Ao sair do Hotel Aman, Alice Guimarães permaneceu em silêncio absoluto.
Encolhida no banco do carro com os braços cruzados e o rosto rígido, ela não dirigiu um único olhar ao homem ao seu lado.
Gabriel Cavalcante olhava para ela pelo canto do olho, tentando iniciar uma explicação: — Eu...
— Cale a boca — interrompeu Alice. — Não quero ouvir sua voz agora.
Assim que o carro parou na Mansão Aurora, ela abriu a porta e entrou em casa batendo os saltos.
Foi direto para a bancada da cozinha e serviu-se de um copo de água gelada, esperando que o frio acalmasse a fúria em seu peito. Mas, antes que a água tocasse seus lábios, seu pulso foi segurado.
— Não beba água gelada.
— Não é da sua conta. — Alice tentou se soltar, mas sua força era insignificante diante da dele.
Gabriel não insistiu na força; soltou o pulso dela e serviu um copo de água morna. — Beba esta.
Alice apertou os lábios, imóvel.
— Quer pétalas de rosa? Mel? — Ele omitiu deliberadamente o limão. Agora, só de ver um limão, seus olhos já doíam.
Alice sentiu que estava sendo infantil. Aceitou o copo, deu dois goles e fez menção de subir para o quarto.
Porém, antes do segundo passo, sua cintura foi envolvida por uma mão grande e ela foi erguida, sendo sentada sobre a bancada da cozinha.
Gabriel apoiou as mãos de cada lado do corpo dela, cercando-a completamente. — Está descontente?
Alice baixou o olhar, teimosa: — Não.
— Olhe para mim. — Gabriel levantou o queixo dela. — É por causa da Clarice?
Alice desviou o rosto: — Claro que não! Não me importa se é Clarice, Denise ou quem for, ela não vale a minha raiva.
Aquela negação óbvia, misturada com o biquinho de irritação, era tão adorável que Gabriel não conteve uma risada baixa.
— Do que você está rindo? — ela perguntou, indignada.
— Bebê — Gabriel encostou a testa na dela, o hálito fresco misturando-se ao perfume doce dela —, você está com ciúmes?
Alice explodiu: — Eu não estou! Pare de falar bobagens!
Gabriel a abraçou, acariciando seus cabelos. — Tudo bem, você não está. Realmente não há nada entre nós. No jardim, ela tropeçou e eu apenas a segurei por educação.
— Você adora ser o herói das donzelas, não é? — ela ironizou, lembrando da foto dos dois na neve.
— Então eu não farei mais isso — prometeu ele.
Após Alice questionar sobre o porquê de estarem juntos e se ele já havia cozinhado para a outra, Gabriel explicou que foram jantares de grupo na faculdade e que Clarice já tinha um interesse amoroso por um pintor.
Alice sentiu um alívio, embora ainda estivesse intrigada com as intenções da mulher.
Gabriel teria que viajar para Brasília para um fórum econômico na manhã seguinte. Alice decidiu ficar no hospital cuidando do avô.
Gabriel, traumatizado por sempre estar longe quando algo acontecia com ela, pediu que ela ligasse imediatamente se houvesse qualquer problema.
Na manhã seguinte, Thales procurou Alice no hospital com uma expressão grave.
— Nini, a diretoria quer convocar uma assembleia extraordinária para eleger um Presidente Interino, alegando que seu avô demorará a acordar.
Alice ficou tensa. — Quem eles sugeriram? O segundo tio-avô?
— Sim. O Sr. Renato e outros diretores assinaram o pedido. Não podemos impedir o processo legalmente.
Alice sabia que o tio-avô era incompetente e ganancioso.
Thales, então, sugeriu o nome de Renato Guimarães, o tio de Alice que acabara de voltar do exterior.
Alice, confiando no laço de sangue, aceitou: — Tio Renato, eu te apoio.
Renato fingiu emoção e prometeu devolver o cargo assim que o pai acordasse.
Entretanto, ao chegar no estacionamento e garantir que estava sozinho, o semblante de Thales mudou.
— Eu fiz o que você pediu. Entregue-me o que prometeu — disse Thales para Renato.
Renato entregou um pendrive com um sorriso sarcástico. — O senhor ainda é um garanhão, Thales. Soube que a mulher ainda nem consegue levantar da cama.
Thales apertou o objeto, furioso. Renato o estava chantageando com um vídeo de uma traição ocorrida na noite anterior, quando Thales, embriagado, caiu em uma armadilha.
Renato ameaçava mostrar o vídeo à esposa de Thales, que tinha problemas cardíacos.
— Continue me obedecendo e sua esposa ficará bem — zombou Renato antes de partir, deixando Thales em lágrimas no escuro do estacionamento.
No dia seguinte, era o aniversário de Ji. Ela entregou um convite a Alice para uma festa no Hotel Aman.
Alice aceitou, prometendo passar apenas um tempo rápido. Gabriel chegaria de Brasília às 20h e iria direto para lá.
Na festa, Alice aceitou uma bebida trazida por Ji.
O que Ji não sabia era que Clarice indicara a bandeja de bebidas de propósito. Minutos após beber uma Margarita, Alice sentiu o mundo girar.
Ela desmaiou nos braços de Ji, que pediu ajuda a Clarice para levá-la a um quarto do hotel.
Assim que deitaram Alice na cama, Clarice fingiu lembrar de algo: — Ji, sua mãe está te procurando para apresentar um convidado importante. Vá lá, eu cuido da Alice. O Gabriel deve estar chegando e eu peço para ele subir.
Ji, sem desconfiar, saiu apressada: — Obrigada, prima!
Clarice ficou sozinha no quarto com Alice, e seu sorriso doce transformou-se em algo sombrio.