Antigamente, a vida de Gabriel era monótona e regrada, preenchida apenas por trabalho e esportes.
Mas agora, aquele vazio em seu peito fora preenchido. Ele abraçou Alice com uma força capaz de fundi-la ao seu próprio corpo.
— Eu ouvi, Nini — ele sussurrou, usando o apelido dela pela primeira vez em particular. — De agora em diante, nunca mais te deixarei sozinha.
Alice se aninhou em seu ombro, mas logo sentiu a respiração dele ficar pesada e quente.
Ela recuou imediatamente, enrolando-se no cobertor com um olhar de alerta.
— Eu estou te avisando, não estou me sentindo bem. Nem pense nisso! — Suas pernas ainda ardiam de dor.
Gabriel aproximou-se com um tom gentil: — Deixe-me ver. Deve ter esfolado... quer que eu passe um remédio?
Alice o expulsou do quarto para se lavar.
No espelho, viu seu corpo coberto de marcas. "Homem cachorro...", resmungou ela.
Ao descer as escadas, a dor a fazia mancar, e ela exigiu que Gabriel a carregasse até a mesa. Ela passou o dia ignorando-o, enquanto ele, sem saber o que fazer, recorreu a um fórum na internet:
Post de Gabriel: "Minha esposa parou de falar comigo após nossa primeira noite. O que pode ser?"
Comentário 1: "Técnica ruim." (Gabriel deletou imediatamente)
Comentário 3: "Faltou o 'after care' (cuidados pós-relação)."
Gabriel descobriu um mundo novo e até recompensou financeiramente os comentaristas úteis.
À noite, ele jogou o patinho de pelúcia de Alice no chão para que ela, dormindo, se aninhasse em seus braços.
Funcionou.
Ele dormiu com um sorriso vitorioso.
No dia seguinte, Alice marcou de encontrar Pequena Ci. Gabriel, querendo redimir-se, insistiu em levá-la.
— Nini, não fica bem chegarmos separados na casa dos meus pais depois. Eles podem pensar bobagem — argumentou ele com uma seriedade fingida.
Alice aceitou a "orientação" dele sobre etiqueta social, sem notar a malícia por trás da insistência.
No encontro, Pequena Ci mostrou o vídeo da coleção "Ode ao Outono". Ficou perfeito. Alice contou que o Grupo Guimarães já estava enviando as doações para as meninas das montanhas, consolidando a parceria. Durante a conversa, Pequena Ci notou as marcas no pescoço de Alice e brincou:
— Pelo visto, o banquete de ontem foi bom, hein?
As duas riram e Pequena Ci abriu o coração. Ela contou que era órfã, criada pela família de Artur, e que amava o irmão mais velho dele, Lucas. No entanto, Lucas a desprezava e levara outra mulher ao aniversário do avô. Alice tentou consolá-la, mas acabou revelando demais sobre seu próprio casamento:
— Gabriel e eu somos apenas parceiros. Ele não me ama, me escolheu apenas porque eu não buscava sentimentos. E eu também não o amo.
Nesse momento, Gabriel apareceu atrás delas. Alice estancou.
Ele ouviu?
Mas pensou que, mesmo se ouvisse, era apenas a verdade que haviam acordado. Gabriel a cobriu com seu paletó e a levou para o carro.
Pequena Ci observou-os partir. Como colega de escola de Gabriel por anos, ela via o brilho diferente nos olhos dele. "Quem vê de fora, vê melhor", pensou ela, amargurada com seu próprio café frio.
No carro, Alice percebeu o silêncio pesado de Gabriel.
— Você ficou chateado porque eu disse que não temos sentimentos um pelo outro? — perguntou ela, temendo ter ferido a "etiqueta" das famílias influentes.
Gabriel continuou olhando para a estrada, com o perfil endurecido e os lábios cerrados em uma linha fria.