em seguida, disparou em direção ao elevador.
No quarto 1032, Alice lutava para manter os olhos abertos. Sentia um calor estranho e perigoso consumindo seu corpo. Ela mordeu a própria língua com força para recuperar a consciência, rastejou para fora da cama e pegou um cinzeiro de vidro, escondendo-se na penumbra da porta.
O bipe da fechadura soou. Alguém entrou.
Alice atacou com o cinzeiro, mas seu pulso foi segurado firmemente.
— Nini? — uma voz grave e familiar soou no escuro.
Ela relaxou instantaneamente. — Você chegou...
A luz foi acesa. Gabriel viu o rosto febril dela. — Você está bem?
— Eu... — ela fraquejou, desabando. Gabriel a segurou. — Nini!
— Tem algo errado... me leva para casa...
Gabriel sentiu a pele dela ardendo e a pegou no colo. No corredor, cruzou com Marcos Zhou.
— Ela está bem? — perguntou Marcos.
— Ela está com febre — disse Gabriel, apressado.
— Espere — Marcos disse entre dentes. — Ela foi dopada. Um tal de Valter tinha a chave e ia abusar dela.
Gabriel gelou. — Valter? Da família de empresários do leste?
— Sim. Meus homens estão com ele.
— Entendi. — A voz de Gabriel era um sussurro mortal. — Deixe ele comigo. Eu resolvo.
Alice murmurou no colo dele: — Gabriel...
O som do nome dele fez o coração de Marcos ser apertado por espinhos.
— Estou aqui, Nini — sussurrou Gabriel, antes de olhar para Marcos. — Obrigado.
— Não fiz por você. — Os olhares se cruzaram em desafio. — Lembre-se: se não puder protegê-la, deixe que eu faço.
— Você nunca terá essa chance.
Gabriel partiu.
No Bentley preto, a aura assassina dele era contida apenas pela fragilidade de Alice em seus braços.
Quem se atreve a machucá-la deve morrer
, pensou.
Alice começou a gemer e se contorcer, sentindo o efeito da droga piorar.
— Quente... — sussurrou ela.
Gabriel subiu a divisória do carro e tentou refrescá-la com água, mas o instinto dela falou mais alto.
Ela guiou a mão dele para baixo. O rosto de Gabriel ficou lívido. Não era um sedativo comum.
Ele limpou as mãos com um lenço úmido enquanto Alice implorava: — Gabriel...
— Estou aqui, bebê — sussurrou ele. — Vou cuidar disso agora.
Atrás da divisória, Gabriel a abraçou. Suas mãos exploraram o corpo de Alice por baixo do vestido.
Alice arqueou-se como um arco tensionado, o pescoço alvo esticado, tremendo como um cisne ferido antes de desabar no peito dele.
Gabriel sentiu o perfume doce dela invadir seus pulmões, tornando sua própria sede insuportável. Alice não parava; sentou-se no colo dele, encarando-o com olhos perdidos.
— Irmão... eu quero... — a voz dela fez a alma de Gabriel vibrar.
Ele tentou acalmá-la, mas Alice começou a chorar baixinho, pressionando as mãos dele contra o próprio corpo.
Gabriel perdeu a razão.
Ao chegarem na garagem da mansão, ele dispensou o motorista pelo interfone.
Na penumbra do carro, apenas a luz da lua revelava a silhueta de Gabriel e as pernas alvas de Alice envoltas nele.
Ao recuperarem os sentidos, Alice acordou em seu quarto. Gabriel trouxe água e perguntou o que ela lembrava. Alice contou sobre a festa de Ji e como Clarice a ajudara.
— Foi Clarice — disse Gabriel. — Ela te dopou e deu a chave para aquele lixo. Não chegue mais perto dela nem da Ji até eu resolver isso. E ande sempre com segurança.
— Marcos Zhou também estava lá? — perguntou ela.
— Sim. Eu devo esse favor a ele, e eu vou pagar. Descanse.
Nos dias seguintes, Alice focou em seu projeto de formatura. Ela criou um tecido inovador com lantejoulas que parecia seda líquida, algo que até Jan elogiou. Mas uma inquietação a consumia. Ao ligar a TV, viu a notícia: seu tio Renato fora eleito presidente interino do Grupo Changyao.
Gabriel entrou no quarto com uma expressão séria.
— Descobri quem foi — disse ele, entregando um relatório. — Foi Clarice. Ela planejou tudo, desde o hotel até induzir o Valter ao seu quarto.
Alice leu o relatório, furiosa. — Por que ela faria isso? Eu não fiz nada para ela!
Gabriel tirou o papel das mãos dela. — A motivação dela é o que ainda não entendi.
Alice o encarou por um longo tempo: — Ela realmente não gosta de você? Se ela te amasse, tudo faria sentido.