O outro lado da linha ficou em silêncio por alguns segundos.
"O que você disse?"
"Eu disse," repetiu Leticia, "vamos nos casar. No mesmo dia que eles."
À tarde, Leticia ignorou os avisos médicos e forçou sua alta hospitalar. Ela pegou um táxi e foi até o café onde havia marcado com Pietro.
Quando Leticia chegou, Pietro já estava lá. Ele vestia uma jaqueta corta-vento preta e estava recostado no sofá, mexendo no celular. Ao vê-la entrar, arqueou uma sobrancelha.
"Ora, a nossa manquinha chegou." Ele se levantou rindo e a ajudou a se sentar.
Leticia não respondeu, apenas o observou. Pietro e Bernardo eram irmãos de sangue, mas não se pareciam muito. Bernardo seguia o estilo frio e nobre, com traços delicados como uma pintura clássica e uma aura distante; já Pietro era mais expressivo, com um olhar profundo, um ar rebelde e uma atitude despreocupada perante a vida.
Os quatro cresceram juntos. Leticia sempre seguia Bernardo, como uma pequena sombra; Pietro, por sua vez, vivia atrás de Valentina, como um seguidor fiel. Naquela época, ela achava que ela e Bernardo eram do mesmo tipo, que uma montanha de gelo precisava de fogo selvagem para derreter. Mas agora ela entendia: o herdeiro mais brilhante deveria ficar com a dama mais adequada.
"No que está pensando?" Pietro acenou com a mão na frente dela. "Vamos falar do casamento. Está marcado para o dia 28 do próximo mês, no mesmo dia que o deles."
Pietro inclinou-se para frente com os olhos brilhando e começou a falar sem parar. "Já que é para provocá-los, temos que fazer algo grandioso! Já escolhi o lugar: será no 'Skyline', o salão inteiro só para nós! Eu mesmo vou desenhar os convites, garanto que serão muito mais chamativos que os deles! E o vestido..."
Ele falava com entusiasmo, desde o modelo do vestido até o design das alianças, do local da cerimônia à viagem de lua de mel, como se ela fosse realmente a noiva que ele sempre desejou ter.
Leticia começou a achar aquilo estranho.
"Pietro," ela o interrompeu, "você não era loucamente apaixonado pela Valentina? Ela vai se casar com o seu irmão, como você não está... nem um pouco triste?"
"Triste? Eu não... claro que estou triste!" Ele fez uma pausa, tomou um gole de café e desviou o olhar. "Mas, enfim... o que está feito, está feito. Ela vai ser minha cunhada, o que eu posso fazer? Não posso ficar como você, fazendo um drama de vida ou morte. Eu sei quando é hora de desapegar!"
Desapegar...
Leticia sentiu uma pontada no peito com essas palavras. Era verdade, por que ela não conseguia desapegar? Por que se deixou ficar em um estado tão lamentável?
"Está bem, está bem," Pietro aproximou-se, suavizando o tom. "Eu falei o que não devia, ok? Não fique com essa cara, vão achar que eu estou te maltratando. De qualquer forma, você não vai se arrepender de casar comigo. Eu não sou como o meu irmão, não vou te cobrar regras. Se quiser correr de carro, eu corro com você; se quiser beber, eu bebo até o amanhecer. Você pode fazer o que quiser, não é bom?"
Leticia ergueu a cabeça e olhou para Pietro. Os olhos dele eram brilhantes e refletiam a imagem dela. Por um momento, ela chegou a pensar que ele estava falando sério — que ele realmente esperava por esse casamento.
Mas como seria possível? Ele era como ela, alguém que não foi correspondido no amor e buscava essa forma absurda de vingança.
Nos dias seguintes, Pietro agiu com rapidez e eficiência, enviando mensagens quase todos os dias. Eram todas sobre o casamento: esboços da decoração, detalhes do vestido, desenhos das alianças.
"Este modelo de vestido combina com você, realça o tom da sua pele."
"O que acha deste lugar? Tem vista para o mar."
"Escolhi um diamante azul para a aliança, combina com a cor dos seus olhos."
Eram mensagens detalhadas, uma após a outra. Leticia observava aquelas notificações e o sentimento de estranheza crescia. Pietro estaria levando isso a sério demais?
Mas logo ela pensava que era apenas impressão sua. Talvez fosse apenas o jeito dele de superar a dor rapidamente, usando um casamento grandioso para provar que já havia seguido em frente. Exatamente como ela.
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Naquele dia, com a perna um pouco melhor, ela fez uma maquiagem marcante e se preparou para ir a uma balada que não visitava há tempos, querendo extravasar toda a frustração.
Ao chegar à porta, foi barrada pelos pais.
"Pare aí!" Augusto disse com o rosto fechado e tom agressivo. "Vestida desse jeito, onde pensa que vai se meter agora?"
Helena também franziu a testa, avaliando-a de cima a baixo.
"Sua perna nem sarou direito e você já não consegue ficar quieta? Não vai sair hoje. Valentina e Bernardo estão na loja escolhendo o vestido de noiva, vá até lá acompanhá-los e ajude a opinar."
Leticia ergueu a cabeça, incrédula.
"Vocês querem que eu... vá ajudar a Valentina a escolher o vestido?"
"Sim!"
Helena usou um tom severo.
"A Valentina ligou especialmente pedindo a sua presença, ela quer a sua bênção!"
"Eu não vou."
Leticia virou-se para sair. Ter que ver Valentina vestida de noiva ao lado de Bernardo? Ela preferia a morte.
"Você não tem escolha!"
Augusto agarrou o braço dela com força.
"Leticia, eu te aviso: Bernardo e Valentina vão se casar em breve, ele é o seu futuro cunhado! Trate de guardar esses seus sentimentos inadequados! Um homem como Bernardo deve casar com alguém educada e de boa família como a Valentina! Ele nunca iria gostar de uma garota rebelde e inconsequente como você! Tire essa ideia da cabeça de uma vez!"
Cada palavra era como uma agulha envenenada, atingindo o ponto mais sensível de Leticia.
Antigamente, ela não acreditava que existissem pais tão parciais; chegou até a fazer um teste de DNA escondida. O resultado confirmou friamente que ela era filha biológica deles. Mas e daí? O sangue nem sempre traz amor ou justiça.
Ela olhou para os rostos severos e impacientes dos pais. Seu coração parecia mergulhado em água gelada, tremendo de frio e dor.
No fim, ela foi praticamente empurrada para dentro do carro e levada até a luxuosa loja de vestidos de noiva sob medida. Ao chegar à porta, Valentina veio recebê-la com entusiasmo: "Lê, você finalmente veio! Rápido, entre comigo, me ajude a escolher, estou tão confusa com tantas opções."
Leticia entrou na loja, rígida, sendo puxada por Valentina. Então, ela viu Bernardo. Ele estava sentado no sofá da área VIP, folheando uma revista. Ao ouvir o barulho, ergueu a cabeça, lançou um olhar breve para Valentina e depois fixou os olhos em Leticia.
Leticia estava vestida de forma provocante hoje: um vestido curto amarelo brilhante que realçava suas curvas, com uma maquiagem impecável e vibrante, como uma rosa no auge do desabrochar.
Bernardo franziu levemente a testa, mas não disse nada, apenas desviou o olhar.
Quando Valentina saiu vestindo um modelo de noiva e deu uma volta na frente de todos, a saia flutuou e os pequenos cristais brilharam sob a luz.
"Está bonito?" perguntou ela.
"Está ótimo," disse Bernardo, com um tom de admiração indisfarçável.
Valentina foi até o espelho e Leticia pegou o celular para tirar uma foto. Na imagem, Valentina sorria feliz, enquanto Bernardo a observava com um olhar terno ao fundo. Leticia encarou aquela foto e sentiu o coração ser esmagado, sentindo-se sufocada pela dor.
Ela abriu o WhatsApp e enviou a foto para Pietro.
Pietro: 「?」
Leticia digitou: 「O seu grande amor vestida de noiva, achei que gostaria de ver.」
Pietro: 「Eu não quero vê-la de noiva. Eu só quero ver você vestida assim agora.」
Leticia parou por um instante.
Pietro enviou outra mensagem: 「Estou no exterior acompanhando o estilista que está fazendo o seu vestido. Quando você o vestir, ficará maravilhosa. Seja obediente e espere eu voltar.」
Leticia ficou paralisada olhando para aquela mensagem. Esse tom de Pietro não estava romântico e dedicado demais? Eles não eram apenas... parceiros de um acordo para provocar os outros dois?
Antes que ela pudesse processar, Bernardo aproximou-se sem que ela percebesse. Ele passou ao lado dela, parecendo ir pegar um copo d'água, e seus olhos captaram involuntariamente a tela do celular, vislumbrando a conversa com Pietro.
Ele hesitou por um breve momento.