Arthur passou vários dias seguidos na mansão da família para acompanhar Diana e seu filho. Alice guardava sozinha a imensa casa, sentindo-se solitária.
Parada no closet, ela acariciava suavemente os vestidos caros; antigamente, Arthur escolhia pessoalmente os modelos de cada temporada e, enquanto ela os provava, ele a abraçava pela cintura e sussurrava rindo: "Minha Lice fica linda com qualquer roupa".
Agora, ela dobrava essas peças cuidadosamente em caixas de papelão, colando etiquetas de "Doação Beneficente".
Era como se estivesse esvaziando sua própria vida. Em sua mente, o sistema perguntou suavemente: "Hospedeira, restam apenas 15 dias, tem certeza de que quer passá-los assim?".
Alice sorriu. Ela nunca imaginou que, tendo vivido totalmente dependente de Arthur neste mundo, agora teria apenas algumas centenas de reais em mãos. O valor não era suficiente sequer para comprar o bolo mais caro; com o rosto pálido, ela observava as opções através da vitrine.
"Olá, gostaria de um bolo de castanha de seis polegadas", disse ela, apontando para o modelo decorado com folhas de ouro. "Por favor, escreva: 'Feliz aniversário para mim'". O atendente sorriu e perguntou: "Precisa de velas?". "Sim", ela hesitou por um momento, "28 velas". Seria a última vela que apagaria para si mesma neste mundo.
Enquanto o atendente embalava o pedido, uma mão com unhas pintadas de vermelho vivo subitamente pousou sobre o balcão. "Eu vou levar este", disse a voz de Diana, doce e enjoativa. "Meu bebê completa um mês de vida hoje". Alice ergueu os olhos lentamente. Diana usava um vestido largo, com o ventre já plano, e exibia no pescoço o colar de diamantes que Arthur comprara no leilão do dia anterior — a peça que ele alegara ser para um "cliente importante".
"Quem chega primeiro, tem a preferência", disse Alice em voz baixa, mas fria como gelo.
Diana aproximou-se, encostando os lábios quase no ouvido dela: "Srta. Alice, não foi bem isso que o Arthur disse ontem à noite, enquanto estava deitado sobre mim ninando o bebê".
Naquele instante, Alice compreendeu que o relatório de gravidez que encontrara no paletó de Arthur fora deixado ali propositalmente por Diana.
Diana subitamente pegou o celular e fez uma ligação, com o tom de voz tornando-se meloso: "Arthur... tem uma mulher me humilhando na confeitaria...".
Do outro lado, a voz de Arthur soou carinhosa: "Quem está incomodando minha princesinha?". "Uma mulher sem noção", Diana fixou o olhar em Alice, aumentando o volume de propósito, "ela faz questão de roubar o bolo da festa de mesversário do bebê!".
A voz de Arthur tornou-se gélida: "Passe o telefone para ela". Diana, triunfante, pressionou o aparelho contra o ouvido de Alice.
A voz de Arthur soou como uma lâmina envenenada: "Não me importa quem você seja, largue esse bolo agora e suma daí. Se minha Diana e meu filho sofrerem a menor injustiça..." ele fez uma pausa, cada palavra carregada de ameaça, "eu farei com que sua família não consiga mais viver em São Paulo".
As unhas de Alice cravaram-se na palma da mão, e o sangue escorreu pelas fitas da embalagem.
Que ridículo.
O homem que um dia ficara ajoelhado na neve por ela durante três dias e três noites, agora a ameaçava com as palavras mais crueis — sem sequer reconhecer sua voz.
Diana tomou o bolo bruscamente, com um sorriso cínico: "Ouviu? O Arthur disse...".
Slap!.
O tapa de Alice fez Diana recuar cambaleante, e o bolo caiu no chão com um baque, sujando todo o interior da caixa com creme. "Este tapa", disse Alice limpando as mãos pausadamente, "é para te ensinar o que significa ter preferência".
Alice recolheu a caixa do chão e caminhou para fora. Seu celular tocou subitamente com uma mensagem de Arthur: "Lice, vou fazer hora extra esta noite, não me espere". Logo em seguida, outra mensagem: "Lembre-se de tomar leite quente e não se destape".
Ela olhou para as duas mensagens e lembrou-se de quando tinham dezoito anos e viviam espremidos em um porão.
Certa noite, quando ela sentiu dores gástricas, Arthur percorreu metade da cidade para comprar remédio e, ao voltar coberto de neve, aqueceu a caixa do medicamento contra o próprio peito para que ela a recebesse morna.
Dez anos haviam se passado; a traição mais dolorosa era aquela que vinha envolta em doçura.
O sistema disparou um alerta súbito: "Aviso! Sinais vitais da hospedeira estão anormais!".
Alice limpou o sangue que escorria do nariz e, segurando o bolo, caminhou em direção ao crepúsculo. Atrás dela, Diana chorava ao telefone: "Arthur! Ela me bateu! O bebê ficou assustado...".
Alice encontrou um parque e abriu a caixa com o bolo de castanha totalmente destruído. Sentada em um banco sob a luz amarelada dos postes, entre as sombras das árvores, ela ajeitou o bolo estragado diante de si.
O vento noturno estava gelado. Ela ajustou seu casaco fino e espetou as velas no creme, todas tortas, como sua própria respiração vacilante.
Ela riscou um fósforo, mas a chama tremeu no vento e, mal se aproximou do pavio, foi apagada por uma lufada de ar frio.
Tentou uma segunda, uma terceira vez... somente na quinta tentativa conseguiu acender a vela.
A luz fraca refletia-se em seu rosto pálido, como uma alma prestes a se dissipar.
Encarando aquela pequena chama, ela lembrou-se de quando eram paupérrimos, anos atrás.
Viviam em um quartinho alugado onde chovia dentro e dividiam até um macarrão instantâneo. No dia do seu aniversário, ele trabalhou secretamente em uma obra a noite inteira para comprar um bolinho minúsculo com o dinheiro que ganhou.
Naquela época, o vento também apagara as velas várias vezes, e ele, aflito, protegeu a chama com as mãos para que ela pudesse fazer um pedido: "Lice, peça um desejo, rápido!".
O que ela havia pedido mesmo?.
"Espero que Arthur seja feliz para sempre". Pensando nisso agora, era realmente irônico.
Ela comeu o bolo, colherada por colherada. O creme derretido misturava-se à massa esmigalhada, descendo de forma pegajosa pela garganta, como se estivesse engolindo um sonho doce e apodrecido.
As dores no estômago começaram, uma queimação familiar que se espalhava do abdômen para o peito. Ela não parou; continuou comendo até que a última gota de creme fosse engolida.
"Feliz aniversário, Alice", disse para si mesma.
O vento soprava as folhas secas aos seus pés, e ao longe ouvia-se o lamento de um gato de rua. Ela ergueu os olhos e viu, do outro lado do parque, um cemitério. As lápides emitiam um brilho branco e frio sob a luz da lua.
Parecia apropriado; restavam apenas quinze dias para sua partida definitiva e, se morreria sem ninguém, ao menos deveria garantir um lugar para pertencer.
Caminhou cambaleante em direção ao cemitério. O zelador idoso estava prestes a trancar os portões quando a viu, pálida, diante das grades de ferro. "Moça, o que faz aqui a esta hora?", perguntou ele, franzindo a testa.
Alice disse suavemente: "Quero comprar um jazigo. Quanto custa?". O homem hesitou: "Para quem?". Ela sorriu levemente. "Quero o canto mais silencioso", respondeu ela, "onde, de preferência... ninguém nunca me incomode".
O velho resmungou enquanto lhe entregava um panfleto: "O do canto é mais barato, trinta mil reais. Se quiser, venha amanhã que eu te espero... os jovens de hoje são estranhos, vêm escolher túmulo ainda vivos...".
Alice pegou o papel com as mãos geladas.
Finalmente, encontrara seu destino final.