Os dias de Murilo no hospital não eram fáceis; ver Nina e Lucas exibindo afeto constantemente era como ter o coração perfurado por mil facas.
No entanto, o destino pregou-lhe uma peça quando, por um acaso, ele ouviu uma conversa entre os dois.
Naquele dia, aproveitando a troca de turno das enfermeiras, Murilo saiu do quarto para buscar água.
Ao passar por um quarto vazio, ouviu vozes familiares: eram Nina e Lucas.
Ele parou instintivamente e aproximou-se da porta, tomado pela curiosidade.
— Lucas, você não acha que estamos sendo cruéis demais com o Murilo? Ele se feriu para me salvar — dizia Nina, com hesitação e piedade na voz.
— Nina, você é boa demais. Esqueceu o que ele te fez passar? Isso é o que ele merece. Além disso, estamos fazendo isso para que ele perca as esperanças de vez — respondeu Lucas.
— Mas... sinto um peso na consciência. Ele quase morreu desta vez — insistiu Nina.
— Não tenha "mas", Nina. Vamos aguentar mais um pouco. Somos apenas um casal de fachada; quando ele parar de te perseguir, tudo ficará bem — consolou Lucas.
O coração de Murilo deu um solavanco: eles eram um casal de fachada!
Essa descoberta trouxe-lhe uma alegria secreta; ele sentiu que ainda tinha uma chance se conseguisse o perdão genuíno de Nina.
Porém, antes que pudesse saborear a notícia, seus pais decidiram transferi-lo de volta para o Brasil para continuar o tratamento.
No hospital no Brasil, Murilo sentia-se inquieto por estar longe de Nina, mas foi forçado a aceitar.
Seus dias passavam lentamente, preenchidos apenas pela imagem dela e pelo plano de reconquistá-la assim que se recuperasse.
Certo dia, seus antigos seguidores foram visitá-lo e começaram com as habituais bajulações.
— Jovem Mestre Murilo, o senhor foi um herói! Arriscou a vida para salvar aquela garota, é o nosso ídolo! — dizia um deles, com um sorriso bajulador.
Murilo sorria forçadamente, sem ânimo para os elogios, até que o assunto chegou a Nina.
Um rapaz de cabelos tingidos aproximou-se com desprezo: — Jovem Mestre, não sofra por aquela "usada". Ela é uma vagabunda; mal o senhor se feriu e ela já se agarrou com outro. Dizem que se pegam até nos corredores do hospital!
— Exatamente! — acrescentou outro seguidor, um rapaz com uma cicatriz no rosto, apagando o cigarro em um prato de frutas.
— Uma piranha dessas devia ser descartada na rua. Ela é um azar; o senhor teve sorte de não ter morrido por culpa dela!
— Com certeza ela te deu o golpe desde o início — cochichou o loiro. — Sabe-se lá com quantos ela dormiu antes de te fisgar. Agora que o senhor está assim, ela trocou de alvo. Dá nojo só de encostar!
Murilo apertou os lençóis com força... mas quando o rapaz da cicatriz mostrou fotos borradas de Nina amparando o ferido Lucas em um ângulo que parecia um beijo, a paciência dele acabou.
Murilo arrancou o acesso do soro e, com sangue respingando, partiu para cima do rapaz!
Antes que alguém reagisse, Murilo já o prensava contra a parede pelo pescoço.
Em sua fúria, ele entortou o suporte de metal do soro e o golpeou violentamente.
— Lave essa boca suja! — rugiu Murilo, como um demônio vindo do inferno.
Ele pegou a agulha do soro e a aproximou do rosto do rapaz: — Diga mais uma palavra e eu enfio isso no seu olho!
O outro seguidor tentou intervir, mas levou uma cotovelada no nariz, espalhando sangue pelo chão.
Murilo chutou as cadeiras e quebrou um vaso de vidro na cabeça de quem tentava fugir.
— Calem a boca! Quem ousar tocar em um fio de cabelo dela, vai passar o resto da vida numa cadeira de rodas!
O som de vidros quebrados e gritos ecoou pelo quarto.
Murilo imobilizou o rapaz da cicatriz com o joelho em seu pescoço: — Peça desculpas à Nina agora!!!
Quando as enfermeiras e seguranças entraram, encontraram o quarto destruído e Murilo coberto de sangue, rosnando: — Se tocarem nela... eu acabo com a família de vocês!
Os rapazes fugiram apressados, pedindo perdão.
Murilo sentou-se na cama, ofegante.
Ele percebeu que seu amor por Nina estava entranhado em seus ossos e que, embora ela estivesse fingindo com Lucas, ele faria de tudo para limpar seu passado e reconquistar o coração dela, protegendo-a de qualquer dor futura.
Na Inglaterra, Nina acostumou-se ao novo ritmo. A presença de Lucas trouxe calor à sua solidão e, após algum tempo, tocada pela companhia constante dele, os dois tornaram-se oficialmente namorados.
No campus, costumavam sentar-se juntos nos gramados, discutindo estudos sob a luz do sol.
— Lucas, não consigo entender bem esta parte da teoria — dizia Nina, franzindo o cenho.
Lucas aproximava-se com um olhar focado e paciente: — Tente pensar por este ângulo... — Sua voz era doce, como se o mundo fosse apenas os dois.
Entretanto, por trás da calma aparente, o coração de Lucas estava despedaçado.
A frase de Murilo — "Eu já dormi com ela faz tempo" — era como um tumor em sua mente, corroendo sua razão em cada momento com Nina. Ele a amava desde a infância e prometera protegê-la, mas a ideia de que Murilo possuíra o corpo dela destruía suas ilusões. Seu ciúme e frustração cresciam como ervas daninhas, distorcendo sua mente.
O desejo de posse de Lucas tornou-se sufocante.
Certa vez, após um encontro, ele segurou a mão de Nina com uma urgência maníaca nos olhos: — Nina, estamos juntos há tanto tempo... você não quer ter uma relação mais íntima comigo?
Nina estancou, surpresa e confusa: — Lucas, as coisas não estão boas assim? Eu... eu ainda não estou pronta...
Após o trauma com Murilo, o contato físico era uma barreira psicológica difícil de superar para Nina. Ela desejava apenas um amor puro e sem agressões.
Lucas sentiu a fúria subir à cabeça, mas forçou um sorriso: — Tudo bem, eu espero por você.
Mas, ao virar as costas, seus olhos tornaram-se gélidos e ele rangeu os dentes:
— Murilo, seu maldito... eu não vou te perdoar por ter destruído tudo...
A partir daí, Lucas continuou fingindo ser o namorado perfeito. Caminhavam de mãos dadas e participavam de eventos, parecendo o casal ideal aos olhos dos outros.
No entanto, Nina sentia que algo em Lucas havia mudado... havia uma película invisível entre eles, impedindo que se aproximassem verdadeiramente.