As lágrimas de Valentina começaram a cair. Ela tentou segurar a mão de Bernardo, mas ele se esquivou.
"Bernardo, você me entendeu mal! Eu só queria o bem da Lê, tenho medo de que ela seja enganada...", ela chorava de forma deplorável.
Antes, Bernardo talvez se sentisse sensibilizado, mas agora aquela fragilidade parecia puramente hipócrita.
"Vá para o seu quarto", ordenou Bernardo, sem qualquer calor na voz. "Agora."
Valentina olhou para ele incrédula. Ao ver o desprezo evidente nos olhos dele, percebeu que as coisas estavam saindo do seu controle.
Ela cobriu o rosto e saiu correndo. Sob o arco de flores, restaram apenas Bernardo e Leticia.
O ar estava impregnado com o perfume frio das rosas e um silêncio constrangedor.
Bernardo olhou para Leticia.
Ela estava sob a sombra das flores, serena, como se o teatro anterior não lhe dissesse respeito.
Ele engoliu em seco e começou a falar com dificuldade: "Ontem... na mansão... me desculpe. Eu bebi demais, perdi o controle."
Leticia ergueu os olhos e o encarou com indiferença.
"Não precisa se desculpar", disse ela com voz firme.
"De agora em diante, nossa relação é apenas de cunhados. Manter distância será melhor para ambos."
"Cunhados...", repetiu Bernardo.
Ele sentiu um peso no peito, uma dor que o impedia de respirar. "Lê... as coisas entre nós... têm que ser assim?"
Leticia viu o sofrimento estampado no rosto dele e, de repente, deu um sorriso leve. Aquele sorriso, aos olhos de Bernardo, doeu mais do que qualquer acusação.
"Bernardo, você sabe de uma coisa?", a voz de Leticia tinha uma leveza estranha. "Ver você assim... sofrendo, arrependido, querendo consertar as coisas mas sem poder fazer nada..."
Ela fez uma pausa e disse com clareza:
"É muito gratificante."
Sem olhar para o rosto pálido dele ou para suas pupilas contraídas, ela virou-se e seguiu pelo caminho, partindo sem hesitar. Bernardo ficou estático.
O vento soprava com o frio do outono, mas nada se comparava ao gelo em seu coração. As palavras dela eram como uma faca cega, torturando sua alma.
Uma semana depois, ocorreu a licitação para o novo projeto do Grupo Xu no salão de festas de um hotel de luxo.
Este projeto era vital para a estratégia futura dos Xu e atraiu as maiores empresas da cidade.
Tanto o Grupo Bernardo quanto a "Wildfire Capital", fundada de forma independente por Pietro, estavam na disputa.
O salão estava brilhante, repleto de figuras influentes trocando apertos de mão. Bernardo, representando sua empresa, chegou cedo.
Ele vestia um terno cinza-escuro sob medida, mantendo sua aura nobre, mas estava distraído, buscando a entrada com o olhar.
Quando a figura familiar finalmente apareceu, sua respiração falhou.
Leticia chegara. Ela não estava lá como a segunda filha dos Xu, mas como consultora de projetos da "Wildfire Capital".
Usava um conjunto de veludo cinza-chumbo, com um corte impecável que realçava sua silhueta.
Seu cabelo estava preso em um coque baixo elegante, revelando um pescoço longo e gracioso.
Sua maquiagem era poderosa e seu olhar, firme.
Ela exalava uma aura de força e competência que Bernardo nunca vira antes.
Não era mais a garota rebelde que vivia em baladas, mas uma profissional pronta para o combate no mundo dos negócios.
Bernardo observava-a com emoções complexas: admiração, estranheza e uma perda inexplicável.
Ele percebeu que nunca a conhecera de verdade.
Valentina, representando os Xu, também estava presente.
Ao ver o visual de Leticia e os olhares de admiração ao redor, seu rosto escureceu. A licitação começou e as empresas apresentaram suas propostas.
Quando anunciaram a "Wildfire Capital", Leticia levantou-se com confiança e caminhou até o púlpito.
Sob os holofotes, ela ajustou o microfone e começou seu discurso com voz clara e lógica impecável.
Os dados eram sólidos, as análises de mercado precisas e as soluções inovadoras.
Ela demonstrou um profissionalismo altíssimo, deixando a plateia impressionada.
Cochichos começaram no salão: "Aquela é a segunda filha dos Xu? Leticia?", "Diziam que ela era apenas um rosto bonito, mas esse nível técnico supera muitos consultores sêniores!", "Parece que os Xu esconderam um tesouro... a Wildfire Capital veio preparada."
Bernardo, na plateia, não conseguia desviar o olhar.
Ouvindo seus argumentos claros e vendo sua postura decidida, sentiu-se profundamente abalado. Ele nunca vira aquele lado dela.
A Leticia que ele conhecia era movida por emoções — amor, raiva, rancor. Mas a mulher no palco era fria, racional e poderosa.
Ele percebeu que seu suposto "conhecimento" sobre ela fora apenas um preconceito arrogante. Ele nunca tentara ver o talento por trás da superfície.
Valentina, sentada perto dali, apertava as mãos com força.
Vendo o brilho de Leticia e os olhares admirados, especialmente o olhar focado de Bernardo, o ciúme a corroía como veneno.
Por que Leticia parecia ser melhor em tudo?
Até mesmo sua capacidade comercial, de que tanto se orgulhava, estava sendo superada.
O discurso terminou sob aplausos calorosos.
Leticia agradeceu e voltou para o lado de Pietro.
Pietro inclinou-se e sussurrou algo em seu ouvido, e Leticia sorriu levemente.
Aquela imagem, mais uma vez, feriu profundamente os olhos de Bernardo.