Nove de setembro, um dia auspicioso para casamentos.
No cartório, casais andavam de mãos dadas pelo saguão, com sorrisos radiantes estampados nos rostos.
Em contraste, Alice Guimarães e Gabriel Cavalcante mantinham uma postura educada, porém distante, parecendo completamente fora de lugar.
O fotógrafo, observando os recém-casados que visivelmente não tinham intimidade, brincou: "Cabe uma pessoa inteira entre vocês dois! Aproximem-se mais."
Alice e Gabriel viraram a cabeça ao mesmo tempo.
Seus olhares se cruzaram por um breve instante antes de se desviarem, e ambos deram um passo silencioso em direção ao outro.
"Muito bom."
O fotógrafo olhou pelo visor; eram jovens e deslumbrantes, formavam um par perfeito.
"Agora ajustem a expressão. Especialmente o senhor, dê um sorriso."
Gabriel não reagiu.
Ele permanecia ali, imóvel e em silêncio, exalando uma aura poderosa de nobreza e frieza natural.
O fotógrafo hesitou por dois segundos antes de tomar coragem para insistir: "Um sorrisinho? Se demorarmos mais, o expediente acaba."
Gabriel forçou o canto da boca, resultando em um sorriso extremamente rígido.
Fotógrafo: "..."
Alice olhou para cima, encarando-o, e acabou soltando uma gargalhada. Como alguém conseguia sorrir daquele jeito? Hahahaha!
Ela não conseguia parar de rir, com os olhos formando pequenas luas crescentes e os ombros tremendo levemente.
Gabriel baixou o olhar para ela, com um tom de voz que misturava calma e resignação: "É tão engraçado assim?"
Alice assentiu e, logo em seguida, balançou a cabeça negativamente. Ela teve que lembrar de todas as coisas tristes que já lhe aconteceram na vida para conseguir finalmente conter o riso.
O riso de Alice pareceu quebrar a barreira invisível entre os dois. O fotógrafo, percebendo o momento, agiu rápido: "Olhem para a câmera! 3, 2, 1."
O som do obturador ecoou, o momento foi eternizado e o destino traçou as linhas de uma grande união.
Ao saírem do cartório, ambos seguravam o livreto vermelho recém-emitido.
Felipe abriu a porta do carro e Gabriel protegeu a cabeça de Alice enquanto ela entrava, dando a volta para se sentar do outro lado.
Assim que o motor ligou, Felipe subiu a divisória de vidro, criando um espaço privado e silencioso no banco traseiro.
Alice sentia um pouco de calor e ajeitou o cabelo.
Ela usava um vestido estilo qipao moderno na cor damasco, sem mangas, revelando braços delicados que pareciam brilhar na penumbra do carro.
Gabriel desviou o olhar por educação, mas não pôde evitar o perfume doce e suave que emanava dela — um aroma de magnólias ao amanhecer que invadia seus sentidos.
Ele não achou ruim, apenas não estava acostumado; aquilo não fazia parte de sua rotina organizada.
"Sr. Cavalcante, é..." Alice pigarreou. "Posso te pedir uma coisa?"
Gabriel virou-se para ela: "Diga."
"Na frente dos nossos familiares, poderíamos agir de forma um pouco mais... íntima?"
Ao dizer isso, as orelhas de Alice esquentaram, mas ela continuou: "Meu vovô acredita que nos apaixonamos à primeira vista."
"Nós," Gabriel fez uma pausa, como se estivesse processando a informação.
"Apaixonados à primeira vista?"
"É..."
Alice respondeu com a voz quase inaudível. Lembrando-se do acordo assinado no dia anterior, explicou rapidamente: "Não me leve a mal, eu só disse isso para que o meu vovô ficasse tranquilo."
Gabriel notou as orelhas avermelhadas dela. "Tudo bem."
Os olhos de Alice brilharam e ela sorriu: "Obrigada, Sr. Cavalcante."
"Primeiro, mude a forma de me chamar," disse ele.
"Hã?" Alice hesitou, mas logo entendeu. De fato, nenhum casal recém-casado chamaria o outro de "Senhor" ou "Senhorita".
Como chamá-lo? Pela lógica, deveria ser "marido", mas só de pensar nisso ela sentiu arrepios. Chamá-lo apenas pelo nome parecia informal demais. Após um momento de hesitação, ela disse suavemente: "Gabriel."
Os dedos de Gabriel sobre o joelho se moveram levemente. Ele assentiu e perguntou: "E sua família, como te chama?"
"Eles usam meu apelido, Lili."
Gabriel repetiu: "Lili."
A voz dele era grave e aveludada, como um toque suave no ouvido de Alice. Ela sentiu uma leve dormência na ponta das orelhas.
Era um nome que ouvia a vida inteira, mas saindo da boca dele, parecia algo totalmente novo.
No carro silencioso, o ar parecia ter ficado mais denso. Gabriel estendeu a mão e baixou a temperatura do ar-condicionado.
"Sr. Cavalcante, Srta... perdão," Felipe corrigiu-se rapidamente, "Sra. Cavalcante, chegamos."
Gabriel lançou-lhe um olhar rápido e desceu do carro. Ele deu a volta até o lado de Alice, abriu a porta e estendeu a mão. Uma mão clara, delicada e com unhas impecáveis surgiu.
"Segure minha mão," sussurrou Alice. "Meu vovô está olhando pela janela." Esse velho não perde uma...
Gabriel entendeu a situação e envolveu a mão dela, ajudando-a a descer. A mão dela era pequena, macia e delicada, contrastando totalmente com a dele.
Alice deixou-se guiar e aproveitou para apoiar a outra mão no braço dele, caminhando próxima a ele. Para qualquer observador, pareciam um casal apaixonado.
Ao entrarem na sala privativa, Augusto, Ricardo e Helena levantaram os olhos. Ao verem as mãos dadas, todos abriram sorrisos de satisfação.
"Vovô, por favor, aceite este chá," disse Gabriel, oferecendo a xícara com ambas as mãos.
Augusto aceitou rindo, tomou um gole e tirou de uma caixa de veludo um pingente de jade branco esculpido.
"Gabriel, entrego minha Lili a você. Ela ainda é jovem e foi um pouco mimada por mim, peço sua paciência."
"Obrigado, vovô," Gabriel aceitou com respeito. "A Lili é maravilhosa. Eu cuidarei bem dela, pode confiar."
Augusto parecia aliviado. Ele não havia errado na escolha do neto de consideração.
Alice também serviu chá para Ricardo e Helena: "Papai, mamãe, por favor."
Ambos aceitaram sorridentes. Ricardo entregou-lhe um cartão Centurion (o famoso cartão preto).
Alice instintivamente olhou para Augusto. Ela tinha visto a lista de dotes pela manhã — dinheiro, joias, antiguidades, carros de luxo, imóveis e ações — era uma fortuna. Ela não tinha certeza se deveria aceitar aquele cartão.
Vendo o avô assentir, ela o pegou com ambas as mãos: "Obrigada, papai."
Helena, por sua vez, tirou da bolsa um bracelete de jade imperial de altíssima qualidade e o colocou no pulso de Alice.
"Lili, este bracelete me foi dado pela avó do Gabriel quando me casei. É uma relíquia das mulheres da família Cavalcante. Agora é seu. O design é um pouco antigo, confesso. Se não gostar, pode guardar e dar para sua futura filha ou nora. Outro dia vamos ao shopping escolher algo que seja mais o seu estilo."
Alice quase não conseguiu segurar o riso.
Ela não imaginava que sua sogra fosse uma pessoa tão divertida e adorável.
Ao lado, Ricardo e Gabriel desviaram o olhar em silêncio.
Durante o jantar, Helena cochichou com Alice: "Lili, vou te contar um segredo: ontem, assim que o Gabriel voltou, disse que ia se casar com você e mandou prepararmos tudo para o pedido. Eu até perguntei se ele não queria conhecer outras garotas, mas ele nem pensou e disse: 'Não, tem que ser ela!'. Esse menino sempre fugiu do casamento, mas foi só te ver que aceitou na hora. Eu disse que foi amor à primeira vista, mas ele é teimoso e não admite."
Ela falava com entusiasmo, ignorando os olhares de reprovação do filho. Enquanto isso, Gabriel conversava com Augusto e Ricardo sobre parcerias entre as empresas.
O clima era de total harmonia.
Após o jantar, o grupo saiu conversando animadamente.
Quando a limusine Rolls-Royce se aproximou, Augusto virou-se sorrindo: "Meus caros, eu me despeço aqui. Apareçam em casa para um café quando puderem."
Ricardo e Helena aceitaram o convite gentilmente.
"Tchau papai, tchau mamãe, tchau Gabriel," disse Alice, seguindo o avô para entrar no carro por hábito.
Augusto a segurou. "Minha querida, agora você deve ir com o Gabriel. Só volta para casa na visita oficial de recém-casada."
Alice sentiu vontade de chorar. Agora, até para voltar para casa, haveria data marcada? A razão dizia para ser obediente, mas a emoção resistia. Ela mordeu o lábio: "Mas minhas coisas ainda estão todas em casa."
Augusto sorriu: "Eu já mandei empacotar tudo e enviar para a casa nova de vocês."
"..."
Augusto não teve coragem de olhar nos olhos da neta e ordenou ao motorista que partisse.
O Rolls-Royce se distanciou, deixando Alice em silêncio absoluto.
Helena se despediu com um "Lili, apareça sempre!" e entrou no carro com Ricardo, deixando apenas Gabriel e Alice parados, encarando-se.