Alice ficou estática.
— Eu sei o seu aniversário, 20 de maio — Gabriel repetiu a pergunta. — E você? Sabe o meu?
Diante daquela cobrança, Alice ficou sem palavras. Ela não sabia. Ele nunca mencionara e ela nunca pensara em perguntar. Foi um erro dela.
Prestes a se desculpar, ouviu Gabriel soltar uma risada curta e gélida que trazia um calafrio. Ele não olhou mais para ela e subiu as escadas.
Alice suspirou. Tentou chamar Dona Maria para perguntar a data, mas a governanta dormia profundamente.
Ela recolheu todos os presentes que Gabriel havia aberto por engano e os guardou em uma sacola antes de subir. No quarto, sob a luz fraca, Gabriel já estava deitado.
Pela primeira vez, ele estava de costas para ela.
No início do casamento, havia um vão enorme entre eles.
Com o tempo, ele passou a dormir cada vez mais perto, até passarem a dormir abraçados.
Não importava o lado, ele sempre a envolvia. Agora, aquela frieza física trazia uma pontada de amargura ao coração de Alice.
Com a queda da temperatura, os pés de Alice estavam congelados. Nas noites anteriores, ela os apoiava nas pernas de Gabriel e logo se aquecia.
Ela hesitou, mas moveu os pés levemente em direção a ele, sem encostar para não acordá-lo.
Antes de adormecer, prometeu a si mesma pedir desculpas pela manhã.
Enquanto ela dormia, o homem de costas moveu-se silenciosamente.
Ele recuou as pernas e cobriu os pés gelados dela com os seus, usando o calor do próprio corpo para aquecê-la, centímetro a centímetro.
Ao acordar, Alice estava sozinha. Na cozinha, Dona Maria curvou-se em um pedido de desculpas formal.
— Nini, sinto muito! Eu o induzi ao erro. Ele achou que eram presentes para ele e ficou tão feliz... Quando soube que não eram, ele ficou... bem, muito triste. Nem jantou.
A culpa inundou Alice. — Quando é o aniversário dele, Dona Maria?
— Dia 23 deste mês.
Alice anotou a data e também as dos sogros e da própria Maria.
Ela saiu para o trabalho levando os presentes de Lucas, avisando que jantaria fora. Assim que a porta fechou, Maria suspirou: "O que será do meu patrão?"
Enquanto isso, no jato particular rumo ao Rio de Janeiro, Gabriel encarava o relógio de Artur com desprezo.
— Tira isso, é horrível — ordenou Gabriel.
— O quê? É um Richard Mille novo! — Artur protestou. — Gabriel, o que deu em você? Está de mau humor?
Gabriel fechou os olhos. Felipe, o assistente, cochichou com Artur: — O chefe ainda não conseguiu fazer as pazes com a patroa. Cuidado para não virar o alvo da vez.
Após o expediente, Alice jantou com Lucas. Ele abriu os presentes e ficou radiante.
— Nada supera o seu gosto, Nini! O relógio é perfeito! — comemorou ele. Lucas mencionou que seu irmão, Marcos, enviara um presente dos Estados Unidos, incluindo as balas de limão favoritas de Alice.
Ao ouvir o nome de Marcos, o coração de Alice pesou.
Antigamente, ela comia aquelas balas por causa dele — na alegria, na tristeza ou na saudade. Mas percebeu que, ultimamente, quase não pensava mais nele. O que mudara não era apenas o clima, mas o seu coração.
Para espantar os pensamentos, ela acompanhou Lucas ao shopping. Ele queria comprar roupas de inverno para ela. Enquanto ele escolhia peças femininas, Alice parou na seção masculina. Viu um cachecol de cashmere cinza escuro e sorriu imaginando Gabriel usando-o.
— Vai comprar para mim? — perguntou Lucas.
— Não é para você. É para o Gabriel, o aniversário dele está chegando.
Lucas resmungou: — Comigo você está murcha, mas é só falar dele que ganha vida, hein?
Alice ignorou a provocação e fez uma limpa nas lojas de luxo: um relógio Patek Philippe, um sobretudo de cashmere preto da Hermès, sapatos Derby da Louboutin e abotoaduras de esmalte da Cartier.
— Nini, você vai levar o shopping inteiro? — reclamou Lucas, carregando dezenas de sacolas.
Ao caminharem para o carro, Alice parou e olhou para trás.
— O que foi? Esqueceu algo? — perguntou Lucas.
— Não... — sussurrou ela. — Sinto como se estivéssemos sendo seguidos.
Lucas ficou alerta e a levou rapidamente para a Mansão Aurora. Ele a aconselhou a não andar sozinha e a reforçar a segurança. Alice concordou, embora achasse que pudesse ser apenas impressão.
Nos dois dias seguintes, ela foi cautelosa, sempre acompanhada pelo motorista. No final da tarde, ao sair da empresa com Bia, as duas conversavam animadamente.
— Seus sapatos são lindos! — elogiou Bia.
— Obrigada, eu também adoro — sorriu Alice.
Ao chegarem ao elevador, as portas se abriram. Uma mulher de cabelos desgrenhados saiu e, ao reconhecer Alice, sacou uma faca que escondia na manga e avançou com fúria.
— Alice Guimarães! Morra!