3
Fiquei aterrorizada o caminho inteiro.
Sob a pressão intimidadora do homem-serpente, dirigi até a minha vila.
Ele estava extremamente alerta, caminhando colado a mim.
Somente quando entramos no elevador, reuni coragem para perguntar com cautela.
"Aqui é seguro, você já pode..."
Tum!
Um baque surdo, algo pesado caiu sobre o meu ombro.
Olhei de soslaio e vi que o homem-serpente havia desmaiado.
Seus lábios estavam pálidos enquanto ele repousava sem forças sobre mim.
Seu corpo ainda estava banhado em sangue fresco. Parecia gravemente ferido.
Hesitei por um momento, mas usei toda a minha força para arrastá-lo até a beira da banheira.
Peguei a caixa de primeiros socorros e comecei a cuidar de suas feridas.
A capacidade de autocura dos homens-serpente é impressionante.
Aquelas feridas onde o sangue havia estancado começaram a cicatrizar, centímetro a centímetro, diante dos meus olhos.
Comecei a observá-lo com atenção.
De olhos fechados e lábios cerrados, sua pele alva era firme e sedosa.
Ele exalava uma aura de frieza e indiferença nata.
Conforme o efeito do agente de transformação passava, suas pernas longas voltavam gradualmente a ser uma cauda coberta de escamas.
Olhando para ele, eu quase comecei a salivar.
"Esse homem-serpente é macho ou fêmea? Ouvi dizer que, antes da diferenciação, as serpentes são hermafroditas. Será que este já se diferenciou?"
"Que tal... dar uma olhadinha?"
Plá!
O que você está pensando! Dei um tapa em mim mesma para afastar esses pensamentos absurdos.
4
Enquanto eu refletia, ouvi subitamente o som da porta se abrindo.
Enzo entrou vestindo um terno elegante, exibindo um par de belas orelhas de raposa com brincos prateados.
Ele olhou para as manchas de sangue no chão e disse com indiferença.
"Período menstrual?"
"Francamente, você nem para limpar isso, é um tanto repugnante."
Enzo parecia exausto. Ele começou a tirar a roupa enquanto caminhava em direção à sala de banho.
"Vou tomar um banho", disse ele.
Se fosse no passado, eu certamente não resistiria a dar umas olhadas no abdômen dele.
Mas agora...
Eu o barrei imediatamente, gritando: "Enzo, espere um pouco!"
No entanto, Enzo foi rápido em desviar do meu braço, com um brilho de repulsa e desprezo passando por seus olhos.
Recolhi minha mão calmamente.
Espiei o interior da banheira. O homem-serpente já havia desaparecido, o que me fez suspirar de alívio.
Enzo ergueu o olhar e, subitamente, pareceu entender a situação.
Ele soltou uma risada debochada:
"Senhorita Alice, você não precisa estar tão desesperada assim, precisa?"
Quase dei risada de puro ódio com esse comentário.
Ele de fato tem certa beleza, mas diante da perfeição absoluta daquele homem-serpente, ele deixa muito a desejar.
Além do mais, eu não precisava mais insistir em alguém que claramente me rejeitava.
Ergui o queixo dele, com um olhar carregado de significado.
"Desesperada? Por você? Você não está à altura disso."
"Você!" Enzo ficou sem palavras.
Caminhei até a gaveta próxima à mesa de centro.
Peguei uma pilha de documentos e os joguei casualmente contra o peito dele.
"Você não queria tanto que minha irmã te adotasse? Aqui está o acordo de rescisão de guarda. Eu já assinei." "Enzo, você está livre."
Pronunciei cada palavra quase sem emoção.
Ele, que sempre fora calmo e indiferente, ficou em choque.
Uma onda de emoção surgiu nos olhos de Enzo, mas logo se dissipou.
Ele zombou com desdém:
"Alice, não se arrependa. Assim que eu passar por aquela porta, nunca mais olharei para você!"
Dei de ombros.
"A porta é a serventia da casa."
Ele recolheu o acordo com o rosto gélido e saiu da minha casa sem olhar para trás.
Não houve um pingo de hesitação ou saudosismo.
Observando suas costas, soltei um suspiro pesado.
Às vezes penso que, se eu criasse um cachorro, ele ao menos abanaria o rabo para me agradar.
Mas cuidei do Enzo por todos esses anos e ele nunca permitiu sequer que eu o tocasse.
Seu olhar sempre transbordava nojo.
Como se... eu fosse algo sujo. Ri de mim mesma em pensamento.
Esqueça.
Todo o carinho que dediquei a ele foi como jogar pérolas aos porcos.