Gabriel Cavalcante não planejava ser tão direto logo de cara.
No entanto, a jovem à sua frente era bonita demais, como uma camélia branca desabrochando na primavera: pura, suave e radiante. Era evidente que ela era uma herdeira criada com todo o amor e luxo que o dinheiro podia comprar.
Uma garota assim, por lógica, deveria ansiar por um casamento repleto de afeto e felicidade.
Gabriel detestava perder tempo e, acima de tudo, não queria enganar ninguém. Ele tentou ser o mais diplomático possível para não ferir o orgulho da jovem, mas ela permanecia em silêncio, observando-o com seus grandes olhos límpidos.
Naquele instante, uma rara pontada de inquietude surgiu no peito de Gabriel.
Ele baixou o olhar e ergueu o bule para servir mais chá a ela. "Srta. Guimarães, o que eu disse não é um ataque pessoal. Sinto muito se a deixei desconfortável."
Alice voltou a si, e sua expressão relaxou visivelmente. Ela respondeu de forma decidida: "Sem problemas!"
Um brilho de surpresa cruzou os olhos de Gabriel, que logo suspeitou: "A senhorita foi forçada a este encontro?"
Alice assentiu e acrescentou: "Mas fique tranquilo. Já que estou aqui, cumprirei com todos os deveres e obrigações de uma esposa. Só para confirmar: você quer um casamento de fachada?"
"Não. Eu preciso me casar e ter filhos para dar continuidade ao legado dos Cavalcante."
Alice sentiu uma leve decepção interna, mas não deixou transparecer. Apenas sorriu: "Certo, sem problemas."
Isso era bom. Gabriel assentiu, satisfeito. "A senhorita tem mais alguma dúvida?"
"Sim," Alice perguntou sem rodeios. "Podemos nos casar o quanto antes? O mais rápido possível. Não precisamos de festa agora, podemos apenas registrar a união."
E explicou em seguida: "Ainda estou na faculdade e não quero chamar muita atenção."
"Srta. Guimarães," Gabriel inclinou-se levemente para frente, fixando o olhar nela. "Tem certeza de que quer se casar comigo?"
"Absoluta."
"Certo." Gabriel pegou o celular e ligou para seu assistente, Felipe, pedindo que trouxesse o acordo pré-nupcial já redigido. "Dê uma olhada, sinta-se à vontade para sugerir alterações."
O contrato não era complexo. Tratava-se majoritariamente de divisão de bens e definição de responsabilidades, com cláusulas claras, justas e racionais.
Alice folheou tudo sem objeções até chegar à última cláusula:
A Parte B não deve se apaixonar pela Parte A.
Gabriel era a Parte A; ela, a Parte B.
"Aqui," Alice apontou com o dedo indicador e olhou para ele. "Não está equilibrado. Sugiro alterar para:
Ambas as partes estão proibidas de se apaixonar uma pela outra.
"
Gabriel olhou para onde o dedo fino dela apontava e ordenou a Felipe: "Mude conforme a solicitação da Srta. Guimarães."
Felipe retirou-se e logo trouxe duas novas cópias do acordo.
Gabriel assinou seu nome na última página e empurrou o documento para ela. No momento em que a caneta de Alice tocou o papel, sua mão hesitou por um segundo.
Um rosto que ocasionalmente aparecia em seus sonhos surgiu em sua mente. Ela apertou a palma da mão com força e, num traço rápido, assinou seu nome.
Gabriel guardou uma das cópias e disse calmamente: "Srta. Guimarães, foi um prazer fazer negócios com você."
Essa frase pareceu tocar em algum ponto divertido para Alice, que de repente começou a rir, com os olhos brilhando. "Sr. Cavalcante, o prazer é meu."
Aquele sorriso parecia iluminar o dia cinzento.
Gabriel observou a vivacidade no olhar dela e perguntou: "Você tem tempo amanhã?"
"Hã?"
"Amanhã de manhã minha família irá à sua casa para o pedido formal. Às cinco da tarde iremos ao cartório assinar os papéis e, às seis, nossas famílias jantam juntas. Pode ser?"
O tom dele era calmo e profissional, como se estivesse confirmando uma agenda de trabalho, sem qualquer sinal de emoção pré-nupcial.
Essa atitude, no entanto, deixou Alice à vontade. Ela sorriu e assentiu: "Combinado."
"Passo para te pegar amanhã à tarde?" Embora houvesse uma reunião de resultados do segundo trimestre, Gabriel decidiu adiá-la. Se iam se casar, ele devia dar à sua futura esposa o devido respeito.
Contudo, Alice recusou: "Não quero atrapalhar seu trabalho. Amanhã peço ao motorista da família para me levar. Nos encontramos direto na porta do cartório."
Ela era sensata e prática, o que agradou Gabriel ainda mais. "Até amanhã."
"Até amanhã."
Um encontro às cegas onde ambos os lados tinham interesses que se alinhavam perfeitamente. Em poucos minutos, decidiram o futuro de suas vidas.
Eles se despediram na porta do hotel e entraram em seus respectivos carros. Um seguiu para o sul, o outro para o norte.
Ao chegar em casa, Augusto perguntou ansioso: "Como foi a conversa com o Gabriel?"
Alice sentou-se à frente dele, apoiando o rosto nas mãos com um jeito dócil de neta. "Vovô, ele é tão lindo! Assim que o vi, senti que ele era o meu marido, e ele também se apaixonou por mim à primeira vista. Combinamos tudo: amanhã cedo a família dele vem aqui, à tarde assinamos os papéis e à noite jantamos todos juntos."
"Tão rápido assim?" O coração de Augusto deu um salto. Ele suspeitou que a neta pudesse ter descoberto a verdade sobre sua saúde.
"O que eu posso fazer? Sua neta é charmosa demais," Alice brincou, dando de ombros. "Além disso, ele já não é tão novo e a família dele está pressionando."
Augusto ainda estava meio desconfiado e ia perguntar mais, mas Alice, temendo ser descoberta, fingiu cansaço por ter acordado cedo e subiu para o quarto.
Sozinha, onde ninguém podia ver suas emoções, ela deixou o sorriso cair e permitiu que a melancolia tomasse conta de seu rosto.
Sentou-se à janela e ficou observando o céu por um longo tempo.
Finalmente, levantou-se e trancou em uma gaveta escondida todas as lembranças que carregavam seus sentimentos de adolescente dos últimos quatro anos.
Amanhã, serei a noiva de outro homem.
Não vou mais te esperar.
Adeus.