Finalmente, ele recuperou a voz e, de forma monótona e sem qualquer emoção, pronunciou as palavras:
— Sim, eu aceito.
Não houve o alívio esperado, apenas um entorpecimento vazio.
A cerimônia terminou e chegou o momento do brinde. Bernardo segurava a taça, seguindo mecanicamente seus pais e Valentina para cumprimentar os convidados.
O sorriso estava forçadamente estampado em seu rosto, mas seu olhar nunca conseguia focar em nada.
Nesse momento, sons de comemorações ainda mais calorosas e música alta ecoaram vindos da ala oeste.
Aquilo foi como uma agulha perfurando os nervos tensos de Bernardo.
Seus dedos apertaram a taça com tanta força que as articulações ficaram brancas.
O líquido oscilou, refletindo a turbulência sombria em seus olhos.
Ele quase podia imaginar a cena lá do outro lado.
Aquele irmão que ele nunca levara a sério, agora triunfante ao lado de Leticia, recebendo os parabéns dos amigos.
E Leticia... aquela que antes apenas o seguia e cujos olhos brilhavam apenas por ele... Um fogo agudo de ciúmes ardeu pela primeira vez de forma tão clara em suas entranhas.
— Bernardo? — Valentina tocou levemente seu braço, com preocupação e uma mágoa contida. — Precisamos continuar o brinde.
Bernardo recobrou os sentidos, conteve a irritação e seguiu em frente.
No meio da festa, ele não conseguiu mais suportar a agonia.
Usando um telefonema como desculpa, ele afastou-se da multidão e saiu do salão.
Como que guiado por um impulso inexplicável, seus passos o levaram em direção à ala oeste.
A porta do salão não estava totalmente fechada, deixando uma fresta aberta.
O som da música e das risadas vinha de lá com ainda mais clareza. Bernardo parou e olhou pela fresta.
Bastou um olhar para que seu sangue quase fervesse.
Sob a iluminação difusa e projeções de estrelas, as pessoas formavam um círculo para brincadeiras.
No centro, estavam Leticia e Pietro. Eles pareciam estar em um jogo onde ambos deveriam morder uma maçã pendurada por um fio.
Pietro movia-se propositalmente para dificultar a tarefa. Leticia tentou algumas vezes sem sucesso e, parecendo levemente irritada, deu um tapa no ombro de Pietro.
Pietro riu alto, aproveitou para envolvê-la pela cintura, puxando-a para si, e então baixou a cabeça para morder a maçã junto com ela.
O círculo explodiu em vivas e assovios. O rosto de Leticia estava corado, não se sabia se pelo jogo ou por outro motivo.
Ela lançou um olhar para Pietro, mas não havia raiva real; em vez disso, carregava uma vivacidade e um dengo que Bernardo nunca vira direcionados a ele.
Em seguida, ocorreu algo que fez o coração de Bernardo quase parar. Pietro soltou-a e, diante de todos os convidados, ajoelhou-se subitamente.
Ele segurou com delicadeza um dos pés de Leticia e removeu os sapatos de salto alto, que eram lindos, mas visivelmente desconfortáveis.
Então, como em um passe de mágica, pegou um par de sapatilhas elegantes e calçou-as nela com cuidado.
— Cansou do salto, não foi? — Pietro olhou para Leticia com uma ternura ostensiva e levemente desajeitada. — Eu cuido de você.
Leticia olhou para ele, as longas pestanas cobrindo parte de sua expressão.
No entanto, seus lábios pareceram curvar-se em um sorriso extremamente sutil e suave.
Naquele instante, Bernardo sentiu seu mundo desabar. Toda a lógica e autocontrole ruíram diante daquela cena.
Ele empurrou a porta entreaberta e entrou a passos largos.
Sua aparição foi como uma pedra de gelo lançada em óleo fervente. O ambiente festivo silenciou instantaneamente. A música continuava, mas todos os olhares fixaram-se, intrigados, naquele recém-casado de traje nupcial que emanava uma fúria sombria.
Pietro foi o primeiro a reagir. Ele levantou-se, colocando Leticia atrás de si, e seu sorriso despreocupado desapareceu, dando lugar à cautela.
— Irmão? O que faz aqui?
Bernardo não olhou para Pietro; seus olhos estavam cravados em Leticia. Ela vestida de noiva parecia ainda mais radiante — e ainda mais insuportável de ver — do que no cruzamento.
— Preciso falar com você. — Ele caminhou até Leticia, com a voz rouca e em tom de ordem.
Leticia ergueu os olhos e o olhou calmamente. Era o olhar que se dedica a um estranho.
— Sr. Bernardo — ela começou, com a voz clara o suficiente para todos ao redor ouvirem —, hoje é o dia do seu casamento com minha irmã. Vir ao casamento da sua cunhada não parece apropriado. Tenha compostura.
A palavra "cunhada" foi como uma agulha envenenada perfurando os ouvidos de Bernardo. Seu peito arfava enquanto ele tentava segurar o pulso dela.
— Leticia! Pare com isso! Venha comigo agora!
Pietro deu um passo à frente, bloqueando o caminho e endurecendo o tom:
— Bernardo, olhe para onde você está. Hoje é o meu casamento com a Lê. Os anciãos das famílias e pessoas importantes de São Paulo estão assistindo. Você quer transformar a nossa família em piada para toda a cidade?
Nesse momento, Valentina também chegou apressada, com o rosto sem cor. Ela abriu caminho entre as pessoas e segurou o braço de Bernardo, suplicando em lágrimas:
— Bernardo! Não faça isso! Vamos voltar, por favor! Nossos pais e os convidados estão esperando... eu imploro...
Bernardo afastou a mão de Valentina, mantendo os olhos injetados de sangue fixos em Leticia.
— Acabe com este teatro agora! Leticia, não use este método para me provocar!
— Provocar você? — Leticia riu subitamente, um riso frio que não chegava aos olhos. — Bernardo, você realmente acha que o mundo inteiro gira ao seu redor?
Ela deu um passo à frente, enlaçando o braço de Pietro em um gesto natural e íntimo.
Então, ela olhou diretamente para Bernardo, com a voz baixa, mas audível em todo o salão silencioso:
— Parece que o Sr. Diretor tem memória curta. Então, vou me apresentar formalmente. — Ela fez uma pausa, enfatizando cada palavra. — Este é meu marido, Pietro. A partir de hoje, sou oficialmente sua cunhada. E, seguindo a etiqueta, você deve me chamar de... Sra. Leticia Pietro.