O impacto dos joelhos contra o asfalto áspero produziu um som surdo, mas Bernardo parecia não sentir nada.
Seus olhos estavam fixos no rosto pálido de Leticia e naquele sangue rutilante; suas pupilas contraíram-se, o sangue fugiu de seu rosto e até seus lábios tremiam.
— ... Lê... — ele chamou com a voz falha, um som completamente quebrado.
Ele quis avançar, quis tocá-la para confirmar que ainda estava viva, mas seu corpo parecia congelado, incapaz de se mover.
Um pavor imenso e um arrependimento tardio o inundaram como uma maré gélida.
Fora ele... fora ele quem falhara em protegê-la... fora ele quem a empurrara repetidamente, deixando-a vulnerável ao perigo...
— Saia daqui!
Um rugido carregado de fúria o despertou.
Pietro abraçava Leticia como se protegesse um tesouro recuperado e virou o corpo bruscamente, bloqueando com o próprio ombro a mão que Bernardo estendia.
Ele ergueu o rosto, e o olhar que lançou a Bernardo era de um gelo e uma repulsa nunca vistos antes.
— Você não tem o direito de tocá-la.
Cada palavra era destilada em puro ódio.
A mão de Bernardo travou no ar, com as pontas dos dedos geladas.
Olhando para a Leticia inconsciente nos braços de Pietro, sentiu o coração ser esmagado por uma mão invisível; a dor era tanta que ele mal conseguia respirar.
— Deixe-me vê-la... — sua voz era um sussurro, um súplico humilde.
— Ver? — Pietro soltou uma risada de desprezo que não chegava aos olhos; havia apenas uma fúria incandescente e a desolação de um coração partido. — Ver como ela quase morreu por causa das suas sujeiras? Bernardo, fique longe dela! Se não fosse por você, ela nunca teria...
Ele não terminou a frase, pois o som das sirenes da ambulância já ecoava ao longe.
Pietro levantou Leticia com cuidado, mas com uma firmeza absoluta, e correu em direção à ambulância que se aproximava, sem olhar mais uma vez para o Bernardo ajoelhado no chão.
Os paramédicos desceram rapidamente, assumiram o cuidado de Leticia, realizaram os primeiros socorros e a colocaram na maca. Pietro subiu logo em seguida.
Antes de a porta fechar, ele lançou um último olhar para Bernardo, que permanecia ajoelhado como se tivesse perdido a alma.
O olhar de Pietro era cortante como navalha.
A ambulância partiu em disparada, levantando poeira. Bernardo continuou ali, imóvel, como uma escultura sem vida. Só reagiu quando seu assistente, trêmulo, aproximou-se para ajudá-lo:
— Sr. Bernardo...
Bernardo recobrou os sentidos bruscamente.
Afastou a mão do assistente e levantou-se sozinho aos tropeços. Sua calça estava suja de terra e os joelhos doíam, mas nada se comparava à dor lancinante em seu peito.
Ele olhou para a mancha de sangue escuro no asfalto — o sangue que escorrera da testa de Leticia. Seus olhos tornaram-se vermelhos, tomados por uma tempestade devastadora.
— Investigue.
— Descubra quem fez isso. Revire a cidade de cabeça para baixo, mas encontre o culpado.
O assistente, apavorado com a crueldade no olhar do chefe, baixou a cabeça: — Sim, Sr. Bernardo!
Bernardo lançou um último olhar para a direção onde a ambulância desaparecera e caminhou, passo a passo, em direção ao próprio carro.
Sua postura era ereta, mas emanava uma solidão e uma frieza desesperadoras. Ele sabia quem era.
Quase não precisava investigar.
Ele apenas precisava das provas para fazer aquela pessoa pagar mil vezes o preço.
No hospital, o cheiro de antisséptico era onipresente. Leticia fora levada para a emergência.
Pietro encostou-se na parede fria e escorregou até o chão.
Suas mãos e roupas ainda tinham o sangue dela; aquele vermelho escuro era insuportável de ver.
Ele baixou a cabeça, cravando os dedos nos cabelos, com os ombros tremendo involuntariamente.
O medo, o trauma, a fúria e a dor... todos os sentimentos se misturavam, ameaçando destruí-lo.
O tempo passava como uma tortura. Horas depois, a porta da emergência abriu. Pietro levantou-se num salto: — Doutor, como ela está?
— A paciente está fora de perigo — o médico retirou a máscara com uma expressão tranquila. — Traumatismo craniano leve, concussão, fratura no braço esquerdo, fissura nas costelas e várias contusões nos tecidos moles.
Não há risco de morte, mas ela precisa ser internada para observação e tratamento.
Ao ouvir "fora de perigo", a tensão de Pietro cedeu bruscamente; suas pernas fraquejaram e ele quase caiu novamente.
Precisou se apoiar na parede para manter o equilíbrio. Logo, Leticia foi levada para a suíte VIP. Ela estava com a cabeça enfaixada, pálida e imóvel na cama, como uma boneca de porcelana frágil.
Pietro sentou-se ao lado da cama e segurou firmemente a mão dela que não estava ferida. Ele a observava sem piscar, como se ela fosse desaparecer se ele desviasse o olhar por um segundo.
— Me perdoe... — sussurrou ele com a voz embargada. — Eu falhei em te proteger... me perdoe...
Ele encostou o rosto na palma da mão dela, e lágrimas quentes molharam a pele de Leticia.
Bernardo estava no fim do corredor, observando a cena pelo vidro da porta.
Ele via Pietro segurando a mão dela, via-o baixar a cabeça com os ombros tremendo.
Via a Leticia pálida e fraca.
Seu coração parecia ser retalhado por uma faca cega. Ele queria entrar, tirar Pietro dali e segurar a mão dela, dizer o quanto estava arrependido. Mas ele sabia que não tinha esse direito.
As palavras de Pietro — "você não tem o direito de tocá-la" — ecoavam em sua mente como uma maldição.
Fora ele quem a empurrara para o abismo repetidamente. Desta vez, quase fora um adeus definitivo.
Bernardo fechou os olhos e, ao abri-los, restava apenas uma determinação gélida.
Ele virou-se e deixou o hospital.
A noite estava sombria. Numa mansão isolada no subúrbio, Valentina retocava o batom diante do espelho.
Ela acabara de saber que Leticia sofrera um acidente grave e estava entre a vida e a morte.
Excelente.
Aquela maldita já deveria ter morrido. Roubara seu Bernardo, roubara tudo o que deveria ser dela!
Agora, sem Leticia, Bernardo voltaria para ela, e o título de Sra. Bernardo e tudo do Grupo Bernardo seriam dela!
Ela sorriu vitoriosa, pousou o batom e pegou o celular para ver se havia notícias na internet. Nesse instante—
"BANG!"
Um estrondo violento ecoou quando a pesada porta da mansão foi escancarada por um chute!