Alice calculava mentalmente quanto dinheiro conseguiria obter ao vender as coisas que comprara com suas economias.
Ela não queria ter mais nenhum contato com Arthur após sua morte, nem desejava que um único centavo gasto tivesse qualquer relação com ele.
O vento noturno soprava, fazendo seu sobretudo fino farfalhar. De repente, alguém tapou sua boca.
No segundo seguinte, uma dor aguda a atingiu.
Uma mão grande e áspera a agarrou violentamente pela garganta por trás, com os nós dos dedos pressionando sua traqueia, enquanto a outra mão, exalando um odor pungente de éter, cobria seu nariz e boca com força.
Ela lutou freneticamente, cravando as unhas no braço do agressor e deixando marcas de sangue profundas, mas o homem apenas soltou uma risada fria e a jogou brutalmente dentro de um saco de estopa, como se ela fosse uma mercadoria qualquer.
"Humpf—!"
Sua nuca bateu com força no chão de cimento, e faíscas explodiram diante de seus olhos. O interior áspero do saco roçava em seu rosto, e a poeira invadia seus pulmões. Ela tentou se encolher desesperadamente, mas logo em seguida foi jogada com violência no chão.
"O Sr. Arthur disse para bater até quase morrer", alguém sussurrou com uma risada sinistra na escuridão.
O saco foi rasgado com brutalidade, e uma luz incandescente ofuscante atingiu suas pupilas. Alice fechou os olhos instintivamente, e lágrimas fisiológicas escorreram por suas bochechas.
Em sua visão embaçada, uma silhueta esguia estava parada contra a luz. O som dos sapatos de couro batendo no cimento soava como a contagem regressiva da própria morte.
Era Arthur.
Ele segurava um bastão de choque em mãos, com a ponta metálica brilhando friamente, como as presas de uma cobra venenosa.
"Ousou tocar no que é meu?", a voz dele era mais fria que o gelo. "Você tem muita coragem."
Alice abriu a boca, querendo gritar o nome dele, mas sua garganta, queimada pelo éter, não conseguia emitir som, apenas ruídos roucos de ar.
Ele não a reconhecia.
Hoje ela usava um sobretudo velho que nunca vestira diante dele, o cabelo estava preso em um rabo de cavalo simples e seu rosto ainda trazia vestígios da poeira do cemitério. Ela parecia uma pessoa completamente diferente da refinada e elegante Sra. Arthur.
Somado ao atrito do saco de estopa e ao pavor da escuridão, Arthur simplesmente não reconheceu que aquela mulher em estado deplorável diante dele era a esposa que ele um dia carregara na palma da mão.
No momento em que o bastão de choque tocou seu abdômen, Alice teve convulsões de dor. O pavor de seu trigésimo segundo suicídio por eletrocussão a dominou novamente.
Isso doía dez vezes mais do que as simulações do sistema.
Músculos em espasmo, ossos que pareciam ser triturados; ela se debatia violentamente no chão de cimento como um peixe fora d'água. Mas a dor maior era no coração.
Ela encarava fixamente o rosto de Arthur, vendo seus olhos indiferentes, sua mandíbula rígida de raiva, vendo-o infligir aquela tortura contra ela por causa de outra mulher.
"Continue", ele ordenou com voz fria.
O segundo golpe veio, depois o terceiro...
Sua consciência começou a falhar. Ela não conseguia acreditar que aquele homem, que preferia passar fome para dar seu pão a um gato de rua, havia se tornado aquilo.
Para vingar Diana, ele usava seu poder para espancar uma "estranha" até a morte.
Naquele dia de tempestade, quando ela o viu pela primeira vez, ele estava agachado na entrada de um beco, partindo seu último pedaço de pão ao meio: metade para um gato sujo e a outra metade ele guardou cuidadosamente no bolso.
"Ahhh—!!!"
No instante em que a corrente elétrica atravessou seus órgãos internos, as pupilas de Alice se contraíram bruscamente.
Seu corpo, no entanto, sentiu claramente um líquido quente fluindo lentamente por entre suas pernas.
Ela percebeu de repente — uma vida estava se esvaindo ali.
Era o embrião que ela havia implantado secretamente.
Três meses atrás, sob o pretexto de um exame de rotina, ela convencera Arthur a realizar uma coleta de sêmen. O médico, na época, balançou a cabeça dizendo: "O ambiente uterino é muito ruim, a chance de sucesso é inferior a 5%."
Mesmo assim, ela insistiu. A dor das injeções diárias de progesterona que aplicava escondida não era nada comparada à dor no peito quando Arthur dizia que "não queria filhos".
"Lice, sua saúde é mais importante", ele sempre a consolava assim.
Mais tarde, nos exames, os médicos continuavam céticos e ela finalmente desistiu... Mas ela nunca imaginou que o bebê tivesse sobrevivido!
Não, não!
Alice olhava desesperada para Arthur enquanto ele usava o bastão para dar choques ainda mais violentos em seu baixo ventre. Ele matou, com as próprias mãos, aquela pequena vida que milagrosamente sobrevivera.
Quando a eletricidade a atingiu novamente, ela teve o vislumbre de Arthur aos dezessete anos, agachado na chuva, dando seu último pedaço de pão ao gato: "Não tenha medo, eu passo fome com você."
Quando Alice acordou novamente, já estava em seu quarto familiar.
A luz do sol brilhava através da janela e os lençóis estavam limpos e macios, como se a brutalidade da noite anterior tivesse sido apenas um pesadelo.
Contudo, a dor aguda em seu ventre e o sangue seco em suas pernas a lembravam de que tudo era real.
[Ding!]
A voz do sistema soou de repente: [Detectado que a hospedeira sofreu traumas fatais e o valor de flutuação emocional ultrapassou o limite crítico. Para evitar o colapso da transferência, o sistema ativará o protocolo de resgate de emergência.]
Alice se apoiou com dificuldade, a voz rouca: "... O que isso significa?"
[Contagem regressiva para transferência: 10 dias.] A voz mecânica do sistema permanecia fria: [Hospedeira, recupere seu corpo durante este período para garantir que a alma possa ser desprendida integralmente.]
Ela estacou por um momento e começou a rir baixo.
Quanta ironia.
Até o sistema se importava mais com a vida dela do que Arthur.
Seus dedos tocaram suavemente o ventre agora plano, onde antes existia uma pequena vida.
Agora restava apenas desolação. Alice comprou o jazigo e preparou duas urnas funerárias; a pequena ficaria ao lado dela. Ela escreveu algumas palavras com delicadeza.
[Minha filha Marina, espero te reencontrar em outro mundo.]
Em seguida, ela foi ao crematório. "O horário de recepção do corpo... pode ser daqui a dez dias", disse ela suavemente, com a voz calma como se falasse sobre o clima.
O funcionário olhou para ela: "A senhora... tem certeza de que quer pagar o valor total agora?"
"Sim." Ela entregou um maço de dinheiro — o valor obtido com a venda de todas as suas joias e pertences pessoais. "Não notifique ninguém, apenas cremarem."
Ao sair do crematório, a luz do sol feriu seus olhos.
Restavam nove dias.
Seu testamento também era simples.
Ela detalhou o destino do dinheiro — tudo doado para um abrigo de animais de rua.
Organizou todas as suas senhas — contas de redes sociais excluídas permanentemente, diários queimados.
Ela até escreveu seu próprio epitáfio: "Aqui jaz alguém que tinha muito medo do frio, por favor, não a deixem tomar chuva."
Nenhuma palavra sobre Arthur.
Como se ele nunca tivesse existido.
Os soníferos já estavam preparados.
Ela colocou os comprimidos um a um na palma da mão e deitou-se na cama, como se fosse apenas dormir.
Assim estava bom.
Ela não queria assustar quem viesse recolher o corpo, não queria causar pesadelos a ninguém.
Como em toda a sua vida, ela estava sempre pensando nos outros.
O efeito do remédio foi rápido. Quando sua consciência começou a nublar, o celular reproduziu automaticamente uma mensagem de voz.
"Lice, vou viajar a trabalho para as Maldivas." A voz de Arthur era doce como sempre. "Deixei pratos medicinais para sete dias na geladeira, lembre-se de esquentar antes de comer."
Após a dormência inicial passar, uma dor terrível veio como uma maré.
Seu sistema nervoso começou a falhar, cada centímetro de músculo parecia perfurado por inúmeras agulhas.
Seus dedos se contraíram, agarrando o lençol com força até os nós dos dedos ficarem brancos. Seus pulmões pareciam cheios de cimento; cada respiração era como rolar sobre lâminas.
Cem vezes pior que a dor simulada pelo sistema.
Ela moveu os olhos com dificuldade e viu a tela acender novamente. Era um número desconhecido.
A foto de Diana vestida de noiva apareceu, com a legenda: [Ele disse que vai me dar o casamento que eu mereço].
Que ridículo.
Eles nunca tiveram um casamento.
Naquela época, ele disse: "Lice, quando a empresa abrir o capital, vou te dar o casamento mais grandioso de todos."
Mais tarde, ele disse: "Casamentos são exaustivos, tenho medo que sua saúde não aguente."
E agora... o casamento dele finalmente seria dado a outra pessoa.
Desta vez, não houve um "reinicio" por nível de vida zerado, nem contagem regressiva mecânica — apenas uma extinção real, longa e irreversível.
Com a respiração cada vez mais lenta, o sistema finalmente soou:
[Protocolo de transferência iniciado]
[Desprendimento do mundo em 3 segundos]
[3—]
Ela viu Arthur aos dezenove anos estendendo a mão para ela na chuva.
[2—]
Viu-o ajoelhado na neve dizendo: "Lice, se você morrer, eu não vivo mais."
[1—]
Ela ouviu a si mesma sussurrar: "Arthur, desta vez, eu vou primeiro."