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Dante continuava a me seduzir ao pé do ouvido, agindo como se não houvesse mais ninguém ao redor.
Reprimi a avalanche de emoções em meu peito, recuperei o fôlego e voltei a ser a fria e composta Srta. Vasconcelos.
Só então afastei sua mão quente e fervorosa. "Dante, não comece com suas bobagens."
"Eu não estou brincando." Dante de repente usou força e, para minha surpresa, inclinou a cabeça, encostando o rosto no meu de forma íntima. "Bia, vem comigo, por favor?"
"Irmã, você e o Dante..."
Uma voz suave e aparentemente inofensiva soou ao meu lado. Sem que eu percebesse, Lucas e Isadora já estavam parados à minha frente.
Olhei para Lucas; seus olhos, que sempre foram indecifráveis, pareciam um abismo escuro.
Com apenas aquelas poucas palavras, Isadora conseguiu desviar toda a atenção para mim.
Todos sabiam que eu, Beatriz, era a noiva de Lucas, mas agora eu estava em uma situação tão ambígua com Dante.
Os olhares dos convidados logo se transformaram em julgamentos e fofocas. Eles pareciam ter esquecido que, instantes atrás, fora Isadora quem, diante de todos, roubara o meu Lucas de forma descarada.
Em vez de criticá-la, eles a cobriram de bênçãos, celebrando a amante que destruíra um compromisso. E agora se voltavam contra mim?
Respirei fundo, quase incapaz de conter minha fúria, e sorri friamente. "Isadora, com que autoridade você me questiona? Mesmo que houvesse algo entre Dante e eu, o que te dá o direito de se meter?"
Ao ver que eu reagira sem hesitação, Isadora assumiu novamente seu papel de "vítima frágil".
"Irmã, você está me culpando? Eu sei que não sou boa... mas não consegui controlar meus sentimentos... Me desculpa... irmã..."
"Chega."
Cada palavra de Isadora me causava náuseas; eu não tinha o menor desejo de ver seu teatrinho.
Dante levantou as pálpebras preguiçosamente e lançou um olhar de desprezo para Isadora, com a voz carregada de sarcasmo: "Não tente se fazer de coitadinha depois de ter passado a perna em todo mundo."
A máscara perfeita no rosto de Isadora finalmente vacilou. Ela quis explodir, mas, contida pela multidão, acabou se escondendo, acuada, atrás de Lucas.
Dante passou o braço pelos meus ombros e me conduziu para frente, com um olhar tão selvagem e arrogante que ninguém, por mais curioso que estivesse, ousava olhar duas vezes.
Porém, quando eu ia passar por Lucas, ele estendeu a mão e agarrou meu pulso. Não sei se foi impressão minha, mas sua voz, habitualmente suave, soava irritada: "Beatriz, desde quando você está com o Dante?"
O quê? Ele falava como se eu o estivesse traindo.
Antes que eu pudesse responder, Dante fixou o olhar onde a mão de Lucas apertava meu braço. Ele pressionou a língua contra o maxilar, visivelmente impaciente. "Solta."
Lucas não se mexeu.
Ao lado, Isadora parecia estar diante de um grande inimigo. Ela temia o status de Dante e, ao mesmo tempo, estava tensa com a forma como Lucas me questionava.
Deu um passo à frente, segurando o braço dele, e disse propositalmente: "Lucas, talvez não devêssemos perguntar isso agora. Se virar um escândalo, vai ser ruim para a reputação da Bia..."
Ela baixou a voz, fingindo preocupação comigo, mas o salão estava tão silencioso que todos ouviram perfeitamente.
Dante franziu o cenho, exalando uma aura sinistra. "Sua mulher horrorosa, que monte de asneiras você está falando?"
Isadora encolheu-se instantaneamente, parecendo extremamente ofendida.
Lucas protegeu Isadora e olhou friamente para Dante. "Tenha mais respeito."
Mal as palavras saíram de sua boca, Dante desferiu um soco nele.
Houve um grito coletivo de horror; Isadora gritou ainda mais alto. O golpe de Dante foi pesado. Lucas, pego desprevenido, recuou desajeitadamente, soltando meu pulso.
Dante soltou uma risada fria, chutou para longe uma mesa que atrapalhava e me protegeu em seus braços.
Ele pegou um guardanapo próximo, segurou meu pulso e o limpou com cuidado, de forma gentil e meticulosa, como se não tivesse acabado de agredir alguém.
Olhei para Dante; seus olhos ainda mantinham aquele brilho selvagem.
Eu estava prestes a repreendê-lo por ter batido em Lucas, quando vi que este já se recuperava e avançava para revidar.
"Cuidado!" eu gritei.
Dante deu um último toque na palma da minha mão. "Não deixe o Lucas tocar em você."
Em seguida, virou-se e começou a lutar contra Lucas.
Os dois homens não cediam um centímetro.
O que deveria ser uma festa de noivado elegante e animada transformou-se em um caos completo.
Dante era arrogante e indomável; ninguém conseguia pará-lo. E Lucas, geralmente tão calmo, parecia ter enlouquecido hoje.
Isadora gritava repetidamente, enquanto os convidados fugiam para os cantos, apavorados.
Os seguranças ao redor não ousavam intervir; nem Dante nem Lucas eram pessoas com quem eles pudessem se meter.
"Dante, pare com isso!" Tentei impedi-los, mas Dante, mesmo no meio da briga, encontrou tempo para me olhar.
"Fique parada aí e não se mexa! Se eu não acabar com ele hoje, meu nome não é Dante!"
"Olha só para você! Veja o que fez com a festa de noivado!"
Incapaz de conter a briga, Helena lançou-me um olhar carregado de ódio.
Bernardo também estava angustiado.
"Como isso pôde acontecer? Uma festa de noivado tão bonita... o que está havendo!"
Minha mão, que tentava deter Dante, travou.
Se fosse Isadora quem tivesse tido o noivado arruinado por outra pessoa, meus pais seriam os primeiros a defendê-la, não seriam?
A diferença no tratamento dos convidados vinha justamente da atitude dos meus pais em relação a mim.
Dante estava lutando por mim, mas eles viam isso apenas como uma confusão sem sentido. Porque eu estava arruinando o noivado da Isadora? Mas, claramente, este deveria ser o meu noivado.
"Dante." Baixei a mão e chamei seu nome, tentando acalmá-lo, mas foi em vão. Dante estava fora de si.
Fui forçada a me aproximar e, quando ele estava prestes a desferir outro soco, coloquei-me à sua frente.
O punho veloz parou a menos de um centímetro do meu rosto.
Dante franziu o cenho profundamente. "Eu já te disse para não se mexer, porra!"
Suas palavras seguintes, no entanto, tornaram-se involuntariamente suaves e cheias de remorso: "E se eu te atingisse?"
Aproveitei a chance para segurar seu braço, com a mágoa quase transbordando pelos olhos. "Dante, por favor, pare."
Eu estava exausta, muito exausta, e só queria fugir daquele lugar.
Dante paralisou por um momento; os punhos cerrados relaxaram instantaneamente. Ele segurou meu rosto: "Bia, eu te deixei brava?"
"Não, eu só quero ir embora." Puxei a manga de Dante; eu não queria ver mais ninguém agora.
Dante imediatamente chutou as mesas e cadeiras que bloqueavam o caminho. "Vamos. Acabou a briga."
Contudo, Lucas não desistiu e agarrou meu braço novamente.
Respirei fundo e, antes que Dante explodisse de novo, arranquei a mão de Lucas.
Como ele se recusava a soltar no início, usei toda a minha força para lhe dar um tapa no rosto. Sua face atraente virou para o lado.
Isadora gritou. Eu sorri friamente: "Lucas, o que você está fazendo agora? Puro fingimento? Não foi você quem entregou o anel para a Isadora dez minutos atrás?"
O perfil de Lucas estava rígido, com os lábios firmemente comprimidos.
Isadora o protegia com determinação, temendo que eu o tomasse de volta.
Eu não sabia que tipo de acordo eles haviam feito para trocar a identidade da noiva, mas, vendo os dois ali parados, senti que o meu passado não passara de uma piada.
Por Lucas, eu desisti da dança que tanto amava para estudar finanças; eu queria ser a esposa perfeita para ele.
Sabendo que ele trabalhara duro na empresa desde cedo e tinha problemas de estômago, aprendi a cozinhar inúmeros pratos e preparava suas refeições todos os dias.
Lucas queria sucesso na carreira, então eu aprendi a beber para acompanhá-lo e negociar com empresários em jantares.
Quando ele adoeceu, assumi todo o seu trabalho para que pudesse descansar; o resultado foi que ele melhorou e eu adoeci, mas Lucas nunca me lançou um olhar sequer.
Lucas, sempre Lucas.
Desde o momento em que ele me resgatou aos 16 anos, todo o meu tempo fora dedicado a ele. Era como se eu vivesse apenas por ele.
Acreditei ingenuamente que, se eu fosse boa o suficiente, um dia ele se sentiria tocado. Mas, no fim, descobri que eu apenas emocionara a mim mesma.
Que idiota eu fui.
Levantei os olhos e encarei Lucas:
"Lucas, feliz noivado. Parabéns por conseguir o que queria."