Os nós dos dedos de Murilo estavam em carne viva, mas ele segurava o pulso de Nina com obstinação: — Vamos para o hotel.
— Eu vou para o alojamento — Nina tentou se soltar, mas cambaleou devido ao salto instável.
Murilo aproveitou para pegá-la no colo, envolvendo as pernas nuas dela com seu sobretudo.
O vento frio soprava, e o colarinho da camisa de Murilo revelava hematomas frescos na clavícula.
Na suíte presidencial do hotel de luxo, a lareira estalava. Murilo colocou Nina, que exalava o cheiro de álcool, na beira da banheira e levou a mão ao zíper nas costas dela.
Nina segurou a mão dele: — O que pensa que está fazendo?
— Te ajudando no banho — a voz dele era profunda, como se estivesse mergulhada em água gelada. Ele acariciava o pulso dela com o polegar. — Você está bêbada demais para parar em pé.
— Eu não estou bêbada! — Nina tentou se levantar, mas caiu contra o peito dele.
O cheiro de Murilo era uma mistura de sangue e perfume de cedro.
O calor da água subiu pelos ombros de Nina enquanto Murilo se ajoelhava ao lado da banheira, usando uma esponja para limpar suavemente as manchas de bebida em seu pescoço.
Nina observava a sombra dos cílios dele; sua glote se moveu ao engolir um gemido baixo.
Quando a esponja passou pelo sulco da clavícula, ela segurou o pulso dele: — Chega.
— Não se mexa — a voz de Murilo estava terrivelmente rouca. Ele amparou a nuca dela, forçando-a a erguer o rosto. — Ainda não está limpo.
A água escorria pela esponja e deslizava pelo peito dela. Nina sentia o coração prestes a explodir, mas, ao ver o hematoma no canto do olho dele, estendeu a mão impulsivamente para tocar a mancha roxa.
Murilo imediatamente prendeu o pulso dela contra a borda da banheira, inclinando-se até que seus narizes quase se tocassem: — Não me olhe assim.
O hálito dele, quente e com cheiro metálico de sangue, atingia os lábios dela: — Você sabe muito bem que eu não consigo me controlar.
Nina virou o rosto para evitar o olhar ardente, mas ele trouxe seu queixo de volta com o polegar.
A água do chuveiro caía sobre a sombra entrelaçada dos dois. O beijo de Murilo pousou atrás da orelha dela, com uma voz vinda do fundo do peito:
— Nininha, diga que me ama.
— Eu te odeio.
Nina sibilou as palavras, mas soltou uma lamento involuntário quando a língua dele percorreu o lóbulo de sua orelha.
Os beijos de Murilo desceram pelo pescoço, mordendo com força a clavícula, como se descarregasse toda a agonia desse tempo...
Quando os dedos dele exploraram sob a água, Nina agarrou a nuca dele e uniu seus lábios trêmulos aos dele...
Aquele beijo com gosto de sangue e uísque foi intenso e frenético. Os dois se enrolaram, caindo da banheira sobre as toalhas felpudas...
Murilo a pressionava, as palmas febris percorrendo cada centímetro de pele, deixando marcas vermelhas em sua cintura.
— Nina... minha Nininha... — a voz de Murilo era como o rosnado de uma fera encurralada, mas ele estancou ao ver o brilho úmido nos olhos dela.
Ele rolou para o lado bruscamente, cobrindo-a com a toalha.
O peito subia e descia com força: — Nininha, me perdoe... me perdoe pelo que fiz no passado... eu sei que errei... pode me punir como quiser...
Nina, encolhida na toalha, encarava as sombras no teto.
— Não posso
— respondeu ela.
Ao saírem do banheiro, Murilo trouxe sopa para ressaca do serviço de quarto. Ele estava com o cabelo pingando e a camisa abotoada de forma errada.
— Beba um pouco — ele sentou-se na beira da cama, soprando a colher.
Quando Nina se sentou, a toalha escorregou revelando as marcas nos ombros; Murilo desviou o olhar imediatamente.
Ela aproximou-se maliciosamente: — Jovem Mestre Murilo, está com medo de me olhar?
Murilo engoliu em seco e colocou a tigela na mesa de cabeceira: — Pare com isso.
— Murilo, você é hipócrita — Nina sentou-se entre as pernas dele, passando o dedo pelo hematoma na clavícula dele. — O que somos agora? Brinquedos um do outro?
Murilo segurou os pulsos dela contra a cama e calou a provocação com um beijo.
Desta vez, não foi descontrolado, mas um toque cauteloso.
Ao se afastarem, ele encostou a testa na dela, suplicando: — Nininha, eu te peço, não me torture mais.
Nina viu os olhos vermelhos dele e sentiu um cansaço repentino. Alisou as sobrancelhas franzidas dele e disse suavemente: — Vá buscar minha camisola.
Ele buscou a camisola de seda do hotel. Quando se virou, Nina estava de costas, soltando a toalha...
Era um corpo lindo que o fascinava.
A luz da lua desenhava sua coluna como um riacho na neve. Murilo soltou um gemido reprimido, forçando-se a ajudá-la a vestir a peça, deixando os dedos demorarem na cintura dela por alguns segundos a mais...
Ao colocá-la na cama, ela já dormia em seu ombro.
Ele resistiu e não a tocou...
As castanhas na mesa já estavam frias, com o saco de papel manchado pelo seu sangue.
Murilo descascou uma e, ao sentir o açúcar morno, seus olhos arderam... Como chegaram a esse ponto? Ele se arpendia amargamente...
De volta ao Brasil, Murilo dedicou-se inteiramente ao trabalho voluntário, determinado a provar sua mudança para Nina através de ações.
Sua aparência de descendência mista sino-francesa — nariz alto, olhos profundos e cabelos castanhos levemente ondulados — atraía olhares por onde passava.
Como voluntário na biblioteca municipal, assim que colocava a braçadeira de serviço, ouvia pais cochichando com os filhos: "Por que esse estrangeiro está trabalhando aqui?".
Até as senhoras que organizavam as prateleiras perguntavam em dialeto de onde ele era.
Murilo explicava com um sotaque local que era mestiço e criado ali. "Que rapaz dedicado!", comentavam admiradas.
Nos fins de semana no orfanato, sua estatura alta intimidava as crianças no início, mas ele logo as conquistava brincando de blocos e fazendo pipas.
Nos asilos, chegava antes do amanhecer para limpar quartos e janelas.
Quando se ajoelhava para abotoar com paciência a camisa de um idoso com Parkinson, os outros velhinhos se aproximavam para elogiar: "Que rapaz bonito e de bom coração!".
Murilo ouvia histórias de veteranos de guerra e chorava com eles.
Residentes que passavam por perto paravam para observar como aquele jovem de aparência exótica era paciente e gentil.
Seus antigos seguidores ficaram boquiabertos.
Um dia, o rapaz do cabelo tingido de amarelo comentou: — O que deu no Jovem Mestre Murilo? Antes vivia nas farras com a gente, agora só quer saber desses lugares.
O rapaz da cicatriz concordou: — Parece até que foi possuído.
Murilo ouviu a conversa e parou de cortar as unhas de um idoso para encará-los com seriedade: — Eu sei que vocês estranham. Eu fiz muita coisa errada no passado e magoei muita gente, especialmente a Nina. Estou fazendo isso para compensar meus erros e para que ela veja que mudei. Nossa vida de antes parecia boa, mas era vazia.
— Espero que vocês mudem também. Vamos fazer algo útil e parar com aquelas bobagens — continuou Murilo. Os rapazes se entreolharam e acabaram assentindo. O loiro admitiu: — Você tem razão, Murilo. Se você está se esforçando tanto, não vamos ficar para trás.
Sempre que participava de uma atividade, Murilo tirava fotos e as enviava para Nina.
Sorrindo com as crianças ou empurrando cadeiras de rodas de idosos, suado mas feliz. Ele esperava que isso gerasse uma faísca no coração dela.
Na Inglaterra, Nina recebia as fotos.
Ver aquele Murilo, antes tão cruel e agora tão entregue a causas sociais, a surpreendia e mexia com seus sentimentos.
Mas as feridas do passado ainda estavam frescas e ela não baixaria a guarda tão fácil.
Suas respostas continuavam curtas e frias: "Entendi. Parece que você está bem ocupado".
Apenas algumas palavras, sem emoção.
Como uma parede invisível entre os dois.
Murilo sentia o desânimo, mas não desistia.
Sabia que o caminho para o perdão seria longo e jurou persistir até o dia em que Nina o aceitasse de verdade.