Naquele dia, Alice foi transportada de volta para o seu mundo original, perdendo tudo: casa, carro e todas as suas economias.
Ela já era órfã e, sem ninguém a quem recorrer, a realidade cruel a fez sentir tonturas constantes de fome.
Alice acabou desmaiando na porta de um sanatório infantil, enquanto uma chuva forte caía do céu.
Ela estava tão magra que mal parecia a mesma pessoa, com os dedos pálidos apertando o colarinho com força, como se tentasse segurar algo, mas sem conseguir agarrar nada.
Após perder tudo o que o sistema lhe dera, ela não podia comprar nem o último pedaço de pão; a fome e o desespero finalmente a derrotaram.
"Rápido! Levem-na para dentro!", alguém gritou.
Em meio ao torpor, ela sentiu ser carregada por braços quentes.
O peito do homem era firme e o som das batidas do coração atravessava o tecido da roupa, uma a uma, como um consolo silencioso.
Ao acordar, ela estava deitada em uma cama pequena, simples, porém limpa.
A luz do sol entrava pelas cortinas de renda, iluminando seu pulso magro. Onde antes havia um relógio de valor inestimável, agora restava apenas uma leve marca de bronzeado.
"Acordou?", uma voz masculina suave soou.
Alice virou a cabeça e encontrou olhos calmos como um lago.
As mangas da camisa branca do homem estavam dobradas até os cotovelos, revelando antebraços fortes.
Ele segurava uma tigela de canja fumegante, cujo aroma despertou imediatamente uma pontada de dor em seu estômago.
"Coma algo primeiro", ele colocou a canja na cabeceira, com uma voz muito leve, como se temesse assustá-la.
"Você esteve inconsciente por dois dias".
Alice não se mexeu. Ela encarou a tigela, lembrando-se subitamente de que Arthur também costumava preparar canjas de arroz cor de âmbar quando ela sentia dores no estômago, soprando-as cuidadosamente antes de alimentá-la.
"O quê? Tem medo de que eu tenha colocado veneno?", o homem riu baixo, tomando ele mesmo uma colherada primeiro.
"Veja, não há veneno".
Só então Alice aceitou a tigela. No instante em que o primeiro gole de canja quente desceu pela garganta, suas lágrimas caíram sem aviso dentro da tigela.
"Meu nome é Gabriel", o homem entregou-lhe um lenço.
"Sou o psicólogo daqui".
As paredes do sanatório estavam cobertas de desenhos feitos pelas crianças: sóis coloridos e arvorezinhas tortas.
O olhar de Alice pousou inconscientemente em um desenho — era um "retrato de família" feito por uma menina, com o pai e a mãe segurando a criança, os três sorrindo radiantes.
Seus dedos tocaram involuntariamente o ventre agora plano.
"Você já esteve grávida?", Gabriel perguntou de repente.
Alice ergueu a cabeça bruscamente, com o olhar alerta.
"Não fique nervosa", Gabriel apontou para o pulso dela.
"Enquanto estava inconsciente, você não parava de apertar a barriga, chamando por 'Marina'. Esse era o nome da criança?".
As unhas de Alice cravaram-se na palma da mão.
Aquela criança que nem teve tempo de nascer, o nome que ela mesma escrevera na urna funerária:
[Minha filha Marina, espero te reencontrar em outro mundo]
"Sintomas de depressão pós-aborto são muito comuns", a voz de Gabriel era tranquila, como se discutisse o clima do dia.
"Se você quiser, pode trabalhar aqui. As crianças precisam de alguém que as acompanhe para desenhar".
Alice quis recusar, mas ao entrar na sala de atividades, uma menina puxou timidamente a ponta de sua blusa: "Irmã, você pode me ensinar a desenhar a minha mãe? Eu... eu não me lembro de como ela é".
Os olhos da menina eram idênticos aos de Arthur — escuros, brilhantes, carregados de uma expectativa cautelosa. A respiração de Alice travou por um instante.
"Sim", ela ouviu a si mesma dizer.
A partir daquele dia, ela ficou no sanatório. Durante o dia, acompanhava as crianças nos desenhos; à noite, encolhia-se na cama pequena do depósito, sofrendo de insônia noite após noite.
Gabriel sempre passava "por acaso", trazendo-lhe diversas coisas.
Às vezes, uma caixa de balas de morango com um bilhete atrás: "Comer isso depois do remédio é o jeito mais doce".
Em noites de chuva forte, ele lhe trazia um casaco grosso. Ele nunca perguntava sobre o passado dela, apenas ficava em silêncio acompanhando-a na organização dos materiais de desenho ou, durante os plantões noturnos, deixava "convenientemente" uma luz acesa para ela.
Até que, em uma noite chuvosa, Alice acordou de um pesadelo e se viu no terraço, com metade do corpo já projetado para fora da mureta.
"Alice!", Gabriel a abraçou com força por trás, com a chuva molhando seus cílios. "Olhe para mim!".
Ela se virou e viu a camisa branca dele, sempre impecável, encharcada pela chuva, e o cabelo colado à testa.
O braço dele estava arranhado por ela, mas ele não a soltava.
"Se você morrer, aquela criança chamada Marina realmente não terá mais ninguém para se lembrar dela", a voz dele estava rouca. "Você tem coragem de fazer isso?".
Alice de repente desabou em prantos.
Gabriel a levou de volta à enfermaria e secou o cabelo dela com uma toalha seca, pouco a pouco.
Sob a luz amarelada, ele pegou uma pilha de papéis de desenho — eram os rascunhos que ela fizera naqueles dias; cada um deles mostrava o perfil do mesmo homem.
"Ele se parece muito com o pai da Marina?", Gabriel perguntou.
Alice fechou os olhos e assentiu.
"Existe um termo na psicologia chamado 'repetição traumática'", a voz de Gabriel era muito leve. "Quanto mais dolorosa é a memória, mais tendemos a revisitá-la repetidamente, como se isso pudesse mudar o desfecho".
Ele pegou uma folha de papel em branco e entregou-lhe uma caneta: "Tente desenhar outra coisa? Por exemplo...", ele apontou para fora da janela, "aquela cerejeira".
Alice desenhou durante a noite inteira.
Ao amanhecer, Gabriel olhou para os papéis espalhados pelo chão — desde o Arthur inicial até as cerejeiras, balanços e crianças sorridentes — e suspirou aliviado.
Nesse momento, um menino entrou correndo, segurando um desenho: "Professora Alice! Eu desenhei o seu retrato de família!".
No desenho, estavam ela e Gabriel segurando uma menina, os três parados sob a cerejeira.
O menino apontou orgulhoso para a pequena menina no papel: "Esta é a Marina! Ela deve estar deste tamanho agora lá no céu!".
As lágrimas de Alice transbordaram.
Gabriel agachou-se e disse seriamente ao menino: "Obrigado pelo desenho. Mas...", ele ergueu os olhos para Alice, com o olhar terno e firme, "a Professora Alice merece um futuro melhor, em vez de ficar para sempre presa nas memórias".
Lá fora, as pétalas de cerejeira eram sopradas pelo vento, como uma neve tardia.