"O que eu estou fazendo aqui?"
Dante soltou um riso frio e caminhou em minha direção com passos firmes. A atmosfera ao redor dele era gélida e opressiva.
Eu sabia que ele estava furioso.
Tiago tentou me puxar para trás. "Quem é esse cara? O que ele quer?"
Eu o segurei rapidamente. "É um amigo, está tudo bem. Espere um pouco."
Dante tem um temperamento difícil.
Lembrei-me de quando Lucas apenas me segurou e acabou sendo espancado por ele.
Fiquei preocupada que Dante pudesse bater no Tiago também. Isso eu não podia permitir de jeito nenhum!
Encarei o rosto sombrio de Dante e dei um passo à frente, ansiosa.
"Dante, por que você veio até aqui?"
Ao me ver protegendo o Tiago, Dante soltou um riso irônico de si mesmo. Ele pressionou a língua contra os dentes, com um olhar de autodesprezo.
"Eu sou mesmo um idiota."
Fiquei sem entender. O semblante de Dante estava péssimo. Ele me observou por um longo tempo antes de finalmente perguntar:
"Você partiu sem dizer nada a ninguém para vir para cá. Está feliz?"
Fiquei surpresa. O tempo com meus pais adotivos não era luxuoso como na casa dos Vasconcelos, mas eu estava realmente feliz. Além disso, agora eu tinha condições de protegê-los.
Balancei a cabeça e sorri com serenidade.
"Sim, eu gosto muito de estar aqui."
Dante recuou um passo. Sua voz soou rouca, como se estivesse reunindo muita coragem para fazer aquela pergunta: "E quanto a ele?"
"Hã?"
Segui o olhar dele e me virei para o Tiago, que estava atrás de mim segurando os iogurtes e a Coca-Cola. Com seu um metro e oitenta, ele encarava Dante como se estivesse pronto para arremessar a garrafa de refrigerante caso ele tentasse algo contra mim.
Esse meu irmão adotivo cuidava de mim muito melhor do que a Isadora, minha irmã de sangue.
Por isso, quando Dante perguntou "Ele é bom para você?", respondi sem hesitar:
"Sim, o Ti é o rapaz que melhor cuida de mim."
"Entendo." Ao ouvir minha resposta, aquela aura violenta e opressiva que emanava de Dante pareceu se dissipar instantaneamente.
Ele ficou abatido e baixou a cabeça. "Neste mundo, apenas aquele imbecil do Lucas não soube te valorizar."
"Mas você não é o único para mim."
A voz de Dante estava tão baixa que mal consegui ouvir. Tentei dar um passo em sua direção, mas ele recuou primeiro, mantendo uma distância considerável entre nós. Ele me lançou um olhar profundo, mas não disse mais nada. Virou-se e caminhou em direção ao seu carro.
Eu e Tiago trocamos olhares. Eu não entendia por que Dante agira daquela forma. Tiago me observou e perguntou:
"Mana, ele é seu novo namorado?"
"Ah... acho que não..."
Dante já se declarara várias vezes, mas eu nunca aceitara.
Tiago assentiu. "Acho que ele gosta de você."
"Como você sabe?"
Tiago respondeu: "Acho que se você terminou com o Lucas, deveria considerar esse cara."
"Por quê?"
"Sinto que ele é melhor que o Lucas."
Eu ri. "Você o viu por apenas um minuto e já acha que ele é bom? Quer tanto assim que sua irmã se case?"
"Não é isso. Se você quiser ficar em casa, pode ficar para sempre. Só acho que seria bom ter alguém para te proteger, em vez de você ter que estar sempre na linha de frente."
"Entendi."
Respondi ao Tiago, mas minha mente estava no comportamento de Dante. Senti um aperto no peito. "Ti, você acha que ele entendeu errado e pensou que você fosse meu namorado?"
"Se ele entendeu errado, você quer explicar?"
"Não... não sei."
Minha mente estava confusa. No fundo, eu não queria que Dante tivesse ido embora daquela forma, mas não sabia como expressar isso. Eu já o recusara tantas vezes que achava que ele nunca me amaria de verdade. Além disso, eu não queria sofrer mais por amor; só queria ganhar dinheiro e viver bem com meus pais adotivos.
Contudo, a imagem desolada de Dante não saía da minha cabeça.
Tiago caminhava atrás de mim. "Mana, uma garota me disse uma frase uma vez que achei que fazia muito sentido."
"O quê?"
"Em um relacionamento, se alguém sente necessidade de explicar algo para a outra pessoa, é porque quer ter um futuro com ela e não quer que existam mal-entendidos."
Fiquei paralisada por um bom tempo. Só reagi quando estávamos quase chegando em casa. "Tiago, você está namorando escondido? Sabe que está em um momento importante do ensino médio e não pode namorar agora!"
"E mesmo se estiver, não pode ser irresponsável com a garota! Entendeu?"
Tiago apressou o passo. "Mana, você é chata! Eu estou tentando te aconselhar! Não deixe a chance passar para não se arrepender depois!"
"Eu não vou me arrepender!" Abri a porta. "Entre primeiro, vou fazer uma ligação."
Tiago me olhou com um ar de "eu já sabia". "Não demore."
Fui para o corredor ligar para o Dante. Fiz um grande esforço mental antes de discar. O telefone tocou uma vez, mas ele não atendeu.
Senti um desânimo, um vazio no peito. E se Dante realmente tivesse entendido tudo errado? Se ele não atendesse minhas ligações, significaria que não queria mais falar comigo?
Mas o que eu diria a ele? Estou bem aqui, será que ainda devo manter contato com alguém daquele mundo de elite inalcançável?
Olhei para o número recusado e hesitei muito. Por fim, não resisti e liguei novamente.
Desta vez Dante atendeu, mas permaneceu em silêncio.
Ouvi o som do vento do outro lado da linha. Estava nervosa, mas disse o que precisava:
"Aquele rapaz de agora pouco era meu irmão. Dante... não entenda errado."
Meu coração batia acelerado. Dante continuou calado até que o som do vento cessou. Só então ouvi sua voz magnética soar lentamente: "Bia, por que você está me explicando isso?"
"Eu..."
Naquele instante, minha mão congelou segurando o telefone. Olhei pela janela para a lua crescente no céu.
Estava tudo tão silencioso que eu podia ouvir minhas próprias batidas cardíacas.
Dante me conhecia. Mesmo quando Lucas me entendia mal por causa da Isadora, eu nunca dizia uma única palavra para me defender.
Porque eu sabia que, no passado, mesmo que eu explicasse, Lucas não acreditaria.
Então agora... por que eu estava explicando para o Dante?
Houve mais um silêncio na linha.
A tela do celular brilhava; Dante não desligara. Ele estava lá, em silêncio, esperando pela minha resposta.