— Se eu soubesse que a pessoa que a Ci ia encontrar era a patroinha, eu não teria me dado ao trabalho de vir atrás — resmungou Artur, fazendo bico. — E ainda por cima risquei a pintura do meu carro novo que acabou de chegar.
Gabriel lançou-lhe um olhar de soslaio:
— Ficou viciado em amor platônico? Que falta de brio!
Artur não se deu por vencido e rebateu:
— E você? Tem o título oficial, mas não estava aqui agindo como eu, rastreando ela escondido?
— ...Não dá para explicar certas coisas para quem não tem esposa — disse Gabriel, saindo em seguida.
Artur ficou possesso, mas logo correu para alcançá-lo, passando o braço pelo pescoço do amigo:
— Onde você vai? Já que estamos aqui, vamos beber uma juntos.
Gabriel tentou se desvencilhar, recusando o convite, mas acabou sendo arrastado para o restaurante ao lado.
Enquanto os dois amigos trocavam farpas, as duas mulheres lá dentro pareciam irmãs de longa data que acabavam de se reencontrar.
Sobre a divulgação da coleção "Ode ao Outono", Alice mal começou a explicar quando Pequena Ci aceitou sem hesitar.
Alice riu:
— Ci, você não quer ouvir os detalhes das condições da parceria primeiro?
Pequena Ci acenou com a mão:
— Eu conheço a Zishang Fashion, a qualidade das roupas sempre foi excelente. Se vocês vão doar agasalhos para as meninas das montanhas carentes, eu aceito de olhos fechados.
Alice também gostou muito de Pequena Ci; ela transmitia uma calma que lembrava a névoa matinal. As duas conversaram tão bem que Alice só percebeu que já eram dez da noite quando Gabriel ligou.
— Ainda não terminei, pode ir na frente — disse ela antes de desligar.
Pequena Ci brincou:
— O namorado está cobrando presença?
— Na verdade, é o meu... marido — confessou Alice, sem esconder.
— O quê? — Pequena Ci arregalou os olhos. — Você só tem 20 anos e já se casou?!
— É... foi um casamento relâmpago. Casamos no segundo dia após nos conhecermos.
— Foi amor à primeira vista?
— Não, foi um arranjo das nossas famílias.
Pequena Ci entendeu na hora. Para herdeiras de famílias ricas, casamentos por conveniência não eram raros. De repente, ela ficou curiosa:
— E como é a vida de casada? Não é estranho morar com alguém que você mal conhece?
— No começo era muito estranho, mas ultimamente melhorou bastante.
— E vocês... — Pequena Ci aproximou-se e baixou o tom — já fizeram "aquilo"?
Alice entendeu imediatamente e corou:
— Já nos beijamos, mas ainda não chegamos ao passo final.
— E você gosta dele? — insistiu a amiga.
Alice apertou as pontas dos dedos e respondeu de forma vaga:
— Ele é bom em tudo. É bonito, tem uma personalidade madura, e embora pareça frio por fora, é muito gentil por dentro. Só não fala muito, às vezes eu falo um parágrafo e ele responde apenas "hum". Ah, e ele cozinha muito bem!
Pequena Ci observou o brilho nos olhos de Alice e sorriu em silêncio. No restaurante ao lado, Gabriel olhou impaciente para o relógio e ordenou a Artur que desse um jeito de levar Pequena Ci para casa, pois já passava das onze.
Ao entrar no carro com Gabriel, Alice sentiu o cheiro:
— Você bebeu?
— Sim, bebi um pouco com o Artur, um amigo de infância.
Ao ouvir sobre "amigo de infância", Alice lembrou-se de Lucas. Ela notou que ele não ligava há uma semana, o que era estranho. Ao checar o histórico, viu uma chamada atendida há cinco dias, mas ela não se lembrava de ter falado com ele. Ao ligar para Lucas e descobrir que Gabriel havia atendido e não lhe avisado, ela olhou para o marido com um olhar enigmático.
Gabriel, desconfortável, desviou o olhar para a janela:
— A lua está bem redonda hoje, não acha?
Alice caiu na gargalhada. Como ele podia ser tão fofo?
No dia seguinte, a caminho do trabalho, Alice convidou Gabriel para ir ao hipódromo de Jiahe à noite, para apresentá-lo formalmente a Lucas. Gabriel aceitou prontamente, e o clima pesado de ciúmes pareceu dissipar-se.
Na empresa, Alice contou a Beatriz sobre a parceria com Pequena Ci. Beatriz ficou radiante, mas o clima estragou quando encontraram Isabela no banheiro. Isabela vangloriou-se de que seu pai acabara de ser promovido a Diretor de Marketing do grupo e humilhou Beatriz por sua origem humilde.
Alice não ficou calada e defendeu a mentora:
— Se eu fosse você, teria vergonha em vez de orgulho. A Bia chegou onde está por esforço próprio, enquanto você, mesmo apoiada nos ombros do seu pai, está no mesmo nível que ela. Isso só prova que você é inferior.
Isabela explodiu de raiva, mas Alice e Beatriz saíram antes que ela pudesse reagir. Beatriz agradeceu, mas alertou Alice sobre o perigo de enfrentar alguém com tantas conexões.
À noite, ao encontrar Gabriel para irem ao hipódromo, ele notou que ela parecia irritada.
— Briguei com uma colega — explicou ela.
— Você ganhou a briga? — perguntou Gabriel.
Alice estranhou:
— Você não vai perguntar por que brigamos?
— Se você brigou, deve ter seus motivos. Só me importa que não tenha sido intimidada.
— Eu nunca deixo ninguém me intimidar! — Alice ergueu o queixo. — Eu sempre brigo para ganhar.
Gabriel comentou com segundas intenções:
— Meu medo é você se emocionar e começar a chorar no meio da briga, perdendo a postura.
Alice lembrou-se de quando ele a fez chorar logo após o casamento.
— Você ainda tem coragem de mencionar isso?! A culpa não foi sua?
Irritada, ela saiu do carro assim que chegaram ao hipódromo, deixando Gabriel para estacionar sozinho. Alice subiu para o camarote de Lucas, que a recebeu com um abraço caloroso.
— Onde está o seu marido? — perguntou Lucas.
Alice percebeu que esqueceu de avisar a Lucas que Gabriel viria junto, e pior, esqueceu o celular dentro do carro de Gabriel. Ela saiu para a arquibancada central na esperança de que ele a visse, mas deparou-se com uma voz feminina aguda e desagradável atrás dela:
— Como uma pessoa como você conseguiu entrar aqui?