Diz o ditado que cada chuva de outono traz uma nova onda de frio.
Basta uma única tempestade para que a temperatura em São Paulo caia drasticamente.
Ao descer do carro, Alice Guimarães encolheu os ombros, atingida pelo vento gelado.
— Eu te disse para vestir algo mais pesado hoje cedo, mas você não ouviu. — Gabriel Cavalcante abriu o próprio paletó e a envolveu completamente.
O casaco dele era largo, cobrindo-a com folga.
Alice piscou os olhos e aproveitou para se aninhar no peito dele enquanto caminhavam para o elevador.
Ao entrar em casa, ela deslizou para fora do casaco e lançou um sorriso radiante: — Valeu!
Gabriel não conteve o sorriso de volta.
Dona Maria, que trazia os pratos da cozinha, não pôde deixar de se emocionar ao presenciar a cena.
Desde o casamento, o sorriso no rosto de seu patrão estava cada vez mais frequente!
Após jantarem ao som da chuva constante, os dois subiram.
Alice trabalhou em alguns esboços de design e depois foi se lavar.
Ao sair, notou no calendário digital que já era dia 3 de novembro.
Depois de amanhã seria o aniversário de Lucas.
Recostada na chaise longue, ela pegou o tablet e começou a navegar por um site de moda masculina. Lucas adorava se vestir bem, mas seu gosto era, no mínimo, questionável.
Como ele confiava cegamente na estética de Alice, todos os anos ela o presenteava com roupas ou acessórios de luxo.
Ela estava tão concentrada que não percebeu quando Gabriel saiu do banheiro.
De longe, ao vê-la navegando em uma página de relógios masculinos, Gabriel sentiu uma pontada de expectativa e alegria secreta.
— Já está tarde, vamos dormir? Pode ver isso amanhã — sugeriu ele, limpando a garganta.
— Já estou terminando! — Alice finalizou o pagamento e subiu na cama. Gabriel logo a puxou para seus braços.
— Já terminou? — perguntou ele.
Alice demorou a entender, mas ao ver o brilho de desejo no olhar dele, percebeu ao que ele se referia. Ela o encarou com reprovação: — Hoje é apenas o terceiro dia!
— Ah... — Gabriel suspirou. — Quantos dias faltam?
— Sete! — Na verdade, terminaria em cinco, mas ela aumentou o prazo de propósito. O Gabriel na cama era uma pessoa totalmente diferente do Gabriel fora dela, e ela precisava ganhar tempo.
Gabriel sentiu o calor do próprio corpo reagir à proximidade.
Alice notou o volume contra sua cintura e tentou se afastar: — Talvez seja melhor você me soltar... ou dormir no outro quarto?
Ir para o quarto ao lado?
Impossível.
Soltá-la?
Jamais.
Mesmo que o corpo sofresse, ele não abriria mão de tê-la ali. Beijou a testa dela e murmurou: — Durma agora.
Na manhã seguinte, a chuva continuava.
Gabriel quis deixá-la na porta da empresa, mas Alice recusou para manter o disfarce.
Ela encontrou Bia caminhando sob a chuva sem guarda-chuva e correu para abrigá-la.
Ao chegarem ao escritório, Bia parecia estranha e chegou a sussurrar um "sinto muito" antes de se corrigir com um "obrigada". Alice não deu importância, considerando-a uma boa amiga.
Enquanto a chuva caía lá fora, o coração de Bia parecia enfrentar sua própria tempestade.
Gabriel estava de excelente humor no banco traseiro do Bentley.
Dona Maria lhe enviara uma mensagem avisando que Alice encomendara várias roupas e acessórios masculinos, que já haviam sido entregues.
Ele olhou para a foto da mesa repleta de caixas da Richard Mille e outras marcas de grife.
Com razão ela ficou até tarde ontem
, pensou com um sorriso.
Ao chegar, ele sentou-se no sofá para abrir os presentes.
Dona Maria, entusiasmada, incentivou-o.
O primeiro era um relógio Richard Mille "Red Demon".
Embora o estilo fosse mais ousado do que seu habitual estilo executivo, ele achou que combinaria com um visual casual no fim de semana. Mas ao abrir os outros pacotes, notou algo errado.
Os sapatos eram tamanho 42; ele calçava 44. O sobretudo era tamanho 52; ele usava 56.
A dúvida persistia até que ele encontrou o cartão de aniversário no fundo de uma caixa. O texto em dourado dizia:
"Desejando ao Sr. Zhou um ano repleto de alegria..."
Sr. Zhou.
O sorriso de Gabriel desapareceu instantaneamente. Suas mãos apertaram o cartão até que o papel ficasse completamente amassado e deformado.
O olhar dele tornou-se tão sombrio quanto a chuva noturna. Dona Maria emudeceu de pavor. Ela percebeu o erro terrível de ter assumido que eram para ele.
Gabriel jogou o cartão de volta na caixa e subiu sem dizer uma palavra. "Droga, o patrão ficou furioso!", pensou Maria.
Alice chegou por volta das onze da noite e encontrou Gabriel saindo da academia particular, suado e com semblante frio.
— Malhando a essa hora? Vai acabar perdendo o sono — comentou ela, sorrindo.
Gabriel serviu-se de água gelada e, após um silêncio tenso, disse: — Sinto muito. Achei que os presentes na sala eram para mim e acabei abrindo. Amanhã mando comprarem tudo igual para te recompensar.
— Ah, só isso? — Alice suspirou aliviada. — Não tem problema, eu ia abrir as embalagens de qualquer forma. São presentes para o aniversário do Lucas amanhã.
Aniversário do Lucas.
Gabriel assentiu levemente e, de repente, fez uma pergunta carregada de significado:
— E você, sabe em que dia é o meu aniversário?