A Leticia à sua frente não era mais a menina que chorava por atenção, nem a garota boba que se feria por amor.
Ela estava ali, pálida e fraca, com bandagens na cabeça, mas com um olhar afiado como navalha, emanando uma força gélida de quem renascera das cinzas.
Helena percebeu que, talvez, tivesse perdido aquela filha para sempre.
Uma semana depois, Leticia recebeu alta. Simultaneamente, o Grupo Xu emitiu um comunicado: o fundador, Sr. Augusto, renunciava à presidência e a todos os cargos por motivos de saúde.
Sua filha, Sra. Leticia, com a vantagem absoluta de 51% das ações, tornava-se a nova Presidente e maior acionista do grupo.
A notícia abalou o mundo corporativo de São Paulo.
Ninguém esperava que a segunda filha dos Xu, antes vista como rebelde e depois silenciada, retornasse com tamanha força, tomando o controle da empresa familiar de um só golpe.
No dia da assembleia de acionistas, Leticia vestia um terno preto impecável.
Apesar do curativo na testa e da palidez, seu olhar era firme e ela caminhou decidida até a sala de reuniões.
O Sr. Augusto foi trazido em uma cadeira de rodas; seu rosto estava cinzento e seu olhar para Leticia era de fúria e incredulidade.
— Filha rebelde! Como ousa usurpar o meu poder?! — gritou ele, com os dedos tremendo.
Leticia sentou-se na cadeira da presidência, percorrendo com o olhar os diretores presentes antes de fixar os olhos no pai, curvando levemente os lábios.
— Usurpar o poder? — repetiu ela, com a voz clara. — Sr. Augusto, a partir do momento em que o senhor escolheu tratar a filha de outra pessoa como um tesouro e a sua própria como lixo, permitindo que ela me machucasse repetidamente por causa de uma culpa ridícula, o senhor deveria ter previsto este dia.
— Todos aqui sabem de quem é a responsabilidade pelo estado atual do Grupo Xu. — Seu olhar varreu os presentes com uma pressão invisível. — De agora em diante, eu assumo o controle. Posso ignorar o passado, mas daqui para frente, o Grupo Xu terá apenas uma voz.
Ela olhou para o pai furioso e para a mãe aflita ao lado dele.
— Quanto aos dois, — disse Leticia friamente — por respeito ao tempo que foram casados, dou-lhes duas opções.
— Primeira: o divórcio. A mansão da família e alguns ativos que não afetam a empresa ficarão com vocês para a aposentadoria. O passado será encerrado.
— Segunda: continuem juntos. Mas, nesse caso, devem deixar a empresa e a cidade. Nada mais do Grupo Xu terá vínculo com vocês.
Augusto tremia de ódio: — Ingrata! Como ousa me expulsar?!
Leticia ignorou-o e olhou para a Sra. Helena: — Qual a sua escolha?
Helena olhou para o olhar frio da filha e depois para o homem ao seu lado, a quem amara e servira com humildade a vida inteira, e que agora apenas demonstrava fúria e indiferença por ela.
Décadas de mágoa e humilhação transbordaram naquele instante. Ela fechou os olhos e, ao abri-los, restava apenas uma desolação resoluta.
— ... Escolho a primeira — disse ela com voz rouca. — Eu quero o divórcio.
— Miserável! Até você me trai?! — Augusto virou-se bruscamente para Helena com ódio.
Helena pareceu não ouvir; apenas levantou-se exausta, fez uma leve reverência em direção a Leticia e saiu da sala de reuniões sem olhar para trás.
Suas costas estavam curvadas, mas ela carregava uma leveza de quem se libertara.
Augusto, sem forças, desabou na cadeira de rodas, parecendo envelhecer dez anos instantaneamente.
Leticia não olhou mais para ele.
Voltou-se para os acionistas: — Agora, daremos início à votação para a destituição formal do Sr. Augusto do cargo de Presidente.
A reunião terminou e a poeira baixou. Leticia saiu do edifício do Grupo Xu apoiada em Pietro. O sol estava forte e ela protegeu os olhos com a mão.
— Cansada? — Pietro perguntou baixinho, cuidando de cada detalhe.
— Um pouco — Leticia encostou-se nele, permitindo-se demonstrar exaustão.
— Vamos para casa, vou preparar uma sopa para você se recuperar — Pietro abraçou-a pelos ombros, conduzindo-a ao carro.
Após alguns passos, Leticia parou e olhou uma última vez para o alto edifício da empresa. Uma mão pousou suavemente em sua cabeça, acariciando-a.
— Já passou — a voz de Pietro soou ao seu ouvido com um calor reconfortante. — Agora, você tem a mim.
Leticia virou-se e encontrou o olhar terno e firme dele. O vazio em seu coração parecia ser preenchido aos poucos. Ela assentiu levemente e deixou-se guiar para dentro do carro.
Perto dali, um sedan preto estava estacionado.
O vidro baixou, revelando o perfil silencioso de Bernardo. Ele observava Leticia ser amparada por Pietro e entrar no veículo.
Viu como ela encostou a cabeça no ombro de Pietro com total confiança e dependência.
Aquele gesto perfurou seu coração como uma agulha fina. Não era uma dor aguda, mas era constante e profunda.
Finalmente ele entendeu que a rebeldia dela no passado fora apenas o grito de uma criança que não recebia amor, clamando de forma errada: "Olhem para mim, eu também preciso de amor".
E ele, repetidamente, ignorara aquele grito, empurrando-a para ainda mais longe. Agora, ele perdera até o direito de se aproximar.
O assistente relatou em voz baixa: — Sr. Bernardo, sobre a Sra. Valentina...
Bernardo desviou o olhar e subiu o vidro, isolando-se do mundo.
— Prossiga com o plano original — disse ele, sem qualquer emoção. — Mantenha vigilância 24 horas; não a deixe morrer, mas não a deixe acordar. Além disso, exponha gradualmente toda a sujeira que ela escondia. E quanto aos Xu... aqueles pais parciais também devem pagar o preço.
— Sim, senhor.
O carro deu partida e sumiu no tráfego. Bernardo recostou-se no banco e fechou os olhos, escondendo a solidão e a dor profunda que carregava.
A turbulência da troca de comando nos Xu acalmou-se. Leticia reestruturou a empresa com punho de ferro e estabilizou a situação.
Embora a parceria com Bernardo tivesse terminado, a Wildfire Capital de Pietro injetou capital no momento certo e, com o talento de Leticia, o Grupo Xu começou a prosperar novamente.
A vida parecia ter voltado aos eixos. Exceto pelo fato de que as aparições de Bernardo tornavam-se cada vez mais frequentes.