Quando as cerejeiras do sanatório floresceram, Gabriel bateu à porta do quarto de Alice.
Ele segurava uma xícara de chocolate quente e, em meio ao vapor, seu olhar era terno e firme: "Lice, gostaria de tentar a terapia por hipnose para ajudar a curar suas feridas internas".
Os dedos de Alice se contraíram, com os nós empalidecendo.
Aquelas memórias eram como cacos de vidro afiados; o menor toque a faria sangrar profundamente.
Mas o olhar de Gabriel era tão calmo, como uma terra firme que nunca afundaria, que ela acabou assentindo como se guiada por uma força estranha.
Na sala de terapia, as cortinas estavam semicerradas e a luz era difusa.
A voz de Gabriel era como uma corda macia, conduzindo-a gentilmente: "Diga-me, o que o Arthur estava fazendo na primeira vez que você o viu?".
"Ele estava encolhido no canto do porão... com os pulsos cobertos de sangue."
A voz dela era leve como um sopro e seus cílios tremiam violentamente.
"O sistema disse que o nível de escuridão dele faria o mundo colapsar."
A caneta de Gabriel parou sobre o papel por um segundo.
Ele inicialmente pensou que se tratasse apenas de delírios pós-traumáticos, mas a descrição dela era detalhada demais — as cicatrizes do jovem de dezessete anos, os detalhes de ficar ajoelhada na neve por seis horas e até as reações fisiológicas do suicídio por eletrocussão eram assustadoramente reais.
"E depois?", ele continuou perguntando calmamente.
"Depois eu morri noventa e nove vezes..."
Suas lágrimas caíram silenciosamente.
"Na última vez, engoli os soníferos e o sistema finalmente me deixou voltar... mas ele já tinha o filho de outra pessoa."
Gabriel apertou a caneta subitamente.
Ele já vira muitos pacientes com traumas psicológicos, mas ninguém jamais conseguira replicar com tanta precisão a frequência respiratória e a contração das pupilas de uma experiência de quase morte.
Ao fim da hipnose, Alice estava com as costas encharcadas de suor.
Ela ergueu os olhos para ele e, de repente, sorriu: "Você acredita que isso realmente aconteceu? Até eu mesma estou quase deixando de distinguir a realidade".
Ela tentava obstinadamente perscrutar algo no olhar dele; queria provar que não era louca!
Gabriel não se apressou em buscar uma resposta.
Ele empurrou o chocolate quente para perto dela, com um cubo de açúcar no pires — ela sempre achava amargo, mas tinha vergonha de dizer.
Esse gesto sutil fez Alice estacar por um momento, com os dedos acariciando inconscientemente a borda da xícara.
"A partir da próxima semana, tentaremos a terapia por desenho."
Ele fechou o caderno com um tom casual. "Você pode desenhar qualquer coisa, mesmo que sejam... aqueles momentos de 'morte'."
Alice ergueu a cabeça bruscamente.
"Ter medo das memórias é o que nos faz ficar presos nelas."
A voz de Gabriel era muito leve, mas agia como um bisturi de precisão, abrindo suas feridas ulceradas. "Desenhar é o primeiro passo para expulsar essa dor do seu corpo."
Na primeira sessão de desenho, Alice ficou sentada diante do papel em branco por quarenta minutos inteiros, com a ponta do lápis criando um sulco profundo como um buraco negro no papel.
Gabriel não a apressou. Ele estava sentado perto da janela desenhando; seu perfil era banhado por uma luz dourada e a cerejeira sob seus traços ganhava forma gradualmente.
"Eu não consigo desenhar", ela finalmente falou com a voz rouca.
"Então comece por isto."
Gabriel rasgou metade de uma folha e a colocou diante dela.
"Quando eu tinha pesadelos na infância, minha avó me pedia para desenhar 'a cauda do pesadelo' — bastava desenhar o fragmento mais nebuloso."
Alice encarou o papel por um longo tempo e, de repente, desenhou uma linha torta — eram os cubos de gelo suspensos no poço onde ela estivera em seu nonagésimo sétimo suicídio.
A caneta de Gabriel parou por um instante.
Ele reconhecia aquele tipo de traço — desenhos de pacientes com transtorno de estresse pós-traumático costumam ter traços trêmulos, mas as linhas dela eram estranhamente estáveis, como se replicassem uma memória muscular.
"Muito bem", disse ele suavemente. "Amanhã desenhe mais um traço, apenas um."
Uma semana depois, o contorno completo do poço de gelo surgiu no papel de Alice.
Gabriel guardou o desenho dentro de um livro antigo, cujas letras douradas na lombada com o título "Psicologia de Jung" já estavam desgastadas.
Ele abriu em uma página e apontou para ela: "Jung dizia que as sombras não desaparecem, mas podemos aprender a conviver com elas".
"Como conviver?", ela perguntou encarando as próprias unhas manchadas de tinta.
"Por exemplo..." Gabriel subitamente tirou um martelo de uma gaveta e, diante do olhar atônito dela, quebrou a moldura de vidro que guardava o desenho do poço de gelo. "Dando a ele um novo desfecho."
Os cacos de vidro voaram, mas o papel ficou intacto.
Ele o recolheu e entregou a ela: "Agora, este é o seu troféu". Alice pegou o papel e notou uma pequena frase escrita no verso:
[Pela 97ª vez, Alice venceu o poço de gelo.]
Suas lágrimas caíram sobre o papel.
Três meses se passaram e o caderno de desenhos de Alice tornava-se cada vez mais espesso.
Na página trinta e três estava a banheira do afogamento, mas na borda havia uma mão estendida para ajudar; na página dezessete, a cena do corte nos pulsos fora substituída por um pulso enfaixado com um laço feito de papel de bala de morango.
As notas de Gabriel também se tornavam mais detalhadas, mas na última página havia um sussurro escrito a lápis:
[Se existirem mundos paralelos, espero que o meu outro eu possa encontrá-la mais cedo.]
Em uma noite chuvosa, Alice subitamente bateu à porta do escritório de Gabriel.
Ela estava encharcada e apertava contra o peito o seu último desenho — era a silhueta de Arthur segurando o bebê. O papel estava manchado pela chuva e a tinta borrada, mas o rosto do bebê fora apagado repetidamente por ela, tornando-se apenas um halo nebuloso de luz.
"Eu não consigo mais desenhar...", disse ela com a voz despedaçada.
Gabriel pegou o desenho e, de repente, usou uma caneta de tinta vermelha para desenhar um enorme "X" nas costas de Arthur.
"Então vamos dar um fim a isso." Ele fixou o desenho na parede e segurou a mão trêmula dela: "A partir de hoje, ele não faz mais parte da sua história".
Lá fora a tempestade estiava e um raio de luar iluminou justamente o desenho "executado" na parede.
Alice olhou para as mãos entrelaçadas dos dois e percebeu algo: a palma da mão de Gabriel tinha calos iguais aos dela, marcas deixadas pelo longo tempo segurando o lápis.
Neste mundo real, finalmente havia alguém compartilhando a mesma passagem do tempo com ela.