No fim, foi Gabriel quem quebrou o silêncio: "Vamos para casa."
Eles seguiram para uma das propriedades de Gabriel, a Mansão Aurora. Era a residência que Helena havia preparado há muito tempo para ser a casa de recém-casados dele. Como nos últimos anos ele se recusava a casar, Helena, sem paciência, acabou "expulsando-o" para morar lá, sob o pretexto de que ele deveria se adaptar à vida matrimonial com antecedência.
Naquela noite, a Mansão Aurora finalmente recebia sua senhora.
Alice entrou logo atrás de Gabriel e percorreu o ambiente com o olhar. A primeira impressão foi de frieza. Mesmo com as decorações de casamento que Helena mandara os empregados adicionarem, a essência da casa permanecia inalterada: gélida, austera e de linhas precisas — exatamente como o dono.
Próximo ao armário de sapatos, havia um par de pantufas femininas deixado pelos empregados. Alice sentou-se no banco, inclinando o corpo em uma curva graciosa para trocar o calçado. Gabriel, ao se virar, deparou-se com o contorno delicado de sua cintura e a silhueta curvilínea dos quadris.
Sentindo o olhar queimar, ele desviou o rosto imediatamente. Caminhou até a ilha da cozinha e serviu-se de um copo de água gelada, bebendo tudo de uma vez.
"Quer beber alguma coisa?", perguntou ele.
Alice, ainda lutando com a fivela do salto alto, respondeu sem levantar a cabeça: "Água com mel, limão e pétalas de rosa."
Gabriel abriu a geladeira, depois os armários superiores, e fez um silêncio momentâneo. "Não temos rosas."
"Tudo bem, pode ser só limão e mel."
"Não temos limão."
"...Água com mel?"
"Também não temos mel."
Gabriel morava sozinho e só bebia água pura. Os empregados, sabendo disso, nunca estocavam outros ingredientes.
Alice olhou para o teto, resignada, e caminhou até a ilha arrastando as pantufas. "Um copo de água, por favor."
Havia uma fileira de copos novos e coloridos sobre a bancada, trazidos pela família Guimarães. Gabriel pegou um copo de porcelana branca e ia servir a água quando Alice o interrompeu: "Espere, esse não. Esse é o que eu uso para chá de flores."
Diante do olhar confuso de Gabriel, ela apontou para uma caneca com estampa de patinho amarelo. "Use aquela."
Por que um copo de chá não podia ser usado para água? Gabriel não entendia, mas respeitou. Ele serviu água morna na caneca e a colocou diante dela.
De repente, o celular dele vibrou. Ele deu uma olhada e disse: "Tenho uma ligação importante, fique à vontade."
A pergunta "Onde eu vou dormir hoje?" morreu na garganta de Alice.
Ela explorou a casa sozinha e encontrou seus pertences na suíte principal, no segundo andar. Suas roupas já estavam organizadas no closet, penduradas ao lado das dele. As peças de Gabriel eram estritamente pretas, brancas e cinzas, com cortes executivos impecáveis. Já as dela eram uma explosão de cores e estilos, vibrantes e quase ousadas em comparação. Juntas, pareciam não pertencer ao mesmo mundo.
Alice pegou um pijama e foi tomar banho. Ao sair, parou diante da imensa cama, mordendo o lábio em dúvida. Embora estivessem legalmente casados, a ideia de dividir o lençol com um homem que só vira duas vezes fazia seu peito apertar.
Ela respirou fundo. Já que prometera cumprir seus deveres de esposa, não recuaria no primeiro dia. Era apenas dormir; nada demais. Alice afastou a hesitação, puxou o edredom e deitou-se. A seda era macia e fresca, exalando um perfume suave. Aos poucos, a tensão do dia se esvaiu e ela fechou os olhos.
Até que ouviu o som do chuveiro.
No banheiro, Gabriel olhava em silêncio para a bancada agora repleta de frascos e potes coloridos. O espaço generoso fora quase todo tomado, enquanto seus poucos itens estavam espremidos em um canto. Havia até um fio de cabelo na torneira. Ele o pegou; era longo, preto e levemente ondulado, macio ao toque.
Após descartar o fio e tomar seu banho, ele notou algo diferente. O painel digital do chuveiro não estava nos costumeiros 30°C, mas sim em 42°C. Ele franziu a testa. Ela não sentia que aquela temperatura queimava?
Os frascos, o fio de cabelo, a temperatura da água e o aroma adocicado no ar eram lembretes silenciosos: agora havia outra pessoa em sua vida.
Gabriel saiu do banheiro vestindo um roupão preto. O quarto estava iluminado apenas por uma arandela. No início, Alice estava esparramada no centro da cama, mas agora estava encolhida na borda, de costas para ele.
Ele se deitou e apagou a luz. No escuro, os sentidos se aguçaram. O roçar do tecido, o leve afundar do colchão... Alice tentava controlar a respiração, mas mantinha o corpo tenso, agarrando o lençol.
A voz grave de Gabriel ecoou na penumbra:
"Eu não vou te forçar a nada."
"Pode dormir tranquila."
Após alguns segundos de silêncio, ele a ouviu soltar um suspiro aliviado e o som do corpo dela relaxando no colchão. Gabriel esboçou um sorriso involuntário e fechou os olhos.
Na manhã seguinte, Gabriel acordou sentindo um calor incomum. Ele baixou o olhar e viu Alice em seus braços. Ela dormia profundamente, com uma mão sobre o peito dele e uma perna cruzada sobre sua cintura.
Ao puxar levemente o edredom, o coração de Gabriel saltou. O pijama dela havia subido até a cintura, revelando pernas longas e a pele alva que brilhava sob a luz da manhã. A respiração dele pesou e seu corpo reagiu instantaneamente. Ele fechou os olhos, esperando que o desejo passasse, mas a reação persistia.
Com cuidado, ele retirou a mão e a perna dela de cima de si, cobriu-a com o edredom e fugiu para o banheiro. Sob a água gelada, ele tentava se acalmar, enquanto Alice continuava dormindo o sono dos justos.
Ela só acordou duas horas depois. Verificou que seu pijama estava em ordem e suspirou aliviada. Sabia que costumava se mexer muito enquanto dormia, mas parecia que naquela noite tinha se comportado.
"Bom dia, senhora," cumprimentou uma mulher de meia-idade ao pé da escada.
"Bom dia! Como devo chamá-la?"
"Meu nome é Maria, trabalho para a família Cavalcante. Todos me chamam de Dona Maria," explicou a governanta sorridente. "O café está pronto."
Alice sentou-se à mesa e perguntou: "O Gabriel não está?"
"O Sr. Gabriel saiu cedo para a empresa. Ele me pediu para comprar rosas, limão e mel. É para o seu chá, não é? Precisa de mais alguma coisa?"
Alice sentiu um calor no coração e sorriu. "Por enquanto não, obrigada."
Após um café da manhã reforçado que encantou Dona Maria, Alice avisou que passaria o dia na faculdade. Ela estava no último ano de Design de Moda na Universidade de São Paulo (USP), sobrecarregada com projetos finais e matérias de finanças.
Às oito da noite, Gabriel voltou do trabalho. Dona Maria serviu o jantar e, antes que ele perguntasse, ela se adiantou: "Procurando pela Lili? Ela ainda não voltou. Me mandou uma mensagem dizendo que está ocupada na faculdade e vai chegar tarde."
Gabriel parou por um instante e fez uma pergunta estranha: "Você tem o WhatsApp dela?"
"Tenho, sim. Ela me adicionou hoje cedo," respondeu Dona Maria, desconfiada. "O senhor... não tem?"
Gabriel não respondeu e sentou-se à mesa com uma expressão indecifrável.
"Quer que eu te mande o contato dela?", ofereceu a governanta.
"Não precisa," disse ele, desviando o olhar.
Dona Maria sentiu que o patrão parecia subitamente mal-humorado.
"Mande um motorista esperar por ela na porta da faculdade," ordenou Gabriel.