Do lado de fora da janela, uma sombra permanecia em silêncio.
Através do vidro, Arthur observava Alice desmoronar em prantos nos braços de Gabriel.
Seus ombros frágeis tremiam como uma folha seca prestes a cair ao vento, e a gaze em seu pulso era um lembrete gritante de que ela preferia ferir a si mesma a ter que voltar para ele.
Os punhos de Arthur estalaram e os nós de seus dedos empalideceram, mas o que inundava seu coração não era raiva, e sim uma dor surda que o sufocava.
Ele se lembrou de quando ela se ajoelhou na neve, insistindo em acompanhá-lo até desmaiarem de febre; lembrou-se de quando ela teve hemorragia gástrica e ainda assim lhe entregou secretamente uma bala de morango, dizendo com um sorriso que "comer isso depois do remédio é o jeito mais doce".
Lembrou-se dos três anos em que ela desapareceu, de como ele procurou loucamente por todo o mundo e, finalmente, de como bateu a cabeça diante de divindades implorando para que ela voltasse.
Ele havia jurado amá-la e protegê-la para sempre.
Contudo, agora, ele se tornara a pessoa que a levara ao desespero total.
"Sr. Arthur, devemos continuar?", perguntou o subordinado atrás dele em voz baixa.
Arthur não respondeu.
Sua garganta apertou e sua visão embaçou por um instante ao ver Alice erguer a cabeça e olhar vagamente pela janela.
O olhar dela o atravessou, como se ele já não existisse mais no mundo dela.
Que ridículo. Ele pensou que, se fosse cruel e forte o suficiente, poderia recuperá-la.
Mas agora ele entendia que o verdadeiro amor não é possessão, mas sim... libertação.
"Cancelem todos os planos", disse ele, virando-se em direção ao elevador com a voz rouca e sem fôlego.
"... Sim, imediatamente".
No momento em que as portas do elevador se fecharam, uma gota d'água caiu nas costas de sua mão.
Ele estancou por um momento e tocou a própria bochecha. Afinal, ele estava chorando.
Três dias depois.
A condição de Alice estabilizou-se gradualmente, mas a cicatriz em seu pulso permanecia como um lembrete sinistro.
Gabriel não saiu do lado dela nem por um segundo, dormindo até no sofá do quarto de hospital durante as noites.
Em uma madrugada, Alice acordou de um pesadelo e o encontrou segurando a mão dela, com o cenho franzido e olheiras profundas.
Ela acariciou suavemente o vinco entre as sobrancelhas dele, despertando-o.
"O que houve? Está doendo?", perguntou ele, acordando instantaneamente com a voz rouca.
Alice balançou a cabeça e perguntou de repente: "Por que... não desiste de mim?".
Gabriel silenciou por um momento e tirou do bolso uma foto amarelada — era ele quando criança, escondido em um armário enquanto ouvia os gritos e pancadas de seu pai embriagado do lado de fora.
"Porque eu sei como é a sensação de ser abandonado", ele disse, acariciando a foto.
"Lice, você merece ser escolhida com determinação, exatamente como escolheu sobreviver daquela vez".
As lágrimas de Alice caíram sobre as mãos entrelaçadas dos dois.
Uma semana depois, eles voltaram ao estúdio.
Pendurado na maçaneta da porta, havia um envelope de papel pardo contendo uma passagem aérea para a Islândia e um bilhete:
"Lice, esta é a aurora boreal que eu te devia. — Arthur"
Alice jogou a passagem na fragmentadora de papel.
Em meio ao som das tiras de papel sendo trituradas, ela segurou a mão de Gabriel: "Eu não preciso da aurora boreal".
Ela apontou para o céu nublado lá fora: "Onde você está é o meu dia de sol".
No alto de um edifício distante, Arthur baixou o binóculo e caminhou em direção ao aeroporto.
Antes de embarcar, ele olhou uma última vez para a cidade — o lugar onde residia o amor que ele não poderia recuperar mesmo que dedicasse a vida inteira e um despertar que chegara tarde demais.
Enquanto o avião subia em direção às nuvens, ele fechou os olhos e finalmente deixou que as lágrimas acumuladas por anos transbordassem.
————————————
Três meses depois, em um campo de flores de canola em sua terra natal.
Alice usava um vestido longo e simples de algodão branco, com uma pequena flor amarela silvestre presa no cabelo. Não havia vestido de noiva nem convidados; apenas o dourado sem fim balançando ao vento, como a benção mais suave da terra.
O bolso do terno de Gabriel estava cheio de balas de morango. Ele estava tão nervoso que quase tropeçou no caminho, fazendo Alice rir até chorar.
"Sra. Alice", ele segurou o pulso dela marcado pelas cicatrizes e inclinou-se para beijar aquelas marcas terríveis, "você aceita...?"
"Eu aceito", ela o interrompeu, ficando na ponta dos pés para encostar a testa na dele. "Muito antes das cem idas e vindas entre a vida e a morte, eu já pertencia a você".
Eles não tinham alianças, então Gabriel entrelaçou um anel com um talo de erva e o deslizou suavemente no anelar dela: "Quando voltarmos, comprarei uma de verdade".
"Esta já é a de verdade", disse Alice, pressionando a mão dele contra o próprio peito. Ao longe, a fumaça subia das chaminés e o pôr do sol alongava as sombras dos dois, fundindo-as em uma só.
Enquanto isso, do outro lado do oceano, na Islândia , Arthur estava parado em uma praia de areia preta enquanto a aurora boreal ondulava no céu noturno como um véu verde. O guia disse sorrindo: "Diz a lenda que a aurora boreal pode levar embora a saudade mais persistente".
Ele ergueu a cabeça observando aquele brilho deslumbrante e lembrou-se subitamente de que Alice sempre dizia que a aurora parecia o "efeito visual da transferência do sistema".
Afinal, no fim das contas, ele acabara vendo aquela aurora boreal por ela.
Quando o vento e a neve apertaram, ele virou-se em direção ao aeroporto, deixando atrás de si uma trilha de pegadas que logo seria sepultada pela neve fresca.
FIM