O Sr. Augusto aceitou o chá, tomou um gole e pousou a xícara com sobriedade: "Agora que se casaram, são adultos. Comportem-se com maturidade."
A Sra. Helena recebeu a xícara, acariciando levemente a borda com as pontas dos dedos enquanto fixava o olhar em Pietro, com segundas intenções: "Pietro, o casamento não é brincadeira. Agora que constituiu família, deve assentar a cabeça e parar de agir de forma imprudente como antes."
O olhar dela varreu Leticia de relance, carregado de insinuações.
Pietro abriu um sorriso largo e envolveu os ombros de Leticia com desdém: "Mãe, fique tranquila! Seu filho agora é o marido perfeito. Prometo seguir todas as regras e mimar minha esposa até causar inveja em todos!"
Suas brincadeiras aliviaram um pouco o constrangimento, mas fizeram com que a Sra. Helena franzisse a testa quase imperceptivelmente. Após o ritual, todos se dirigiram à sala de jantar para o almoço.
Durante a refeição, Valentina mostrou-se extraordinariamente entusiasmada, servindo comida para Leticia: "Lê, experimente isto, era o seu prato favorito antigamente."
O tom era carinhoso, como se nunca tivesse havido conflito entre as irmãs. Leticia olhou para a costelinha agridoce em sua tigela; antes, talvez se sentisse comovida por Valentina lembrar-se de seus gostos, agora sentia apenas ironia.
"Obrigada, irmã, mas meus gostos mudaram recentemente", disse ela calmamente, movendo a costelinha para o prato de descartes.
O sorriso de Valentina travou por um segundo, mas logo voltou ao normal enquanto ela se voltava para Bernardo com uma voz doce: "Bernardo, você também deveria comer mais, emagreceu ultimamente."
Bernardo, porém, estava distraído.
Seus olhos paravam, quase sem controle, na figura de Leticia à sua frente.
Ela comia em silêncio, ocasionalmente trocando palavras baixas com Pietro. Seu perfil sob a luz suave da sala transmitia uma paz profunda.
Aquela serenidade o deixava inexplicavelmente ansioso.
Ele percebeu que começava a sentir falta da Leticia de antes, aquela que era impetuosa e vibrante diante dele. Ele mal tocou na comida que Valentina lhe servira.
De repente, Leticia estendeu a mão para pegar a sopa e acidentalmente tocou na borda quente da tigela.
Ela soltou um leve suspiro de dor e recolheu a mão instintivamente.
Quase simultaneamente, Bernardo levantou-se da cadeira com tanta rapidez que derrubou seu copo de água, causando um barulho agudo. Todos os olhares se voltaram para ele.
Ele quis verificar se a queimadura era grave. No entanto, alguém foi mais rápido.
"Que tonta! Se queimar tomando sopa!", resmungou Pietro, embora seus movimentos fossem velozes ao puxar a mão de Leticia.
Ele soprou suavemente a ponta do dedo avermelhado dela, com uma expressão de preocupação e carinho indisfarçáveis:
"Dói? Quer que eu busque uma pomada?"
Leticia ficou surpresa com a dedicação de Pietro, e o frescor do sopro dele dissipou a dor.
Ela balançou a cabeça e tentou recolher a mão, mas Pietro a segurou com mais firmeza.
"Não se mexa, vou soprar mais um pouco."
Leticia olhou para o rosto focado dele e acabou não resistindo mais, deixando que ele segurasse sua mão.
Aquela cena foi como uma agulha em brasa perfurando os olhos de Bernardo.
Ver Leticia permitir o toque de Pietro e a expressão de indulgência no rosto dela provocou uma onda de amargura e fúria em seu peito.
CRACK!
Ouviu-se um estalo seco.
Os hachis de marfim nas mãos de Bernardo haviam sido quebrados pela força bruta!
A mesa silenciou instantaneamente.
O Sr. Augusto franziu a testa, insatisfeito.
A Sra. Helena olhou preocupada para o filho. Valentina empalideceu, cravando as unhas na palma da mão.
Pietro ergueu a cabeça e encarou Bernardo com um olhar provocador:
"Irmão, o que houve? A qualidade dos hachis está ruim?"
O peito de Bernardo arfava. Ele fixou o olhar em Leticia, mas percebeu que ela nem sequer o olhava, como se o incidente não tivesse nada a ver com ela.
Ele respirou fundo para conter a tempestade interna e disse com a voz rouca: "Nada, a mão escorregou."
O almoço terminou em um clima bizarro.
Depois, Valentina caminhou até Leticia com um sorriso e enlaçou seu braço de forma íntima, falando alto o suficiente para os presentes ouvirem: "Lê, faz tempo que não conversamos como irmãs. Que tal darmos um passeio no jardim? Tenho algumas coisas de mulher para te contar."
Leticia tentou se soltar, mas Valentina segurava com força.
Não querendo causar um escândalo na frente dos sogros, ela assentiu.
O jardim era vasto e repleto de flores raras, mas parecia um pouco desolado naquela estação.
Ao chegarem a um local isolado sob um arco de trepadeiras, o sorriso de Valentina desapareceu.
Ela soltou Leticia e virou-se com um olhar gélido.
"Leticia, você acha que casar com o Pietro vai te servir de vingança contra mim?", disse Valentina com escárnio.
"Esqueça! O futuro líder da família é o Bernardo. Você se casou apenas com um playboy inútil! Acha que ele pode te dar o quê? A herança da família? Status? Não seja ingênua!"
Leticia observou-a com calma, sem qualquer sinal de irritação.
"E daí?", respondeu calmamente.
"Pelo menos, o coração do Pietro pertence apenas a mim. Ele nunca escolheria outra pessoa em vez de mim diante da família. E, no momento de vida ou morte, ele nunca me abandonaria sem hesitar."
Aquelas palavras atingiram o ponto fraco de Valentina.
O rosto dela se contorceu de raiva antes de soltar uma risada fria: "Coração só seu? Leticia, quando você ficou tão burra? Acha que o Pietro realmente gosta de você? Todos em São Paulo sabem que ele me perseguiu por anos. Ele só se casou com você porque não pôde me ter; você é o prêmio de consolação e uma forma de irritar o Bernardo! Você é apenas uma ferramenta de pirraça! Ele..."
"Valentina."
Uma voz fria surgiu por trás, interrompendo as palavras venenosas.
Valentina congelou e virou-se bruscamente, vendo Bernardo emergir de trás das roseiras. Ele estava com o rosto sombrio e os olhos gélidos.
"Bernardo... o que... o que faz aqui?", gaguejou Valentina, empalidecendo.
"Não é o que você ouviu, eu posso explicar, eu só... eu só estava aconselhando minha irmã a viver bem com seu irmão, eu..."
"Desde quando você se tornou tão inadequada?", a voz de Bernardo não era alta, mas carregava uma pressão assustadora.
"Difamar sua própria irmã e seu cunhado pelas costas... é essa a educação da sua família?"