Após o ocorrido...
Nina estava nua, encolhida debilmente em um canto do quartinho escuro. Sua pele ainda ostentava uma fina camada de suor que brilhava sob a luz tênue.
Seus fios de cabelo grudavam em suas bochechas e seu pescoço exibia as marcas avermelhadas deixadas pelo êxtase de Murilo.
A dor em sua intimidade latejava, e seu corpo ainda guardava o calor residual do contato com ele...
Ela abraçava a si mesma com força, como se pudesse isolar as memórias caóticas e vergonhosas que a assombravam.
Do outro lado, Lucas permanecia amarrado; seu rosto era uma máscara de dor e fúria, e seus olhos transbordavam o desespero de quem fora traído.
— Nina, como você pôde? — a voz de Lucas tremia, carregada de incredulidade. — Crescemos juntos, eu sempre estive ao seu lado... como pôde transar com o Murilo?!
Nina ergueu o rosto, com o olhar perdido em agonia.
— Lucas, eu... eu também não sei...
— Perto do Murilo, eu sinto um medo terrível, eu quero resistir, mas meu corpo parece não me obedecer.
— Cada vez que ele se aproxima, sinto um pavor desconhecido, mas, por causa do passado terrível, sinto também uma familiaridade distorcida.
Ela soluçava, com a voz cada vez mais baixa.
— E com você, eu sinto que... sinto que algo mudou. Eu resisto ao seu toque, não quero te ferir, mas não consigo mais ser como antes.
Lucas lutava contra as cordas, que cortavam seus pulsos.
— Não, Nina! Você me ama! Aquele animal te forçou, a culpa não é sua! Eu vou te tirar daqui, vamos voltar ao passado e fingir que nada disso aconteceu!
Nina balançou a cabeça lentamente, as lágrimas caindo sem parar.
— Lucas, não há volta. Eu passei o tempo todo fugindo, fugindo do meu íntimo, fugindo do que sinto por você. Achei que com você ao meu lado tudo ficaria bem, mas eu errei...
— Lucas, o que sinto por você é dependência, é gratidão, mas não é amor. Depois de fazer algo tão vergonhoso, eu não tenho mais cara para te ver...
— NÃAAAAAO!!!! — Lucas rugiu, lutando freneticamente contra as amarras, deixando marcas de sangue na pele. — Você está mentindo! Como pode fazer isso comigo? Eu fiz tudo por você e agora você me descarta! — O olhar de Lucas tornou-se insano. — Se você não quer vir comigo, então ninguém terá você!
Lucas conseguiu se soltar das cordas e avançou contra Nina, prensando-a contra a parede. Ela lutava aterrorizada, tentando empurrá-lo.
— Lucas, acalme-se...
No momento crítico, Murilo, como um leão enfurecido, arrancou Lucas de cima dela e o arremessou ao chão.
— Lucas! Se tocar nela de novo, você morre!
Murilo virou-se para Nina com o olhar transbordando compaixão: — Nininha, você está bem?
Nina, ainda em choque e tremendo, recuou um passo por instinto.
O olhar de Murilo escureceu com a reação, mas ele logo se recompôs.
— Nininha, eu sei que você tem medo e me rejeita agora, mas eu vou esperar.
Vou fazer você me aceitar passo a passo, e farei você perdoar tudo o que eu te causei.
Nina mordeu o lábio: — Murilo, eu... não sei como olhar para você...
Murilo disse docemente: — Tudo bem, não tenha pressa. Eu entendo como se sente e sei que te machuquei demais. Mas desta vez, eu falo sério. Meus estudos estão no Brasil e não posso me mudar para a Inglaterra agora, mas vou voar para cá sempre para te ver. Sempre que precisar de mim, estarei aqui.
Dizendo isso, Murilo tirou um cartão do bolso e entregou a ela. — Isto é para suas despesas. Eu sei que talvez não queira aceitar, mas não quero que você passe necessidade aqui.
Nina recusou: — Não posso aceitar. Não quero envolvimento financeiro com você.
Murilo insistiu, colocando o cartão na mão dela. — Aceite como uma compensação. Eu quero cuidar de você, é o mínimo que posso fazer. Acredite, eu nunca mais vou te machucar.
Nina segurou o cartão com sentimentos confusos.
Pela primeira vez, viu sinceridade e ternura nos olhos dele, em vez da arrogância habitual.
Lucas levantou-se do chão e encarou os dois com ódio: — Murilo, não cante vitória. Eu não vou deixar isso barato! — E saiu disparado do armazém.
Murilo quis ir atrás dele, mas Nina segurou seu braço. — Deixe-o ir. Eu falhei com ele, devo demais a ele.
Murilo assentiu: — Tudo bem, farei o que você quiser, desde que você esteja segura.
Nina encostou-se na parede e fechou os olhos, exausta.
O que aconteceu destruiu qualquer chance com Lucas, mas como a relação era recente, terminar agora era a melhor forma de minimizar os danos.
Além disso, tudo o que disse a Lucas foi para que Murilo parasse de persegui-lo.
Quanto a Murilo, embora seu corpo tivesse reações vergonhosas, seu coração não permitia amar quem a ferira tanto.
Já que ele a perseguia como um fantasma, ela usaria isso a seu favor: devolveria cada dor que ele a fez sentir!
O som da porta batendo ecoou e Nina desabou no chão. Murilo tentou ajudá-la, mas ela desviou o rosto.
Ele hesitou, mas cobriu os ombros dela com seu paletó: — Nininha, o chão está gelado.
Nina olhou para o emblema bordado no paletó e soltou uma risada fria: — Quanta gentileza, Jovem Mestre Murilo. Quando você rasgou meu vestido anos atrás, não se preocupou se eu teria frio, não é?
Murilo engoliu em seco.
As memórias do abuso durante a competição nacional voltaram como uma maré; ele a possuíra a noite toda, olhando-a chorar encolhida.
O ódio nos olhos dela agora o atingia como uma facada no coração.
— Nininha, naquela época eu...
— Naquela época eu era um brinquedo? — Nina ergueu o rosto, com os olhos vermelhos. — Agora que o interesse voltou, quer posar de apaixonado?
Ela arrancou o paletó, expondo as marcas roxas no pescoço sob o ar frio: — Acha que uma noite de sexo apaga o que você fez?
Murilo perdeu o fôlego e segurou os pulsos dela contra a parede. Nina soltou um gemido de dor ao sentir os ferimentos.
O som o fez despertar e ele a soltou, mas ela aproveitou para pegar um caco de porcelana do chão e encostá-lo no próprio pescoço.
— Não chegue perto! Mais um passo e eu me mato aqui mesmo!
— Nina! — Murilo ergueu as mãos e recuou lentamente, suando frio. — Eu não vou me mexer, largue isso, por favor. Amanhã eu te levo ao hospital para um exame.
Nina o encarou com desprezo: — Não se incomode, eu vou sozinha. Não quero pegar nenhuma doença suja de você.
O rosto de Murilo empalideceu. Ele tremeu, tentando falar: — Nininha... eu só amei você em toda a minha vida, eu só estive com você... como eu teria uma doença?
Ele a encarava com agonia, buscando um rastro de confiança no olhar dela.
Nina apenas virou o rosto com frieza: — Cale a boca. Não quero mais falar do passado.
Suas palavras eram lâminas cravadas no peito dele. Murilo sentiu as forças se esvaírem, sem saber como obter o perdão pelos erros cometidos.
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À noite, no quarto da casa do Sr. Chen.
As dores no corpo após o abuso eram constantes, mas a agonia mental era pior.
Ao tocar as marcas de beijos em seu pescoço, Nina lembrou-se de Murilo sussurrando em seu ouvido: "Nininha, eu errei...".
Na escuridão, ela parecia uma estátua de desespero e disse para o nada, com voz firme:
— Murilo, agora é a sua vez de provar o sabor da dor.