16
Eu me despedi de Dante e usei a chave para abrir a porta de casa.
As luzes estavam acesas e Tiago estava na sala, compenetrado em seu celular. "Ainda acordado a esta hora?", perguntei com surpresa.
Tiago bocejou: "Nossos pais disseram que eu não podia dormir até você chegar. Agora que você voltou, eu vou me deitar, estou morrendo de sono".
Senti um calor no coração: "Obrigada pelo esforço, Ti. Quando o vestibular acabar, vou te levar para viajar".
Tiago fez um gesto de desdém: "Já tenho meus planos, vá apenas com seu namorado".
Lembrei-me de Dante e sorri involuntariamente: "Hm, o namorado naturalmente terá que ir também".
Tiago parou de repente: "Céus, você já aceitou assim? Mana, tente ser um pouco mais reservada!".
O jeito implicante dele voltou à tona: "Mana, embora eu esteja feliz por você ter caído na real sobre o Lucas, você devia ser mais sutil e dar um chá de cadeira nele primeiro!".
Abri a porta do meu quarto: "Medo de quê? Se ele me maltratar, não tenho você como irmão?".
Tiago coçou a cabeça: "É, tem razão".
Sorri e fechei a porta.
No mesmo instante, o celular tocou.
Era o Dante.
"Já entrou?".
"Sim, acabei de entrar. E você? Já chegou onde vai ficar?".
Durante nosso passeio à tarde, Dante me contara que também tinha uma casa por aqui, então não precisava me preocupar com sua hospedagem.
"Ainda não cheguei, mas já sinto saudades da minha Bia".
Abracei o urso de pelúcia que Dante ganhara para mim naquelas máquinas de garra e sorri: "Então vá dormir, assim você poderá me ver em seus sonhos".
Dante suspirou, resignado: "Bia, por que eu gosto tanto de você? Não aguento ficar nem um pouco longe?".
Meu coração se derreteu, mas continuei implicando com ele: "Você já é bem grandinho, não acha isso meloso demais? Como vou saber por que você gosta tanto de mim? Aliás, diga logo... o que você viu em mim?".
Há muito tempo, na primeira vez que Dante se declarou, eu fiz essa mesma pergunta, mas ele nunca respondeu.
Por isso, hoje eu queria muito saber a resposta.
Depois de um silêncio, Dante finalmente falou: "Bia, você se lembra de quando nos vimos pela primeira vez?".
Pensei por um momento e perguntei: "Foi no banquete de aniversário do seu pai?".
Dante não confirmou nem negou.
Comecei a recordar aquele encontro no aniversário do velho Sr. Cavalcante. Na época, eu era a noiva de Lucas e fui convidada para o evento ao lado dele.
Lembro-me de estar muito bem arrumada, usando salto alto e um vestido champanhe, entrando no salão de braços dados com Lucas.
Se não fosse pelo fato de Lucas ter me abandonado na calçada mais tarde para levar Isadora — que fingia passar mal — ao hospital, aquele teria sido um momento que eu recordaria com alegria.
Naquela época, a reputação de Dante já era péssima, e depois daquele dia ficou ainda pior.
Sendo o filho legítimo, Dante não apenas chegou atrasado ao aniversário do pai, como apareceu de forma rebelde pilotando uma motocicleta. Vestido todo de preto com trajes de motociclista e ostentando suas pernas longas, ele surgiu diante de nós sob o ronco do motor.
Ele era realmente atraente, com cabelos tingidos de loiro, pele clara e um olhar cheio de insubordinação. Se o ambiente não fosse inapropriado, as mulheres presentes certamente teriam gritado por aquele jovem transgressor.
Enquanto todos se limitavam às regras sociais rígidas, ele ignorava os olhares e era apenas ele mesmo.
Contudo, minha impressão sobre ele não foi das melhores na época. Ele podia ser bonito, mas não podia intimidar meu noivo.
Dante e Lucas nunca se deram bem, e Dante também detestava o próprio pai. Por isso, quando o velho Cavalcante elogiou Lucas demonstrando favoritismo, Dante acelerou sua moto diretamente na direção de Lucas.
E eu fui ainda mais impulsiva que Dante: no momento em que ele estava prestes a atingir Lucas, eu me coloquei na frente.
A moto de Dante parou bruscamente. Ele usava um capacete preto e seus olhos frios cruzaram com os meus.
O olhar dele era gélido, mas eu não recuei, pronta para enfrentá-lo caso tocasse em um fio de cabelo de Lucas.
"E foi assim que você se tornou tão dedicada a mim? Mesmo enquanto protegia outro homem?", perguntou Dante agora.
Fiquei perplexa ao ouvir a história completa: "Dante, esse seu jeito de gostar é um tanto... peculiar".
Dante riu baixo: "Na verdade, aquele momento no banquete não me causou um grande impacto, apenas admirei sua coragem. Mas, depois, eu coincidentemente presenciei todo o processo de Lucas te abandonando. Você foi humilhada daquela forma e nem sequer deu um pio...".
Ao chegar nesse ponto, minha mão que segurava o urso parou, e eu gelei.
Naquela noite, após o banquete, eu queria um encontro com Lucas, mas Isadora fingiu estar doente e ele me largou para levá-la ao hospital.
O hospital e o local do encontro ficavam em direções opostas. Eu sabia que ela estava fingindo, por isso foi a primeira vez que tentei forçar Lucas a escolher entre mim e Isadora.
Mas Lucas recusou sem hesitar: "Bia, a Isadora não está bem, não podemos demorar".
Então ele partiu cruelmente com ela. Pensei depois que, se eu tivesse sido mais doce ou implorado, talvez ele não fosse tão frio.
Mas eu me recusei a fazer isso. Eu acreditava que, se ele me amasse, voltaria para me buscar.
Mas ele não voltou. Ele me deixou sozinha na rua, no meio da noite. Felizmente, acabei sendo levada para casa pelo motorista da família Cavalcante.
Só muito depois soube que o motorista fora enviado por Dante. Mas isso é outra história.
Dante continuou: "Eu pensei na hora: se uma garota dessas me amasse com toda a sua alma, seria maravilhoso".
"Então isso é inveja?", perguntei.
"Sim, inveja", ele fez uma pausa e acrescentou: "E... compaixão. Bia, prometa que no futuro só gostará de mim, está bem?".
O tom de Dante era o seu habitual, preguiçoso, mas carregado de sinceridade e expectativa.
Senti um aperto de emoção e um toque de doçura. Antes, lembrar disso era apenas amargura. Mas agora que tenho Dante, essa memória não é mais sombria.
É como passar por um período difícil acreditando estar sozinha, para depois descobrir que alguém esteve ali o tempo todo.
Mesmo que eu tenha me perdido enquanto amava Lucas.
Mas eu não admitiria isso diretamente para ele. Bufei: "Pode tirar o cavalinho da chuva! Você quase atropelou sua namorada e ainda tem coragem de me pedir exclusividade? Vá refletir sobre seus atos!".
Desliguei o telefone fingindo irritação.
A mensagem de Dante veio em seguida: "Minha boa Bia, amanhã eu te peço desculpas formalmente, não fique brava comigo, sim?".
Olhei para a mensagem com um sorriso bobo e respondi com arrogância: "Já que você está sendo tão atencioso, vou te dar uma chance".
Saindo da conversa, vi a mensagem de Gio e respondi: "Gio, eu gostava muito dele antes, mas hoje vejo que eu estava louca. Não nego o que senti, mas só agora entendi como o amor deve ser".
Antes que Gio pudesse responder, tirei um print desse texto e postei nas minhas redes sociais com a foto que tiramos hoje.
A legenda era: "O amor verdadeiro deve nos tornar pessoas melhores. Obrigada por gostar de mim".
Imediatamente, um número familiar apareceu na tela...
Era a primeira vez que Lucas me ligava desde que deixei Florianópolis.
Não atendi.
Deixei os onze dígitos brilharem e apagarem sozinhos.
Mas Lucas era insistente e ligou várias vezes. Quando parei de recusar, ele mandou uma mensagem:
"Bia, não seja tão cruel comigo. Por favor, atenda o telefone".
Cruel por não atender?
E quando ele me abandonou na frente de todos, ele não foi cruel?
Não entendi o raciocínio dele e apenas respondi: "Não temos nada para conversar. Se continuar, vou mandar o registro dessas ligações para a Isadora. Lucas, você não a ama tanto?".
"Bia, eu me arrependi, me arrependi de verdade. Já terminei o noivado com a Isadora". Eu não vi essa mensagem; já tinha bloqueado o número dele.
Enquanto isso, na adega da família Almeida em Florianópolis, Lucas estava jogado ao chão.
Ele não era mais o homem altivo de antes; parecia ter perdido seu bem mais precioso, cercado por garrafas vazias e com um olhar desolado.
Na tela do celular ainda brilhava o print da minha postagem, enviado por um amigo em comum. Lucas apertava o aparelho, quase o esmagando.
"Eu não gosto do Dante perto de você, Bia... Eu realmente me arrependi... Por favor, volte...".