32
Um mês depois, a empresa dos Vasconcelos superou momentaneamente a crise.
Giovanna estava me relatando o progresso do trabalho quando a secretária entrou. "Srta. Vasconcelos, a segunda senhorita está na linha. Ela pergunta se a senhora virá jantar em casa hoje."
Franzi o cenho. Não sei o que deu na Isadora ultimamente; ela tem me convidado para jantar com frequência. Às vezes, demonstra até uma preocupação excessiva com o meu relacionamento com o Dante e, surpreendentemente, chegou a me pedir desculpas. Disse que era imatura antes e que só agora percebeu que a irmã é a melhor pessoa que ela tem.
Lutamos uma contra a outra por mais de dez anos. Eu achava que seríamos eternamente como água e vinho, e não esperava que ela começasse a me bajular.
"Srta. Vasconcelos, ela ainda aguarda sua resposta. A senhora irá esta noite?"
Fiz um gesto para que a secretária saísse primeiro.
Giovanna, abraçada ao seu notebook, comentou: "Muita gentileza de repente esconde segundas intenções. O conselho administrativo se reúne no mês que vem; ela deve estar com medo de você tomar o lugar dela de vez e por isso quer fazer as pazes, não?".
Olhei para os slides no computador e permaneci em silêncio.
Gio estava indignada. "Bia, embora eu seja sua subordinada, preciso dizer: as pessoas da sua família não merecem sua compaixão! Não faça as pazes, entendeu?".
Balancei a cabeça negativamente. "Não farei."
Mas eu estava curiosa para saber que tipo de jogo a Isadora estava armando. Pedi à secretária que recusasse o convite. Se ela realmente estivesse planejando algo, voltaria a insistir.
Como esperado, faltando meio mês para a reunião do conselho, Bernardo me ligou. "Bia, papai e mamãe prepararam um jantar para você. Você vem hoje?".
Foi a primeira vez que Bernardo falou comigo usando um tom de voz tão suave.
Ao notar minha hesitação, ele continuou: "Eu e sua mãe aprovamos seu casamento com o Dante, não vamos mais interferir. Mas, já que se casaram, você deveria trazê-lo aqui para um encontro formal, não acha?".
Isso fazia sentido. Eu não queria privar o Dante de nenhum tipo de reconhecimento ou formalidade. Então, concordei em levá-lo.
Dante, ao saber, assentiu: "Tudo bem, eu te acompanho".
33
A mansão dos Vasconcelos voltou ao que era antes: luzes brilhantes e uma falsa atmosfera de aconchego. Bernardo e Helena esperavam por mim e Dante na porta.
Isadora, vestida em um tom de branco bem discreto, acenou para mim de longe. Olhando bem, o estilo de roupa e o penteado dela hoje estavam muito parecidos com os meus, mas não dei muita importância.
Quando Dante e eu nos aproximamos, percebi que Lucas também estava lá. O olhar de Dante transbordava hostilidade, e ele apertou minha mão por instinto.
Isadora agia como se nada tivesse acontecido; segurando o braço de Lucas, sorriu docemente para nós: "Irmã, cunhado, mamãe preparou muitos pratos deliciosos. É raro estarmos todos reunidos, vamos aproveitar!".
Apenas fiz um aceno com a cabeça em resposta. Dante sequer olhou para eles; apenas me abraçou pelos ombros e entrou.
Durante o jantar, conversamos sobre amenidades de forma muito casual. Bernardo e Helena não mencionaram nada do passado, e Isadora mantinha o clima animado. Quem nos visse ali pensaria que éramos uma família em perfeita harmonia.
E, no momento em que Dante e eu íamos embora, Helena insistiu para que passássemos a noite lá.
"Bia, seu pai e eu realmente erramos esses anos todos. Logo você fará parte da família Cavalcante de vez e será mais difícil te ver."
Helena parecia sincera, com o olhar carregado de arrependimento. Acabei cedendo. "Tudo bem, passaremos a noite aqui".
Isadora, com o rosto entre as mãos, sorriu de forma ingênua: "Irmã, a mamãe já preparou o quarto do cunhado! Hoje você pode dormir bem tranquila no quarto com a mamãe".
Franzi o cenho; senti que algo estava errado. Dante ergueu a sobrancelha e, para minha surpresa, aceitou: "Certo, ficaremos hoje".
Olhei para ele, que apertou minha mão e me lançou um olhar para que eu ficasse tranquila.
À noite.
Helena arrumava as cobertas enquanto conversava sobre coisas do dia a dia. "Depois que você se mudar de vez para os Cavalcante, tente voltar para nos visitar sempre que puder."
"Hm", respondi, enquanto lia as mensagens do Dante no celular.
"Esposa, a solidão desta noite é implacável...".
"E ainda assim você aceitou ficar", respondi sorrindo. "Sabe que não precisa se forçar por minha causa".
Dante respondeu: "Bia, você acredita mesmo que sua família mudou para melhor?".
"Não." Olhei para Helena ocupada ali perto. Uma relação de dez anos de distanciamento não muda do dia para a noite.
Dante continuou: "Então é melhor acabar com isso de uma vez hoje. Depois você vem comigo para os Cavalcante e não deve mais nada aos seus pais".
34
Helena terminou de arrumar a cama e disse: "Bia, vá se deitando, vou buscar mais uma coberta".
Fiquei no quarto observando o ponteiro dos segundos no relógio de parede. Passou-se um bom tempo. Ouvi passos se aproximando; não me virei e apenas disse: "Finalmente não aguentou mais?".
"Você sabia?". A voz que soou era a que eu esperava.
Lucas entrou e sentou-se no sofá ao meu lado, observando-me com um olhar profundo. As luzes estavam apagadas. Lucas estava ali sentado, a pouca distância; no silêncio do quarto, ele disse lentamente: "Bia, você não deveria ter voltado. No fim, você ainda tem o coração mole pelos seus pais".
Segurei o celular; a tela brilhava e apagava. Dante não me respondia há algum tempo.
Lucas tamborilava os dedos levemente no braço da poltrona, como se esperasse por algo. Franzi a testa. "Meus pais te mandaram vir aqui?".
"Não, foi a Isadora", Lucas confessou abertamente. "Isadora quer saber: se o Dante descobrir que você e eu estamos sozinhos em um quarto, em uma situação ambígua, ele ainda vai gostar tanto de você?".
Minha mão congelou no celular. Dante continuava sem responder. Levantei-me bruscamente, derrubando a cadeira, que causou um som estridente no quarto escuro.
Lucas me olhou com diversão. "Ficou nervosa?".
Tentei me acalmar, raciocinando rápido. "Não. O Dante confia em mim, ele sabe que eu jamais faria isso".
"Ah, é? Que tal fazermos uma aposta, então?". O tom de Lucas era de quem tinha tudo sob controle.
Olhei para ele. "Apostar o quê?".
Ele se levantou e olhou para o relógio na parede. "Vamos apostar se o Dante, sob o efeito de narcóticos, vai ou não tocar na Isadora".
Senti como se algo explodisse na minha cabeça. Corri em direção à saída, mas Lucas bloqueou meu caminho. "Beatriz, no momento em que algo acontecer entre o Dante e a Isadora, o relacionamento de vocês acaba".
Rangei os dentes de ódio, perdi a razão e dei um tapa no rosto de Lucas. "Como vocês puderam armar um circo desses!".
"Circo?", Lucas manteve a expressão inalterada. "Bia, você sabe que, independentemente do Dante tocar ou não na Isadora, eu saio ganhando".
Lucas continuou calmamente: "Dante odeia traição por causa do histórico do pai dele. Se ele fizer algo com a Isadora, será um golpe para ele. E, em segundo lugar...". Ele segurou meu queixo com os dedos. "Bia, sem o Dante, eu também posso te ajudar".
"Cai fora!"
Eu tremia de fúria, e meu peito subia e descia com a respiração pesada. Nunca senti tanto ódio por Lucas.
Dante... o meu maravilhoso Dante...