Desta vez, a força de Gabriel diminuiu. Não era mais um ato de conquista, mas um conforto paciente.
Ele envolveu os lábios de Alice com suavidade, sugando-os lentamente e contornando-os com a língua, como se quisesse memorizar cada detalhe, antes de invadir sua boca de forma gentil, porém irresistível.
A mente de Alice ficou em branco. Suas mãos agarravam a camisa dele em busca de apoio, deixando-se levar.
Essa submissão apenas alimentou o fogo reprimido no peito do homem. O beijo logo voltou a ser voraz e urgente.
Alice não conseguia acompanhar tamanha intensidade. Com a respiração curta, ela tentou empurrá-lo com as palmas das mãos, mas Gabriel as prendeu acima de sua cabeça, pressionando-as contra a porta do closet.
Ela virou o rosto com dificuldade, murmurando entre suspiros: "Eu... não consigo respirar..."
Gabriel baixou o olhar para ela. Foi um olhar tão profundo que parecia capaz de engoli-la. Ele finalmente soltou os lábios dela, mas não se afastou; em vez disso, beijou sua bochecha macia, o lóbulo da orelha que ardia em vermelho e a lateral de seu pescoço, que tremia sob o toque.
Ela estava presa no espaço ínfimo entre o corpo dele e a porta. No espelho do closet, as silhuetas se fundiam: uma alta e rígida, a outra esguia e delicada. O contraste entre o preto e o branco, entre o descontrole e o delírio, não tinha fronteiras.
Quando Alice inclinou o pescoço e deixou escapar um gemido quase inaudível, a mão de Gabriel em sua cintura apertou com força. Ele voltou a beijá-la enquanto a conduzia para trás. Com passos desequilibrados, ela foi sendo levada, passo a passo, até a borda da cama, sem que os lábios se separassem por um segundo.
Ao cair no colchão macio, o corpo do homem cobriu o dela. A temperatura dele era febril, a respiração perigosa. Beijos densos desceram de sua testa até a clavícula. Ondas de um desejo desconhecido percorriam o corpo de Alice, que se sentia desfalecer. Ela fechou os olhos com força, os cílios úmidos tremendo, e uma lágrima solitária escorreu pelo canto do olho.
Gabriel levantou a cabeça. O desejo em seus olhos era avassalador, mas ao ver aquela lágrima, ele recuou instantaneamente. Ele se manteve sobre ela, com as veias do pescoço saltadas.
Ela estava chorando. Estava tremendo. Ela estava... resistindo.
Essa percepção atingiu o coração de Gabriel como uma flecha. Ele soltou um suspiro amargo e rolou para o lado, criando distância. Sentindo o colchão subir, Alice abriu os olhos, confusa. Por que ele parou?
Antes que pudesse processar o que aconteceu, o celular no criado-mudo tocou. O visor mostrava:
Lucas
. Alice pegou o aparelho, olhando de relance para Gabriel, que estava deitado com o braço sobre a testa, escondendo o olhar. O toque parou e, segundos depois, começou a tocar novamente, insistente.
"É o meu amigo, pode ser algo urgente. Desculpe, preciso atender," explicou ela em voz baixa. Ela saiu do quarto e atendeu irritada: "O que foi agora?!"
"Lili, me salva!", gritou Lucas do outro lado.
"O que aconteceu?"
"Estou no hospital, vem logo," disse ele com uma voz fraca e dolorida.
Alice voltou ao quarto após desligar. O ar ainda estava carregado de eletricidade. Sem coragem de olhar para Gabriel, ela disse: "Meu amigo sofreu um acidente e está no hospital. Preciso ir."
Gabriel estava sentado no sofá, segurando um cigarro apagado. O som metálico do isqueiro que ele manuseava era o único barulho no quarto.
"Você tem que ir?", ele perguntou após um longo silêncio.
"Tenho." Alice foi para o closet trocar de roupa.
Quando saiu, Gabriel estava na porta, bloqueando o caminho. "Eu vou com você."
"Não precisa," ela recusou prontamente. "Eu vou sozinha, o hospital é perto."
"É tarde, é perigoso."
"Realmente não precisa," insistiu ela.
"Dê-me um motivo," ele exigiu, encarando-a com olhos sombrios.
Alice hesitou, torcendo os dedos. "...Não seria conveniente."
Gabriel cerrou os lábios e não insistiu mais.
"Eu te mando mensagem quando chegar, não se preocupe," disse ela, saindo quase correndo. Gabriel foi até o terraço e observou a Mercedes rosa dela desaparecer na noite. Ele acendeu o cigarro. Meia hora depois, recebeu duas mensagens:
【Alice】: Cheguei.
【Alice】: Pode dormir, boa noite.
No Hospital Anchieta, Alice encarava Lucas, que estava deitado de bruços na cama da ala de proctologia. "O que eu faço com você? Inventou de se divertir e acabou no hospital!"
"Eu não queria isso, o clima estava quente e eu não pensei direito...", resmungou ele contra o travesseiro.
Alice ficou em silêncio. Ela entendia bem a sensação de "clima quente" de pouco tempo atrás.
"Só contei isso para você," disse Lucas.
"Deveria agradecer pela honra?", ironizou ela. De repente, Lucas se virou e arregalou os olhos. "Lili! Com que homem você estava? Olha esse seu pescoço!"
Alice ajeitou o cabelo para cobrir as marcas. "Não é 'que homem', é meu marido legítimo, ok?"
"Mas você disse que não o amava e que casou por obrigação! Já está defendendo ele?", provocou Lucas.
"Não estou defendendo nada...", ela rebateu, corando.
Lucas começou a fazer perguntas indiscretas sobre o desempenho de Gabriel, mas Alice o mandou calar a boca. Logo, a enfermeira chegou para levá-lo à cirurgia. Alice assinou os papéis de responsabilidade.
"Lili, obrigado," disse Lucas, subitamente sério.
"Não comece. Eu me casei, Lucas, não posso mais vir correndo toda vez que você me liga," ela avisou.
As famílias Guimarães e Cavalcante eram amigas de longa data. Alice e Lucas cresceram juntos. Quando os pais dela morreram, ela se trancou no quarto por dias. Foi Lucas quem escalou a janela para entrar e chorar com ela até que ela voltasse a sorrir. Por essa "invasão" que a salvou da escuridão, ela sempre cuidaria dele.
A cirurgia foi um sucesso. Alice cuidou dele até o amanhecer, quando Lucas insistiu que ela fosse para casa. Ao chegar na Mansão Aurora, a casa estava vazia.
"A Lili chegou?", chamou Dona Maria da cozinha.
"Sim. O Gabriel já saiu?"
"Ele não te avisou? Foi para o Rio de Janeiro em uma viagem de negócios de última hora."
Alice travou por um segundo. "Ah... entendi. Por quantos dias?"
"Ele não disse."
Pela primeira vez, Alice jantou sozinha. Era estranho; parecia que faltava algo. À noite, na cama, ela rolava de um lado para o outro. Estavam casados há apenas uma semana, mas ela já havia se habituado à presença dele. Sem ele, o sono não vinha.
Nas duas semanas seguintes, ela mergulhou nos estudos e finalizou sua tese de finanças. Decidiu que, após o feriado, começaria o estágio na empresa de moda do avô. Tudo seguia seu curso em São Paulo.
Enquanto isso, no Rio, Gabriel estava exausto e mal-humorado, pressionando todos ao seu redor para fechar um negócio bilionário em tempo recorde. No Miim Clube carioca, Artur brincou: "Gabriel, você virou um carrasco! O que foi? Está com pressa de voltar para casa para aproveitar a lua de mel?"
Gabriel não respondeu, apenas virou seu copo de uísque.
"Artur, você tem certeza?", provocou outro amigo, ajustando os óculos. "Pela cara dele, parece que ele nem sequer conseguiu começar a lua de mel—"