Beatriz ouviu o que ele disse e levantou a cabeça.
O rabo de cavalo alto fazia seu rosto parecer ainda menor e mais delicado enquanto ela fixava o olhar em Dante.
Dante sentiu um misto de irritação e vergonha.
"O que foi? Vai me olhar com pena como todo mundo?"
Dito isso, ele agarrou o travesseiro ao lado, fazendo menção de jogá-lo nela.
Beatriz, porém, não demonstrou medo. Ela apenas desviou o olhar calmamente e disse:
"Se eu fosse você, colaboraria com as injeções e os remédios. Eu não puniria a mim mesma pelos erros dos outros; eu agarraria todas as oportunidades para subir na vida. Se o seu pai não é bom para você, você deveria ser ainda mais brilhante para fazê-lo se arrepender, e só então descartá-lo."
Aquela foi a primeira vez que Beatriz falou tanto com ele.
Dante largou o travesseiro. "Você é só uma criança e acha que sabe de tudo. Por acaso você é tão excelente assim a ponto de fazer seus pais se arrependerem?"
Beatriz não respondeu mais e recebeu alta no dia seguinte.
Dante ficou furioso. Afinal, eram "companheiros de sofrimento" no hospital, como ela podia ir embora sem sequer se despedir?
Ele só voltou a ver Beatriz um mês depois.
Na cerimônia de abertura do colégio de elite de Florianópolis, Dante continuava sendo o rebelde de sempre e simplesmente cabulou o evento.
Ele estava deitado em uma varanda deserta, com as pernas cruzadas de forma preguiçosa, aproveitando o sol, quando um grupo de pessoas passou pelo corredor próximo.
"Ficaram sabendo? A primogênita dos Vasconcelos voltou."
"Se ela é a primogênita, o que acontece com a Isadora?"
"Nem fale, a Isadora está morrendo de raiva. Mas essa Beatriz é realmente esperta. Dizem que os pais não pretendiam deixá-la estudar na nossa escola, mas desde que chegou à casa dos Vasconcelos ela nunca reclamou de nada. Mesmo quando adoeceu e foi internada, não deu um pio. Os pais ficaram tão culpados que gastaram uma fortuna para colocá-la aqui."
"Uau, que tática mestre. Dizem que ela passou mal porque bebeu algo que a Isadora deu?"
"Quem sabe? E se foi apenas um plano dela para parecer vítima?"
O grupo se afastou rindo. Dante tirou o livro que cobria seu rosto e viu Beatriz parada ali perto; ela tinha ouvido tudo junto com ele.
Ele olhou para Beatriz, mas ela o ignorou.
Dante, orgulhoso como era na época, pensou: "Se você não fala comigo, eu também não falo com você."
Se você falasse comigo, talvez eu até desse uma lição nesse povo fofoqueiro.
Mas Beatriz simplesmente passou por ele sem expressão e foi embora.
Dante guardou ainda mais rancor e jurou nunca mais dirigir a palavra a ela.
Contudo, um mês depois, eles se encontraram novamente.
Dante tinha entregado uma prova em branco de propósito e foi chamado à diretoria para que chamassem seus responsáveis.
Beatriz também estava lá, mas para ser elogiada.
Na primeira prova do semestre, Beatriz deixou todos boquiabertos ao conquistar o primeiro lugar geral.
Dante quis dar os parabéns, mas ela ainda não o reconhecia. Ela apenas fez uma reverência respeitosa ao professor e saiu.
Depois disso, Dante levou uma bronca de meia hora de seu tutor.
Ele limpou o ouvido com desleixo. "Professor, meu pai não vai vir. Quer que eu chame a minha babá?"
O tutor, furioso, gritou: "Olhe para a Beatriz da sala ao lado e aprenda com ela!".
Dante deu de ombros, indiferente.
Depois veio o segundo ano do ensino médio, aos 17 anos. Beatriz começou a estudar dança e ganhou um grande prêmio em um concurso escolar. Dante continuava em seu caminho transgressor.
Ele e seus amigos estavam planejando fugir da escola para jogar videogame quando foram descobertos pelo inspetor. Na fuga, acabaram se escondendo no local onde Beatriz praticava dança.
Eles ficaram escondidos, observando Beatriz dançar enquanto fugiam do inspetor.
Um dos amigos não botava fé nela:
"A protagonista do festival cultural deste ano será a Isadora, a Beatriz não tem chance. A Isadora estuda dança há anos, não importa o quanto a Beatriz se esforce, ela nunca vai alcançá-la."
Dante não disse nada, mas deu um soco discreto no amigo, fazendo-o soltar um ganido de dor.
Dante tapou a boca dele rapidamente. "Cale a boca se não quiser ser pego."
Então, eles ficaram ali vendo Beatriz praticar; ela caía e levantava repetidamente. Eles perderam a conta de quantas vezes ela se chocou contra o chão, mas Beatriz não soltava um único gemido e continuava a dançar.
Dante, escondido atrás da cortina, sentiu pela primeira vez seu coração acelerar.
No dia da votação para o festival cultural, foi a primeira vez que ele não fugiu. Ele secretamente deu seu voto para Beatriz.
Ele ficou no canto mais isolado do auditório, observando aquele único e solitário voto "1" que apoiava Beatriz. Ele achou que estava bom assim.
Ela era uma joia rara, e só ele sabia disso.
A partir de então, ele passou a apoiá-la silenciosamente, vendo Beatriz deixar de ser a garota em quem ninguém acreditava para se tornar alguém cada vez mais brilhante, superando a todos.
Ele viu com os próprios olhos como ela transformou uma mão de cartas péssima em uma jogada espetacular; ele estava realmente impressionado.
Mais tarde, perto do vestibular, Dante continuava com seu estilo de vida desregrado, jogando e cabulando aulas. A única coisa que prendia sua atenção era Beatriz.
Às vezes ele se perguntava por que se importava tanto com ela, já que não trocavam uma palavra desde que saíram do hospital.
Dante achava que era apenas pela "amizade" do tempo de internação.
Faltando três meses para o vestibular, Dante encontrou Beatriz novamente na diretoria.
Beatriz era teimosa demais; ela queria prestar vestibular para dança. Como suas notas em matérias teóricas eram excelentes, os professores achavam um desperdício e tentavam convencê-la a desistir, mas Beatriz apenas dizia:
"É porque eu amo demais, não tenho escolha."
Desde que morava com os pais adotivos, ela via os outros dançarem e aprendia escondido. Quando teve a oportunidade na casa dos Vasconcelos, ela não quis perder um único segundo.
Ela deixou de ser aquela menina simples do interior e agarrou cada chance para subir, tornando-se a verdadeira herdeira dos Vasconcelos que era agora.
Dante a observava de longe e, de repente, sentiu que sua própria vida não tinha sentido.
Ele viu Beatriz convencer o tutor a deixá-la usar a sala de dança da escola fora do horário de aula para praticar.
Depois que ela saiu, Dante levantou a cabeça diante do sermão do professor:
"Ainda faltam três meses. Minha inteligência é suficiente para recuperar o tempo perdido?"
O rebelde dos Cavalcante finalmente queria tomar jeito?
O professor ficou extremamente emocionado. "Não diga três meses! Se você se dedicar, a escola e seu pai darão todos os recursos para você estudar!".
Dante hesitou por um momento. "Tudo bem, eu vou tentar."
Embora não tivesse feito uma única prova séria desde o início do ensino médio, a verdade era que ele conseguia absorver o conteúdo se estudasse. Antes de brigar com o velho Cavalcante, ele tinha recebido a educação de elite da família.
Porém, comprimir três anos de estudo em três meses era um desafio enorme.
Assim, sempre que Dante estava prestes a colapsar de tanto estudar, ele ia para a sala de estudos em frente à sala de dança de Beatriz para vê-la praticar secretamente.
Beatriz dançando era, naturalmente, uma visão maravilhosa.
Às vezes, de tanto olhar, ele sentia a garganta seca e o rosto queimar; uma vez ele até sonhou com ela.
No dia em que sonhou com Beatriz, ele não estudou nada. Ficou sentado a tarde toda do lado de fora da sala de dança vazia e tomou uma decisão: se ele tirasse uma boa nota no vestibular, ele se declararia para Beatriz.
A condição era ele ir bem na prova.