Bernardo não agia mais como antes, aparecendo diretamente diante de Leticia para proferir palavras de reconciliação ou desculpas.
Ele mudou sua estratégia. Ele comprou uma mansão exatamente em frente ao condomínio onde Leticia morava.
Todos os dias, ele se sentava diante da janela panorâmica no segundo andar daquela casa.
Através da rua não muito larga e do jardim, ele observava o lar de Leticia.
Ele a via sendo arrastada por Pietro para correr pela manhã, via-a franzir a testa ao comer o café da manhã — que continuava nada bom — preparado por Pietro, via-a ocasionalmente podando flores no quintal e via quando ela voltava do trabalho; Pietro sempre a esperava na porta, pegava sua bolsa e lhe dava um abraço.
No início, Leticia não deu importância.
Até que, certo dia, ao voltar tarde de um hora extra, ela viu a silhueta imóvel atrás da janela do segundo andar oposto, como uma sombra silenciosa na escuridão da noite.
Seu coração saltou, e uma fúria repentina e sem nome surgiu.
No dia seguinte, ela chamou a polícia.
Os policiais chegaram rápido e bateram à porta da mansão oposta. Bernardo apareceu na porta vestindo roupas caseiras, com uma expressão serena.
— Esta senhora fez uma denúncia afirmando que o senhor a está assediando e espionando — disse o policial formalmente.
Bernardo olhou para Leticia, que estava à porta de sua própria casa com o rosto gélido.
Ele curvou levemente os lábios, mas não havia alegria em seus olhos. Virou-se, pegou um documento sobre o móvel do hall e entregou ao policial.
— Este é o registro de propriedade da minha casa. Eu moro aqui e aprecio a vista pela minha janela; isso não é contra a lei, certo?
O policial verificou o documento, o endereço estava correto.
Olhou para a distância entre as duas mansões; embora perto, eram separadas pela rua e por seus respectivos jardins, tornando difícil definir aquilo como espionagem.
O policial olhou para Leticia, um tanto sem jeito.
Leticia, vendo a postura imperturbável de Bernardo, sentiu o peito arder de irritação. Ela sabia que ele fazia de propósito, usando aquele método suave, porém extremamente incômodo, para se infiltrar em cada detalhe de sua vida.
— Bernardo, o que exatamente você quer? — ela perguntou em voz baixa, cerrando os dentes.
Bernardo a encarou profundamente. Seu olhar percorreu as bochechas dela, levemente coradas de raiva, e o desprezo indisfarçável em seus olhos. Seu coração doía de forma aguda e constante.
— Não quero nada — ele ouviu sua própria voz calma dizer. — Apenas acho que a vista daqui é muito boa.
— Você! — Leticia ficou sem palavras de tanta raiva, mas não podia fazer nada contra ele.
— Se a Sra. Leticia se sente incomodada — continuou Bernardo, em tom quase educado —, pode simplesmente fechar as cortinas.
Leticia lançou-lhe um olhar furioso e bateu a porta com violência. Bernardo ficou parado no mesmo lugar, olhando para a porta fechada dela.
Aquela calma forçada finalmente desmoronou, revelando uma dor profunda.
Ele fechou as mãos com força ao lado do corpo.
Só assim ele conseguia sentir que ainda estava vivo.
Que ainda podia estar um pouco mais perto dela.
Pietro logo soube do ocorrido.
Ele não disse nada, mas no dia seguinte mandou instalar vidros de alta tecnologia com proteção de privacidade e cortinas extra grossas em todas as janelas voltadas para o outro lado.
Depois, arrastou Leticia ao shopping e comprou vários conjuntos de roupas de casal — infantis, engraçadas, românticas — trocando de visual todos os dias.
Todas as manhãs, ao sair para correr, ele fazia questão de fazer alongamentos exagerados no jardim com Leticia, e então dava um beijo ruidoso no rosto dela, garantindo que o som fosse ouvido do outro lado.
Ao voltar do trabalho à noite, ele não se contentava mais em abraçá-la na porta; ele a pegava no colo e a carregava para dentro de casa, fechando a porta com o pé.
Era infantil, mas carregava uma arrogância de quem declarava posse.
Leticia permitia que ele fizesse aquilo; às vezes achava engraçado, às vezes sentia o coração amolecer.
Ela sabia que Pietro estava usando seu próprio jeito para dizer a ela — e ao homem do outro lado — que ela era dele. Que eles estavam bem. Que intrusos não eram bem-vindos.
Naquele dia, Pietro foi ao Grupo Xu buscar Leticia. Ela estava terminando o último documento e ficou surpresa ao vê-lo: — O que faz aqui em cima?
Pietro estava vestido formalmente hoje, em um terno cinza-escuro impecável que realçava seu porte.
A aura de playboy estava contida, revelando uma elegância madura.
Em suas mãos, ele trazia um buquê de rosas vermelhas intensas.
— Vim buscar minha esposa — disse ele sorrindo. Colocou as rosas sobre a mesa de trabalho e, como num passe de mágica, tirou um estojo de veludo azul do bolso.
Leticia olhou para o estojo e percebeu o que estava por vir; seu coração falhou uma batida.
O escritório estava silencioso, e a luz do entardecer através da janela panorâmica banhava tudo com um dourado quente. Pietro ajoelhou-se diante dela.
Naqueles olhos que sempre traziam um sorriso despreocupado, havia agora uma seriedade e solenidade sem precedentes.
— Lê — começou ele, com um nervosismo perceptível na voz —, eu sei que o nosso casamento começou de forma absurda. Como uma farsa e como um negócio. Sei que, quando casou comigo, não havia lugar para mim em seu coração. E talvez... você ainda não tenha superado totalmente o passado. Não tem problema.
Ele abriu o estojo, revelando um anel de diamante de design simples, porém brilhante.
— Eu não te forço a me aceitar completamente agora, nem te obrigo a me amar neste instante. Estou ajoelhado aqui hoje, com este anel, não para exigir um compromisso imediato. Só quero te dizer que, de hoje em diante, vou te cortejar, te amar e te proteger abertamente. Como um homem, como um marido.
— Você não precisa responder com pressa, eu esperarei. Esperarei até você enxergar seu próprio coração, até você estar disposta a caminhar verdadeiramente em minha direção. Fique com este anel. No dia em que sentir que está pronta, que quer isso, então coloque-o. Leticia, usarei todo o tempo que me resta nesta vida para te provar que eu, Pietro, mereço que você me confie o seu destino. Eu te amo. Muito, muito mesmo.
Leticia olhou para ele, para o anel cintilante e para o seu próprio reflexo nos olhos dele.
Seu coração parecia mergulhado em água morna, sensível e transbordando.
Aquelas defesas erguidas deliberadamente, as dúvidas e inseguranças do passado, pareciam derreter diante daquela sinceridade ardente e pura.
Ela estendeu a mão, não para pegar o anel, mas para tocar levemente o rosto dele.
Pietro estacou por um segundo, e então uma alegria imensa brilhou em seu olhar; ele roçou o rosto na palma da mão dela, como um cão de grande porte recebendo carinho.
— Pietro — Leticia ouviu sua própria voz, um pouco rouca, carregada de uma ternura que ela mesma não percebera —, você é realmente... um bobo.