"Isso é impossível!", exclamou Artur, arregalando os olhos ao notar a expressão sombria de Gabriel. "Não me diga que..."
Gabriel permaneceu em silêncio. Artur virou-se para o outro amigo: "Thales, como você percebeu?"
"Eu não sou como vocês", Thales sorriu enigmaticamente. "Eu desfruto de banquetes todos os dias."
Artur resmungou e voltou a observar Gabriel. "Não admira que você esteja com essa cara de quem teve o túmulo dos antepassados violado. Mas escute, casar com uma mulher só para deixá-la em um altar não faz sentido."
"Eu não fiz isso", retrucou Gabriel.
"Então é o quê?", Artur teve um estalo. "A Lili ainda tem o tal amigo de infância no coração e nem te nota, não é?"
O olhar de Gabriel tornou-se mortal. Thales interveio calmamente: "Artur, cuidado com a língua se não quiser levar um soco."
Artur recuou um pouco. "Estou falando sério! O Gabriel está sendo hipócrita. Antes do casamento, insistiu naquele acordo ridículo de 'não se apaixonar', e agora, em poucos dias, já caiu nos encantos dela e não quer admitir."
"Eu já disse", Gabriel pausou em cada palavra, "eu... não... me... apaixonei."
"Então por que todo esse comportamento anormal?", rebateu Artur. Em vinte anos, ele nunca vira Gabriel assim. O amigo sempre fora uma máquina racional e contida.
Gabriel não respondeu. Ele sabia a resposta, mas admitir que seus sentimentos eram controlados por outra pessoa parecia perigoso.
Ele virou mais um copo. Thales colocou a mão em seu ombro: "Gabriel, aceite um conselho: se você quer algo, tome, conquiste, tome posse. Você não é como o Artur, que só pode amar em segredo. Você tem o direito legal. Primeiro garanta o que é seu, depois você pensa."
Gabriel ficou pensativo.
Enquanto isso, Thales e Artur tramaram um pequeno plano para "testar" os limites de Gabriel.
No Miim Clube, Artur levou uma mulher deslumbrante ao quarto de Gabriel, mas foi expulso sob um olhar furioso.
Sozinho, Gabriel não conseguia parar de pensar no rosto radiante de Alice. Na correria do Rio de Janeiro, a imagem dela sorrindo entre as flores surgia em sua mente a todo momento.
Ele abriu o WhatsApp.
A última mensagem era a transferência de dinheiro dela. Ele não a procurou em duas semanas, e ela também não enviou uma palavra.
Ele checou o status de Dona Maria: "A Lili está bem, mas como o senhor não está, ela voltou para a casa do avô."
Gabriel decidiu: "Volto amanhã à tarde."
No sábado, Alice soube por Maria que ele voltaria. Augusto insistiu que ela voltasse para casa.
Ela se sentia estranha; sem Gabriel, a Mansão Aurora parecia vazia, mas com ele lá, ela não sabia como agir.
No café, ela espirrou. "Parece que o Gabriel está com saudades", brincou o avô.
No caminho de volta, Alice sentiu o corpo pesado e a garganta inflamada. Estava gripada.
Ao chegar, subiu para o quarto de hóspedes e adormeceu.
Gabriel chegou, guardou os sapatos dela que estavam jogados na entrada e a procurou pela casa toda.
Encontrou-a no quarto ao lado.
Gabriel queria acordá-la e exigir explicações sobre por que estava dormindo ali, mas ao vê-la encolhida, hesitou.
Um gemido fraco de dor o fez parar. Ele correu para o lado da cama e sentiu a testa dela: estava fervendo.
Alice abriu os olhos, confusa. "Você voltou...", sorriu com dificuldade.
"Onde dói?", ele perguntou, preocupado.
"Cabeça, garganta... não chegue perto, não quero te passar gripe."
Gabriel saiu do quarto imediatamente.
Alice sentiu um aperto no peito.
Ele realmente foi embora sem dizer nada?
O desânimo a dominou, mas logo ouviu passos voltando. Gabriel a levantou com cuidado.
Ele segurava um termômetro e sua voz estava incomumente suave: "Vamos medir sua temperatura."
39 graus.
"Vou te levar ao hospital", decidiu ele.
"Não! Por favor!", ela implorou com olhos úmidos.
O trauma da morte de seus pais tornava hospitais um lugar insuportável para ela. Gabriel entendeu e chamou o médico da família.
Alice precisou tomar soro. A visão da agulha a fez recuar, mas Gabriel cobriu seus olhos com a mão: "Não tenha medo."
Ele dispensou a enfermeira e ficou ele mesmo cuidando dela até a noite. Quando Alice acordou, ele trouxe uma bandeja com comida.
"Preciso ir ao banheiro...", sussurrou ela, tentando se levantar. As pernas falharam, mas Gabriel a segurou.
"Obrigada," ela disse com a voz rouca.
"Se não está bem, não gaste fôlego com bobagens."
Ele a pegou no colo e a levou ao banheiro. Alice ficou vermelha de vergonha, pedindo para ele sair.
Quando voltou para a cama, ela mal conseguiu comer a sopa. Dormiu novamente e, ao amanhecer, viu Gabriel dormindo sentado ao seu lado, com feições cansadas.
Pela primeira vez, ela o observou com calma. O coração dela parecia flutuar em águas mornas.
Ao meio-dia, ele trouxe um lanche especial: pequenas trouxinhas de camarão, sopa de pato com broto de bambu e vegetais frescos. "Como sabia que eu gosto disso quando estou doente?", perguntou ela.
"Perguntei ao Jorge. Eu mesmo preparei."
Alice ficou chocada. "Você cozinha?"
"Aprendi quando estudava no MIT."
Alice sorriu. Após a refeição, ela tentou pegar o celular para espantar o tédio, mas Gabriel o confiscou. "O médico disse para você descansar."
"Mas estou entediada...", ela começou a fazer manha. Gabriel segurou a mão dela e a colocou de volta sob o cobertor, sem tirar os olhos do trabalho no notebook.
"Seja obediente e durma."
"Não consigo dormir sem nada... a menos que você cante para mim."
Ela achou que ele recusaria e devolveria o celular. Mas Gabriel fez silêncio por dois segundos e perguntou:
"O que você quer ouvir?"