Leticia não disse nada, apenas virou-se e caminhou até a porta.
Antes de abri-la, parou; sem olhar para trás, sua voz saiu suave, mas chegou com clareza aos ouvidos de Pietro:
— Se a cabeça doer, durma mais um pouco. Vou pedir o café da manhã por entrega.
Dito isso, abriu a porta e saiu. A porta fechou-se suavemente. Pietro, sentado na cama, olhou fixamente para a porta por um longo tempo.
De repente, jogou-se de volta no colchão, cobriu a cabeça com o edredom e soltou um urro abafado — não se sabia se de frustração ou de alegria contida.
Do lado de fora, Leticia encostou as costas na parede e soltou um longo suspiro. Levou a mão às orelhas, que estavam levemente quentes.
Pela janela, o sol brilhava intensamente.
Os dias pareciam não ter mudado em nada, mas algo, silenciosamente, estava se transformando.
Leticia não mencionou mais a separação de quartos.
Pietro continuava dormindo no quarto de hóspedes, mas todas as manhãs encontrava algum pretexto para entrar na suíte principal, recusando-se a sair da cama ou parando na porta com o travesseiro nas mãos, dizendo com um olhar carente: "Tive um pesadelo, me deixa ficar aqui?".
No início, Leticia o recebia com frieza, depois com resignação e, por fim, com uma aceitação silenciosa.
Certa manhã, Leticia acordou envolta em um calor aconchegante. Percebeu que estava encolhida nos braços de Pietro; o braço dele envolvia sua cintura e o queixo dele descansava no topo de sua cabeça, em um sono profundo.
A luz da manhã, filtrada pela fresta da cortina, criava sombras em seu rosto. Dormindo, ele perdia a arrogância habitual, parecendo calmo e até... dócil.
Leticia não se mexeu, apenas o observou em silêncio.
Reparou em suas pestanas longas, no nariz bem desenhado e nos lábios de traços elegantes, levemente cerrados. Seu coração, sem perceber, falhou uma batida.
Nesse momento, as pestanas de Pietro tremeram e ele abriu os olhos lentamente. Seus olhares se cruzaram.
O ar estava impregnado de uma atmosfera sutil e íntima. Leticia viu a confusão inicial do despertar nos olhos dele, que logo se tornou lucidez, refletindo a imagem dela.
Pietro pareceu surpreso por um instante, mas logo um sorriso suave surgiu em seus olhos expressivos, acompanhado de um nervosismo quase imperceptível.
— Bom dia — ele disse. Sua voz tinha a rouquidão do despertar, sensual e envolvente.
— ... Bom dia — Leticia respondeu, com a voz um tom mais baixo que o normal.
Eles estavam muito próximos, sentindo a respiração um do outro.
O olhar de Pietro desceu lentamente para os lábios dela. Ele engoliu em seco, de forma quase imperceptível.
Então, começou a baixar a cabeça, bem devagar. Leticia via o rosto dele se aproximar, sentindo o aroma fresco de sabonete misturado com o cheiro único dele. Seu coração disparou.
Pouco antes de seus lábios se tocarem, Pietro parou. Sua respiração aquecia o rosto dela, trêmula.
Ele a encarava com um olhar profundo, e sua voz soou extremamente rouca:
— ... Posso?
Ele estava pedindo permissão.
Com um cuidado que beirava a devoção. Leticia viu o desejo explícito nos olhos dele e, por baixo disso, um respeito contido e profundo. Ela não disse nada.
Apenas fechou os olhos lentamente. Suas longas pestanas tremeram levemente.
Aquela aceitação silenciosa foi como uma faísca que acendeu o fogo nos olhos de Pietro.
Sem hesitar, ele baixou a cabeça e selou os lábios dela com um beijo terno. Foi um beijo leve, exploratório, carregado de cuidado e carinho, como se tocasse um tesouro frágil e raro.
Leticia sentiu os dedos se contraírem levemente, mas não o afastou.
O beijo foi suave e breve, mas foi como uma pedra lançada em um lago, criando ondas incessantes em seu coração.
Ao terminar, Pietro afastou-se apenas o suficiente para encostar sua testa na dela, com a respiração ainda descompassada.
Ele olhava para ela, para seu rosto corado e suas pestanas trêmulas, com um brilho intenso nos olhos.
— Leticia... — ele sussurrou o nome dela, com uma alegria incontida e um leve tremor de incerteza.
Leticia abriu os olhos e mergulhou naquele olhar cheio de luz.
Naquela terra do seu coração, desolada por tanto tempo, algo parecia estar renascendo, como uma pequena e tímida flor desabrochando.
Ela não respondeu, apenas escondeu o rosto no pescoço dele.
Pietro ficou rígido por um segundo, mas logo a abraçou com ainda mais força, como se abraçasse toda a luz do seu mundo.
Os dias não mudaram drasticamente após aquele beijo matinal.
Pietro continuava com seu jeito despreocupado, "fazendo bagunça" na cozinha todos os dias e servindo suas "obras de arte" sob o olhar de reprovação ou resignação de Leticia.
No entanto, o olhar dele, em momentos casuais, revelava algo mais profundo; não era mais apenas brincadeira, mas um cuidado precioso e uma fixação em gravar cada expressão dela na memória.
Leticia às vezes percebia, às vezes fingia não ver. Ela precisava de tempo para processar.
Processar aqueles anos de amor platônico escondidos sob ironias; processar a sinceridade inesperada por trás daquele casamento aparentemente absurdo.
Ela não era mais a jovem que se entregava cegamente ao amor; seu coração cheio de cicatrizes erguera muros altos, e ela precisava ter certeza de que quem estava do lado de fora não trazia outra tempestade, mas sim um porto seguro para ancorar.
Pietro parecia entender a hesitação dela; não pressionava, não tinha pressa, apenas infiltrava-se em sua vida com seu jeito quente e barulhento.
Até aquela tarde. Leticia recebeu uma ligação urgente: o canteiro de obras do novo empreendimento em São Paulo estava com problemas e precisava da presença dela.
— Eu te levo — Pietro pegou as chaves do carro.
— Não precisa, eu vou dirigindo, resolvo as coisas e vou direto para a empresa; tenho uma reunião à noite — disse Leticia enquanto trocava os sapatos, com tom profissional e decidido.
Pietro franziu a testa: — Então eu peço para o motorista te levar, ou eu vou seguindo em outro carro.
— Pietro — Leticia parou e olhou para ele, um tanto resignada —, eu não sou uma boneca de porcelana. É logo ali no subúrbio, a estrada está ótima, eu dou conta.
Diante da insistência dela, Pietro cedeu, mas fez questão de acompanhá-la até a garagem e vê-la entrar no SUV preto.