Alice ficou na biblioteca até o fechamento e só retornou à Mansão Aurora por volta da meia-noite. Ela subiu as escadas na ponta dos pés e abriu a porta do quarto principal com cautela.
Apenas uma luminária de chão estava acesa, emitindo uma luz suave. Gabriel dormia, e o brilho âmbar suavizava a frieza de suas feições. Aliviada, Alice pegou suas roupas no closet e foi se trocar no banheiro do quarto de hóspedes. Ao voltar, apagou a luz, levantou a ponta do edredom com as pontas dos dedos e deitou-se lentamente.
Quando comemorava mentalmente por não tê-lo acordado, a voz levemente rouca de Gabriel ecoou na escuridão: "Chegou?"
"...Sim," Alice sussurrou. "Te acordei? Desculpe."
"Tudo bem." Ele se virou, parecendo encará-la. Alice notou que Gabriel era o exemplo perfeito de cavalheirismo em certos aspectos: sempre olhava nos olhos ao falar. Então, ela também se virou. Ambos se olharam no escuro, as respirações se cruzando a poucos centímetros.
"Amanhã, às 9h, eu te acompanho para ver seu avô. Não posso ficar muito tempo, tenho uma assinatura de contrato às 15h."
"Combinado, meio dia é suficiente," Alice respondeu animada.
"Certo. Durma agora."
"Boa noite." A voz dela era cristalina, fazendo jus ao seu nome — como o som de um riacho sereno, tocando suavemente os sentidos de Gabriel.
"Boa noite," ele respondeu. Alice sorriu, afundou-se no edredom e adormeceu.
Às sete da manhã seguinte, Gabriel acordou sentindo um calor intenso. Como no dia anterior, tinha o corpo invadido: uma mão no peito e uma perna entrelaçada em sua cintura. Sob o cobertor, a pele se tocava. Sem precisar olhar, Gabriel sabia exatamente a cena que aquilo formava. O pensamento fez seu corpo reagir instantaneamente.
Ele massageou as têmporas, moveu com cuidado os membros de Alice e fugiu para o banheiro. Sob o chuveiro, a água gelada caía. Ele olhou para baixo, soltou um estalo de língua impaciente e ajustou a temperatura para o mínimo possível.
Quando Alice desceu, Gabriel lia uma revista de finanças no sofá, impecável em seu terno. A luz da manhã realçava seu perfil aristocrático enquanto ele segurava uma xícara de porcelana.
"Lili, acordou! Venha tomar café," chamou Dona Maria.
"Bom dia, Dona Maria. Bom dia, Gabriel," disse Alice com um sorriso.
"Bom dia," respondeu ele, no tom neutro de sempre. "Temos 15 minutos."
Alice sentou-se rapidamente e começou a comer. Do ângulo de Gabriel, as bochechas dela, rosadas e cheias, moviam-se como as de um... hamster? Não, hamster não era elegante o suficiente. Um baiacu? Não era fofo o bastante. Sem encontrar a metáfora ideal, ele percebeu que a encarava há tempo demais e desviou o olhar, sentindo uma vontade súbita de apertar aquelas bochechas. Ele balançou a cabeça e virou a página da revista.
Alice terminou a tempo. "Pronta, vamos?"
Na saída, Dona Maria avisou que os presentes para a visita oficial já estavam no porta-malas. Gabriel assumiu o volante e Alice sentou-se ao lado dele.
O carro estava silencioso demais, o que incomodava Alice, uma típica extrovertida. "Vou te contar sobre a minha família," começou ela.
"Diga."
"Minha família é simples. Meu avô você conhece. Minha avó faleceu quando eu era pequena. Meus pais..." ela baixou o tom, "faleceram há oito anos em um acidente de carro."
Gabriel franziu levemente o cenho.
"Meu pai tinha um irmão; meus tios moram na Inglaterra com meu primo e não voltam faz tempo. O resto são parentes distantes."
Gabriel assentiu. "Entendi."
Só isso?
, pensou ela.
Eu falo um parágrafo e ele responde duas palavras. Falar é crime para esse homem?
"E a sua?", ela rebateu.
"Meus avós estão vivos, mas separados; um em Singapura, outro em Londres. Tenho uma tia e uma prima cuja idade," ele hesitou, "eu não me recordo."
Alice ficou boquiaberta. "Como você não lembra a idade da sua prima?"
"O que foi essa expressão?", perguntou ele, percebendo o choque dela.
"Nada! Acho que minha maquiagem borrou, preciso retocar." Ela levantou o espelhinho para fugir do olhar dele.
Ao chegarem à Mansão Guimarães, Alice correu para os braços do Mordomo Jorge: "Jorge!"
"Minha princesa voltou!" Jorge ria de orelha a orelha. "Deixe-me ver você!"
"Sentiu saudade?", perguntou ela. Gabriel aproximou-se e Jorge brincou: "Genro, perdoe o entusiasmo dela."
"Sem problemas. Jorge, pode me chamar de Gabriel."
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Na sala, Augusto sorriu ao ver os dois de mãos dadas. "Lili, Gabriel, bem-vindos."
Gabriel cumprimentou respeitosamente. Alice soltou a mão dele e correu para abraçar o avô. Ao notar que ele parecia mais magro, sentiu uma pontada no peito, mas disfarçou com seu brilho habitual: "Vovô, você emagreceu! Estava com tanta saudade que não conseguia comer?"
"Quem sentiria falta de uma sapeca como você? Minha casa ficou foi bem silenciosa," brincou Augusto. "Pare de manha, não quer que o Gabriel ria de você?"
"Pelo contrário. Acho a Lili adorável assim," interveio Gabriel, fazendo Augusto sorrir ainda mais.
Depois, Alice e Gabriel foram à capela da família. Ela se ajoelhou e orou:
Pai, mãe, vovó, eu me casei. Ele parece ser um bom homem, não se preocupem.
Gabriel ajoelhou-se ao lado dela com total respeito, fazendo Alice sentir um calor reconfortante.
No jardim, encontraram Augusto tentando pescar. Ele convidou Gabriel para acompanhá-lo e despachou Alice: "Vá ver se tem algo no seu quarto que queira levar. Nós, homens, precisamos conversar em particular."
Alice saiu resmungando sobre "segredos masculinos". No almoço, ela percebeu que os dois voltaram de mãos vazias. "Nenhum peixe? Voltaram com o balde vazio?"
"Eu pesco como os sábios: só pego quem quer ser pego," brincou o velho.
Alice olhou para Gabriel, que completou calmamente: "Como genro desta família, sigo a mesma filosofia." Augusto gargalhou, e Alice se surpreendeu com o senso de humor do marido.
Durante a refeição, Alice impediu o avô de servir um vinho antigo, tocando a coxa de Gabriel por baixo da mesa como sinal. Gabriel prontamente segurou a mão dela e explicou que tinha um evento oficial com autoridades do governo à tarde e não poderia beber.
Na hora da partida, Alice quis ficar mais um pouco, mas o avô insistiu que o casal deveria sair junto para dar sorte, conforme a tradição. No carro, Felipe já os esperava com documentos sobre o evento.
Alice recostou-se no banco, pensando na fragilidade do avô. Uma lágrima escapou, e ela virou o rosto para limpar. "Vou te trazer para vê-lo novamente no fim de semana," disse Gabriel, notando a tristeza dela.
"Sério?", ela perguntou com os olhos úmidos.
"Sim. Não chore." Alice sorriu imediatamente. Gabriel não entendia como as emoções femininas mudavam tão rápido, mas achava que ela ficava linda de qualquer jeito.
Ao chegarem ao local do evento, Gabriel pediu que Felipe levasse Alice para casa. Ela insistiu que poderia ir de táxi, mas Gabriel foi firme: "Eu não preciso dele agora."
Felipe, feliz por trocar o chefe sério pela patroa gentil, perguntou para onde deveriam ir. Alice pediu para ir à USP. No caminho, descobriram que eram da mesma faculdade e trocaram contatos. "Qualquer coisa que precisar, pode me chamar, senhora," ofereceu Felipe.
Mais tarde, no evento, Felipe tirou fotos e gravou vídeos de Gabriel discursando e enviou para Alice. Ela assistiu ao vídeo e pensou:
A voz dele é muito boa... o rosto também... e o corpo nem se fala.
Percebendo seus pensamentos, bloqueou o celular rapidamente.
Às 17h, o evento terminou. "Para onde a senhora foi?", perguntou Gabriel.
"Para a faculdade," respondeu Felipe.
"Então vamos para a empresa." Gabriel pareceu decepcionado.
Felipe, tentando animar o ambiente, comentou: "A senhora é incrível, cursando dois diplomas ao mesmo tempo! Eu sofri para escrever uma tese de finanças, e ela está escrevendo duas!"
Pelo retrovisor, viu o olhar gélido do chefe. "Como você sabe disso?", perguntou Gabriel.
"Nós conversamos no caminho, e eu vi no post dela no WhatsApp," explicou Felipe.
O clima esfriou ainda mais. "Você," disse Gabriel, "também tem o WhatsApp dela?"
Felipe, sem perceber o perigo, sorriu: "Sim, ela me adicionou e trocamos telefones antes de ela descer."
"Muito bem," disse Gabriel, fechando os olhos e afrouxando a gravata.
WhatsApp, telefone... ele, o marido, não tinha nenhum dos dois.