Três meses depois, eles abriram juntos um pequeno estúdio de consultoria psicológica.
Gabriel ficou responsável pelo tratamento profissional, enquanto Alice usava sua capacidade de empatia para confortar as almas feridas.
Ela sempre conseguia entregar uma xícara de chá de flores na temperatura perfeita antes que um paciente entrasse em colapso, ou aparecia com uma bala de morango quando uma criança chorava — mimos que Gabriel preparava com antecedência, embora nunca buscasse crédito por isso.
Certa madrugada, enquanto organizava os arquivos, Alice descobriu uma folha de papel presa no caderno de Gabriel, onde suas preferências estavam meticulosamente registradas:
Estômago sensível, evitar bebidas geladas; facilidade para ter dor de cabeça em dias de chuva, preparar óleo essencial de hortelã; comprar apenas materiais de desenho da marca Marco, ela prefere cabos de madeira...
A caligrafia passava de organizada para desleixada, e a última linha fora riscada repetidamente, mas ainda se podia distinguir o contorno da palavra "amor". O coração dela saltou uma batida.
Ela estava agachada no depósito do estúdio organizando arquivos antigos, e o ar úmido fazia as páginas enrugarem levemente.
Uma pilha de prontuários escorregou para o chão, revelando um caderno preto escondido embaixo — era o "registro de privacidade dos pacientes" que Gabriel nunca a deixava tocar.
Mas, quando ela o recolheu, o caderno se abriu, revelando páginas inteiramente cobertas com anotações sobre ela.
3 de maio: Lice comeu meia tigela de arroz a mais hoje. Recompensa: comprar bolo de morango amanhã.
7 de maio: Ela teve um pesadelo. Solução: adicionar óleo essencial de lavanda ao chá.
15 de maio: Ela ficou distraída olhando para a foto antiga de Arthur por 37 minutos. Sugestão: levá-la ao novo café de gatos.
A última linha fora riscada com força e reescrita: Quero beijá-la. Não posso.
A ponta dos dedos de Alice pairou sobre aquela linha, e seu coração disparou violentamente.
"Espiar as notas do médico gera multa", a voz de Gabriel veio de trás, com um toque de nervosismo imperceptível.
Ela se virou e o viu com as mangas da camisa branca sujas de tinta, segurando um vaso de planta murcha — era a hortelã que ela mencionara gostar na semana passada, agora protegida cuidadosamente em seus braços, com as folhas ainda molhadas da chuva.
"Eu...", as orelhas dela arderam, "pensei que fosse um prontuário."
Gabriel colocou a hortelã no parapeito da janela, enquanto a luz do sol atravessava o vidro manchado pela chuva, projetando sombras douradas em seus cílios. "Agora você já sabe", disse ele suavemente, "sou um médico terrível."
"Por quê?"
"Porque...", ele de repente estendeu a mão para afastar uma gota de chuva do cabelo dela, com os dedos parando atrás de sua orelha, "não consigo curar minha própria doença."
Alice prendeu a respiração.
O polegar dele acariciou levemente o lóbulo de sua orelha, com a voz tão baixa que era quase inaudível: "Os sintomas incluem: sentir dor no estômago ao vê-la desenhar Arthur, querer matar alguém ao ouvi-la chorar e...", a respiração dele roçou a ponta do nariz dela, "uma vontade enorme de quebrar as regras agora."
Lá fora a chuva apertava, e o aroma da hortelã preenchia o pequeno depósito.
Eles começaram a cruzar a linha em um acordo tácito.
A gaveta da mesa de Gabriel sempre tinha balas de morango, mas a partir de certo dia, embaixo da caixa de doces surgiu um bilhete: Hoje te amo mais do que ontem — exatamente igual ao papel que Arthur enterrou sob as rosas brancas anos atrás.
Alice tremeu ao ver aquilo, mas Gabriel a abraçou por trás: "Não sou um substituto, estou declarando guerra."
Ele a levou para comer macarrão em um beco profundo, e o dono perguntou sorrindo: "Sua namorada?".
Gabriel afastou o óleo de pimenta e respondeu sem mudar a expressão: "Noiva".
Alice engasgou com a sopa quente, e ele segurou a mão trêmula dela por baixo da mesa: "Você pode negar".
Em vez disso, ela colocou o dedo anelar na palma da mão dele com o rosto corado.
Naquela noite, a caminho de casa, ele a carregava nas costas pelas ruas alagadas e disse de repente: "Lice, vamos fugir".
"O quê?"
"Para a Islândia." A voz dele tinha uma teimosia rara. "Sem Arthur, sem sistema, apenas a aurora boreal e os vulcões..."
Alice enterrou o rosto no pescoço dele, sentindo o cheiro de chuva e madeira de pinho. Ele segurou a mão dela e lhe entregou um desenho: no centro de uma nebulosa pintada a óleo, havia uma pequena impressão digital.
"Desde o Big Bang", ele apontou para a marca, "esta estrela já estava esperando por você."
Alice riu até começar a chorar: "Doutor Gabriel, isso conta como um romance entre médico e paciente?".
"Não." Ele se ajoelhou, tirou a caixa de metal de balas de morango e dentro dela repousava um anel simples. "É uma aliança de sobreviventes."
Alice desabou em lágrimas. De repente, ela entendeu que nunca quis um amor avassalador; ela queria apenas a paz de uma vida tranquila.
Ela estava prestes a estender a mão quando ouviu um grito dilacerante: "Lice!".
Alice congelou. Arthur estava parado sob a chuva, com o terno encharcado e bagunçado.
Seus olhos estavam injetados de sangue, fixos nela como se ela fosse a única luz na escuridão.
Seus lábios tremiam e a voz soou rouca e despedaçada: "Lice... finalmente te encontrei."