— Acabou... tudo acabado... — A Sra. Helena chorava convulsivamente.
— Aquela maldita da Valentina! Ela não sabe quem ofendeu, mas todos os seus escândalos e a vida suja que levava foram expostos! O estúdio dela está sendo investigado por sonegação de impostos e fraude comercial! A polícia já abriu um inquérito! E ela mesma sofreu o acidente, está em coma no hospital, como um vegetal!
— ... O Bernardo, por algum motivo, interrompeu subitamente toda a cooperação com a família Xu e... ainda se aliou a outros bancos e parceiros para nos boicotar! As ações da empresa despencaram, vários projetos pararam e o capital está prestes a esgotar! Seu pai teve um ataque cardíaco de tanto desespero e também está internado... a família Xu... a família Xu vai à falência!
A Sra. Helena agarrou as mãos de Leticia, gritando em desespero:
— Lê, a mamãe sabe que a família errou com você, que fomos parciais e te magoamos... Mas a empresa foi o trabalho de uma vida do seu avô, do seu pai... você não pode assistir a tudo desmoronar! Eu te imploro, fale com o Sr. Diretor... não, fale com o Pietro, peça para ele ter misericórdia e poupar os Xu! Ou... ou vá implorar ao Bernardo, afinal vocês... vocês dois antes...
— Eu posso ajudar a família Xu — Leticia começou lentamente.
Os olhos da Sra. Helena brilharam de esperança.
— Mas tenho duas condições.
— Diga! Diga! A mamãe aceita qualquer condição! — Helena assentiu apressadamente.
Leticia olhou para ela e disse cada palavra com clareza:
— Primeira: eu quero 51% das ações do Grupo Xu.
Helena arqueou as sobrancelhas, incrédula: — Você... você quer o controle acionário do Grupo Xu?
— Sim. — Leticia assentiu, sem margem para negociação. — Quero me tornar a maior acionista, com poder de decisão absoluto.
O rosto da Sra. Helena mudou várias vezes. Ações significavam controle; dar 51% a Leticia significava que a família perderia o domínio sobre a empresa. Como isso seria melhor do que a falência?
— Segunda, — Leticia continuou, fixando o olhar nos olhos da mãe — eu quero saber o porquê.
— Por que, desde pequena, seus olhos só viam a Valentina? Por que, sendo ambas filhas, ela podia ter tudo e eu não recebia nem o básico de justiça? Por que vocês me trataram assim?
Sua voz era calma, como se perguntasse sobre o clima.
Mas para a Sra. Helena, cada palavra era como uma faca abrindo a verdade sangrenta que ela tentara esconder.
O rosto de Helena empalideceu, seus lábios tremiam e ela desviou o olhar, sem coragem de encarar a filha.
— Fale. — Leticia pronunciou apenas uma palavra, mas carregada de peso.
O quarto mergulhou num silêncio mortal. Por fim, como se perdesse todas as forças, a Sra. Helena desabou no chão, cobriu o rosto e chorou amargamente.
— Eu conto... eu conto... — soluçava ela, revelando o segredo guardado por mais de vinte anos.
— A Valentina... ela não é minha filha... nem filha biológica do seu pai...
As pupilas de Leticia contraíram-se levemente.
— Ela... ela é filha da primeira paixão do seu pai... aquela mulher era o verdadeiro amor dele, eu fui apenas... um produto de um casamento por conveniência... — A voz de Helena estava cheia de dor e autodepreciação. — Aquela mulher morreu no parto, e seu pai... ele trouxe a Valentina para casa, registrou-a como sua e despejou nela toda a culpa e o amor que sentia pela falecida...
— Eu tinha ódio... como não ter? Eu era a esposa oficial, mas o coração dele nunca foi meu... A existência da Valentina me lembrava a todo instante que meu marido amava outra... Mas eu... eu o amava demais, um amor humilhante que me fez perder a identidade...
— Eu não ousava me opor, apenas encenava com ele, fingindo tratar a Valentina como minha, e até... para agradá-lo, para que ele me olhasse, eu te ignorei, te deixei de lado e dei tudo de bom para ela... Porque eu sabia que só tratando bem a Valentina ele me daria alguma atenção...
Helena ergueu o rosto banhado em lágrimas, olhando para Leticia com profundo arrependimento:
— Lê... minha filha... me perdoe... não é que a mamãe não te amasse, eu apenas... fui cegada pelo suposto amor... Ignorei seus sentimentos, te machuquei... eu sei que errei, eu realmente errei...
Ela tentou engatinhar para segurar a mão de Leticia, mas a filha esquivou-se suavemente.
Leticia sentava-se ereta na cama, sem expressão.
Sem raiva, sem tristeza, sem choque.
Havia apenas uma calma desolada e a percepção de uma ironia cruel.
Então era isso. Mais de vinte anos de injustiça, de falta de amor e de luta por um porquê, tudo por causa de uma substituta ridícula.
Por causa da culpa de um pai por uma falecida e da humilhação de uma mãe por um amor miserável. Ela fora uma piada completa.
Leticia começou a rir.
Primeiro baixo, depois o riso aumentou até ficar incontrolável, com os ombros tremendo e lágrimas surgindo. Mas não havia alegria em seu rosto, apenas escárnio e melancolia.
— Lê... Lê, não fique assim... a mamãe te implora... — Helena, assustada com o riso, tentava abraçá-la chorando.
Leticia parou de rir, ergueu a mão e limpou as lágrimas no canto dos olhos.
— Certo, eu entendi. — Ela olhou para a mãe com uma voz fria e decidida. — Vou pedir aos advogados que preparem o acordo de transferência de ações. Assim que assinado, eu resolvo a crise do Grupo Xu.
— Quanto a vocês dois, — ela fez uma pausa, olhando para o rosto pálido de Helena — sigam suas vidas.
Helena olhou para ela, como se estivesse conhecendo a própria filha pela primeira vez.