O som da água correndo ecoava no banheiro.
Alice Guimarães abriu os olhos, despertando do sono, e instintivamente levou a mão ao rosto para esfregá-los.
No segundo seguinte, ela recolheu a mão para debaixo das cobertas como se tivesse levado um choque elétrico, fechando os olhos com irritação.
Ontem à noite, era claramente ela quem estava armando uma "vingança" contra Gabriel, mas como acabou caindo na própria armadilha?
Ao lembrar-se do que foi convencida a fazer, ela não tinha coragem nem de olhar para as próprias mãos.
Homem cachorro astuto!
Fingindo-se de coitado com os olhos vermelhos, chamando-a de "bebê" repetidamente até deixá-la tonta, aproveitando-se de sua força de vontade enfraquecida para convencê-la a segurá-lo, e ainda tendo o descaramento de elogiar que as mãos dela eram tão macias, tão tenras, tão cheirosas...
Gabriel saiu do banheiro e inclinou-se para beijar os olhos dela. — Nini, estou indo trabalhar.
Os cílios de Alice tremeram e ela desferiu um tapa leve no rosto dele. — Cai fora.
Gabriel riu, beijou a palma da mão dela e a colocou de volta sob o cobertor.
Hoje a temperatura caiu para menos de 10 graus. Gabriel vestiu as roupas que Alice lhe comprara e saiu radiante.
Ao chegar à empresa, respondeu educadamente aos cumprimentos dos funcionários, colhendo olhares de admiração por onde passava.
A gola alta preta realçava seus ombros largos, e o relógio no pulso refletia um brilho elegante e discreto.
No grande auditório, a reunião de decisão orçamentária anual começou pontualmente. Executivos de todas as subsidiárias estavam presentes, preparados para serem "interrogados".
Justo quando todos esperavam que Gabriel fosse direto ao assunto, ele começou com algo totalmente irrelevante: — Alguém se importa se eu baixar um pouco a temperatura da sala?
Todos disseram que não.
— Este suéter é quente demais — completou ele.
O silêncio foi total. Gabriel continuou: — Minha esposa comprou para mim.
— Sua esposa é muito atenciosa! — alguém reagiu rápido.
Gabriel sorriu levemente e iniciou a pauta com um humor excelente, surpreendendo a todos ao ser extremamente flexível com os orçamentos naquele dia.
Após a reunião, Gabriel perguntou a Felipe: — Além de bolsas e joias, o que mais se pode dar como pedido de desculpas?
— Flores — respondeu Felipe. — Rosas amarelas significam "sinto muito".
Gabriel foi a uma floricultura após o expediente. Enquanto escolhia, ouviu uma atendente aconselhar um casal em briga: "Amar alguém gera desejo de posse e ciúmes, mas não é só isso. É não suportar ver o outro sofrer, colocar os sentimentos dele no mesmo nível ou acima dos seus... é uma resposta instintiva do corpo".
Gabriel ouviu em silêncio, sentindo uma tempestade em seu olhar calmo.
Ele comprou um enorme buquê de rosas amarelas e rosas, com um cartão onde escreveu uma piadinha sobre um patinho que não conseguia se alinhar na fila e ficava resmungando: "Não consigo me alinhar,
quack
(sinto muito)".
Ao chegar em casa, Alice leu o cartão e caiu na gargalhada. A ideia de Gabriel escrevendo algo tão fofo era hilária.
— Como pensou nisso? — perguntou ela.
— Era um exemplo na floricultura — admitiu ele. — Achei que gostaria. Você gosta de patos.
Alice sentiu uma onda de felicidade. — Sim, eu amei.
— Nini — Gabriel beijou a testa de Alice —, hora de levantar.
Alice resmungou de olhos fechados: — Estou com sono...
Desde o início do inverno, ela sentia que nunca dormia o suficiente. Gabriel a pegou no colo e, ao ajudá-la a se vestir, não resistiu em acariciá-la. Alice despertou instantaneamente e o empurrou: — Pervertido!
Ela tinha uma apresentação na faculdade hoje. Gabriel a deixou no campus da USP e prometeu buscá-la para jantar em um novo restaurante italiano.
Alice corria para o prédio de artes quando trombou com alguém na escada. Duas mãos a seguraram, uma no braço e outra na cintura. Era Xue.
— Sinto muito, não te machuquei? — perguntou Alice.
Xue sorriu gentilmente: — Eu que peço desculpas. Você é estudante aqui? Que coincidência.
Alice sentiu um desconforto estranho, despediu-se rapidamente e foi para a aula. Sua apresentação sobre design de ternos masculinos (inspirada em Gabriel) foi bem recebida, embora o orientador tenha pedido para refinar o conceito.
Ao anoitecer, após devolver livros na biblioteca, ela encontrou Xue novamente.
Ele revelou ser professor convidado da Faculdade de Medicina e a convidou para jantar com sua prima Ji. Alice recusou educadamente, citando que já tinha compromisso com o marido.
Ao sair, Alice notou o olhar de Xue grudado em suas costas. Ela ligou para o Mordomo Jorge: — Jorge, peça aos seguranças para ficarem de olho em um homem chamado Xue. Ele está aparecendo demais, sinto que algo está errado.
No portão da escola, Gabriel a esperava. Antes que ela chegasse ao carro, uma amiga,肖清顏 (Catarina), a abordou animada.
— Catarina! Quanto tempo! — exclamou Alice.
Catarina olhou para Gabriel, impressionada: — Alice, quem é esse?
Alice hesitou. Se Catarina soubesse que ela era casada, a escola inteira saberia em minutos.
— É meu... irmão — mentiu ela, envergonhada.
Gabriel cumprimentou a moça educadamente, mas assim que entraram no carro, ele a encurralou: — Que tipo de irmão eu sou para você?
— Você não gosta quando eu te chamo de "irmão" nas nossas... ocasiões? — sussurrou ela.
O silêncio caiu sobre os dois, lembrando de cenas íntimas. Gabriel beijou a testa dela e a levou para jantar.
Eles não perceberam que, em uma janela próxima, um par de olhos os observava na penumbra.