Antes que o áudio terminasse, uma silhueta parou diante dela. Ela ergueu os olhos e viu Bernardo. Ele vestia um terno preto, com sua postura imponente, segurando uma caixa de veludo azul-marinho.
— Feliz aniversário.
Leticia olhou para a caixa e sentiu uma pontada aguda no peito. Ao longo desses anos, além de Pietro, Bernardo era o único que se lembrava de seu aniversário. Sempre que ele preparava um presente para Valentina, aproveitava para comprar um para ela também. Antigamente, o presente dele era o que ela mais aguardava.
Mas agora...
— Não precisa. — Leticia desviou o olhar, com a voz calma. — Obrigada, cunhado.
A mão de Bernardo travou no ar. Ele franziu a testa, encarando Leticia:
— Por que não? Você não era a pessoa que mais gostava de receber meus presentes?
— Isso era antes — disse Leticia. — Agora não gosto mais.
Antes que ele pudesse responder, Valentina aproximou-se.
— Bernardo, Lê — ela sorriu docemente —, sobre o que estão conversando?
Antes de Bernardo abrir a boca, Valentina notou a caixa em sua mão. Seus olhos brilharam e ela disse, surpresa:
— Ah, este colar! Bernardo, como você sabia que eu amava esse modelo? Mas você já não tinha me dado o seu presente?
Bernardo permaneceu em silêncio por alguns segundos. Leticia observava os dois, sentindo a ferida que mal havia cicatrizado ser aberta novamente.
— Não tem problema dar dois — disse Bernardo, entregando a caixa para Valentina. — Se gostou, pode usar.
Valentina pegou a caixa e a abriu; dentro, havia um colar de diamantes que cintilava sob as luzes. Ela segurou o braço de Bernardo com alegria:
— Obrigada, Bernardo. Você pode colocá-lo em mim?
— Sim.
Leticia não aguentava mais ver aquilo. Ela pousou a taça, levantou-se e caminhou em direção ao banheiro.
O banheiro estava silencioso. Leticia parou diante do espelho, observando seu próprio reflexo; a maquiagem estava impecável e o vestido elegante, mas seu olhar estava vazio, como um corpo cuja alma fora drenada. Ela abriu a torneira e lavou o rosto com água fria.
Nesse momento, a porta se abriu. Valentina entrou. Ela exibia o colar de diamantes no pescoço, brilhando intensamente. Ao ver Leticia, ela sorriu:
— O quê, não aguenta mais?
Leticia a ignorou e pegou um lenço de papel para secar o rosto.
— Leticia, eu te aconselho a ser inteligente. Amanhã eu e o Bernardo vamos tirar as fotos de noivado e, no final do mês, nos casaremos oficialmente. É melhor você ficar longe dele e parar com esses seus planos. Caso contrário... não garanto que, da próxima vez que você "acidentalmente" cair da escada ou for atropelada, terá a mesma sorte de apenas quebrar alguns ossos.
Leticia parou de caminhar e voltou-se para ela:
— Valentina, seus métodos serão sempre apenas esses? Além de armações e fingir fragilidade para ganhar compaixão, o que mais você sabe fazer?
— O que eu sei fazer não importa — riu Valentina. — O importante é que o Bernardo acredita em mim e nossos pais me amam. Isso é o suficiente. E você, Leticia, nunca poderá me vencer. Sempre será apenas o barro sob os meus pés.
Leticia olhou para aquele rosto cheio de malícia e sentiu um cansaço avassalador; não tinha sequer vontade de discutir.
— Terminou? — perguntou calmamente. — Se terminou, saia da frente.
Ela não queria partilhar o mesmo ar com aquela mulher por mais um segundo. Valentina pareceu irritada com aquela atitude de indiferença total, mas antes que pudesse dizer algo, algo inesperado aconteceu.
A luz na porta do banheiro diminuiu subitamente. Dois homens altos, vestidos com ternos pretos, entraram como espectros, com uma rapidez impressionante. Leticia e Valentina não tiveram tempo sequer de gritar antes de sentirem uma dor aguda na nuca. Tudo escureceu e elas perderam a consciência instantaneamente.
Ao acordar, Leticia percebeu que estava amarrada, sem conseguir mover mãos ou pés. Ela viu que estava à beira de um penhasco, com o mar profundo logo abaixo; ao seu lado, Valentina também estava amarrada, pálida e tremendo de medo.
— Acordou? — uma voz rouca ecoou.
Leticia virou a cabeça e viu um homem vestindo um terno surrado, segurando uma faca.
— Quem é você? — perguntou Valentina, aterrorizada.
— Quem eu sou não importa — riu o homem, com uma expressão sinistra. — O importante é que Bernardo está quase chegando. Quero que ele sinta o gosto de uma despedida de vida ou morte.
Assim que ele terminou de falar, ouviu-se o som de carros ao longe. Alguns veículos pararam e Bernardo desceu; ao ver a cena no penhasco, seu rosto empalideceu bruscamente.
— Solte-as — disse ele, com a voz fria como gelo. — Eu te dou o que você quiser.
— O que eu quero? — o homem gargalhou. — Bernardo, naquela época você destruiu minha empresa. Minha esposa e meu filho adoeceram e o dinheiro que eu tinha só dava para salvar um. Minha esposa me pediu para salvar a criança, mas ela morreu e o menino também não sobreviveu. Agora, vou fazer você sentir essa dor! Escolha uma: uma é sua noiva, a outra é a garota que te perseguiu por anos. Uma vive, a outra morre.
Bernardo cerrou os punhos com força.
— Eu sei que você precisa de dinheiro — disse ele, mantendo a voz calma. — Eu te dou quanto você quiser. Solte as duas.
— Dinheiro? — o homem desdenhou. — Agora não quero nada além da sua escolha! Se você não escolher, as duas morrem juntas!
O vento soprava forte, desgrenhando os cabelos de Leticia. Ela olhava para Bernardo, o homem que amara por quatro anos inteiros. Ele estava parado ali, com a postura ereta e o rosto tenso, como se tomasse uma decisão extremamente difícil.
O tempo passou segundo a segundo. Finalmente, Bernardo falou.
— Valentina.
Duas palavras, claras e frias.
Leticia fechou os olhos. Ela ouviu a risada maníaca do homem, o choro de Valentina e a voz ansiosa de Bernardo: "Solte-a! Eu já escolhi!"
Então, ela foi empurrada para o abismo. Seu corpo caiu rapidamente enquanto o vento uivava em seus ouvidos. No momento em que atingiu a superfície do mar, Leticia pensou: quatro anos de ilusão resultaram apenas em ser a escolha descartada.